                    A BODA DO POETA


                    ANTONIO SKrmeta


                    Crculo de Leitores


                    Digitalizao e Arranjo


                    Agostinho Costa



Um rico e bomio banqueiro austraco, Jernimo Frank, abandona
tudo e instala-se numa pequena ilha do Adritico, onde reabre
o Grande Armazm Europeu. Rapidamente se combina o seu
casamento com a bela e jovem Alia Emar. Prev-se uma boda
espectacular.

No entanto, os noivos no partilham de forma alguma o jbilo
popular. No nimo de Jernimo pesa a trgica lenda do antigo
proprietrio do armazm e da sua jovem esposa. No caso de
Alia,  o amor de Esteban Coppeta - descendente de um heri
mtico da ilha - o que lhe provoca incomodidade e desconcerto.
A magnfica boda vai terminar num acontecimento poltico e
blico terrvel que ultrapassa todos os personagens e acaba
por os levar do jbilo  tragdia.A histria de um amor
lendrio, num registo de intriga e humor, um olhar inteligente
e satrico sobre a Europa do pr-guerra, mas tambm a crnica
de uma estirpe de imigrantes que chega ao Chile nos princpios
do sculo XX.



                    Ttulo: A Boda do Poeta


                    Autor: Antonio Skarmeta


                    Ttulo original: LA BODA Del POETA


                    Traduo de JOS COLAO BARREIROS


                    para Nora e Fabin Cristbal


                    1999, Antonio Skrmeta


                    Crculo de Leitores


                    Publicado em Julho de 2000



     A causa imediata do levantamento foi o recrutamento 
fora ordenado no ano 6 d. C. por Tibrio por motivo das
invases germnicas. Mas as causas mais remotas e gerais, 
necessrio ir procur-las no sistema de opresso aplicado
pelos romanos em todas as regies ilrias, onde se construram
estradas com a nica finalidade de subjugar e explorar
despudoradamente os proprietrios de terras. At ento os
maliciosos haviam-se mantido sossegados, mas quando Tibrio
marchou segunda vez contra os celtas, e Valrio Massala, na
altura governador da Malcia, recebeu ordens de formar um
contingente com jovens em pleno vigor das suas foras, os
maliciosos no hesitaram. Os chefes da insurreio eram
annimos, ou melhor, os historiadores romanos e helnicos no
nos transmitiram os seus nomes.

                    ANTUN DAMIC

                    Breve Histria de Costas de Malcia



     A procura do vinho de Gema durou at ao tratado comercial
da ustria com a Itlia (1891), que estabeleceu a chamada
clusula do vinho. Por este acordo a Itlia pde exportar o
seu vinho para os territrios austracos em condies
preferenciais. Isto teve imediatas repercusses no mercado e
os preos baixaram. As exportaes desceram
significativamente. Desapareceu o estmulo para a plantao de
novas vinhas. O vinho produzido consumia-se quase
exclusivamente em Costas de Malcia, e restavam grandes
excedentes. Os navios ficaram imobilizados nos portos, sem
outras receitas. E para a desgraa ser maior, a filoxera
atacou os vinhedos maliciosos em 1894 e gradualmente
aniquilou-os.
  Devido a estas infelicidades, os camponeses, na sua maioria
vinicultores, sofreram grandes perdas. Na sua desolao
recorreram aos comerciantes ricos e aos grandes proprietrios
para que os ajudassem. Vendiam os seus escassos produtos a
baixo preo e pelo dinheiro emprestado pagavam enormes juros.
Os emprstimos usurrios empobreceram ainda mais o pequeno
campons. Como j no havia terra para outros cultivos,
viram-se obrigados a emigrar. Assim a gente de Gema, que antes
dava trabalho a outros, tinha agora de ir ela prpria procurar
trabalho em terras longnquas e estranhas.



                    ANTUN DAMIC


                    Histria da Ilha de Gema



     Quantas coisas se agitam no corao de uma mulher
     que no so para se mostrar  luz do dia!

                    HEINRICH VON KLEIST

                    Pentesileia



                         PRLOGO


     "Pelo que me contou o meu av em Antofagasta, ele
provinha de uma ilha to pobre que o homem rico da regio se
considerava afortunado  maneira dos contos bblicos, dos
contos de fadas, ou das gigantomaquias que contavam os
quinquilheiros que por l passavam. Um desses contadores de
histrias de cabelo desvairado e nariz da harpia, o Velhaco
Yaksic, espalhara a notcia de que para l de Itlia, da
Frana eterna, do indmito Atlntico e dos seus descomunais
icebergues havia uma cidade onde em vez de rvores brotavam
edifcios to altos que subir as suas escadas levava trs dias
e trs noites. Uma dama que conseguiu trepar ao cume do mais
alto dos arranha-cus voltou ao cabo de um ms dizendo que
tinha estado sentada  direita de Deus e que o Senhor era
igual s figuras do criador pintadas nas igrejas das nossas
aldeias.
  O meu nonno no acreditava nessas palermices e exageros, e
at emigrar tentara achar a frmula de um pesticida que
acabasse com a praga da filoxera, um mal que apodrecia as
videiras e arruinava as famlias camponesas. Com uma
apetecvel moeda de prata pediu aos charlates que na viagem
seguinte, em vez de Lhes trazerem mais notcias sobre essa
urbe de to magnficas urbes onde todos pareciam inchados qual
macacos teimosos, tornassem com uma tonelada de qumica para
atacar a peste das uvas e no as cabeas dos seus aldeos,
fartos de contos exticos e vidos de comida.
  O clere jogral guardou o dobro na algibeira e incurvel
acrescentou que em Nova Iorque as mulheres andavam com saias
to curtas que muitas vezes a deliciosa verdura da sua pbis
se derramava ao sentarem-se nos bares, e os tecidos que
cobriam os seus bustos eram to transparentes que se viam os
bicos dos peitos que nem medalhas de general prussiano.

                              15


  Disse que as suas cabeleiras louras escondiam tisanas que
enlouqueciam os homens, e que estes ao passar a seu lado
tinham ereces to significativas que loucos de vergonha
fugiam to rapidamente delas como se tivessem trs pernas.
Enfim, delrios que tambm nutrem com frequncia a literatura
dos nossos lares.
  No tocante a Nova Iorque o homem mais rico da aldeia
perderia as dvidas quando o estaleiro Bizzarro terminara
aquele navio capaz de rodear o Mediterrneo e zarpar at 
Amrica. O meu av exagera que um ano antes de emigrar, um
navio trouxe um dia tal carregamento de madeira e metal para
So Pedro que com esses materiais se pde fundar uma cidade
nova, dando assim trabalho a centenas de vtimas da epidemia.
  Com conscincia social vanguardista para a poca, enfrentou
dom Jernimo, o rico, lanando-lhe  cara que o patritico no
era ir a Nova Iorque descocar-se no meio de rameiras e
arranha-cus, mas ficar aqui e cuidar da adversidade dos seus
conterrneos.
  O homem mais rico da ilha no tardou a replicar aos
lamentosos argumentos do meu av, com um texto acerado que
ainda se pode ler nos arquivos ilhus do Adritico, acessvel
em microfilme na Biblioteca Pblica de Ancona. Resumo aqui
apenas o que  pertinente a este romance, para evitar entrar
na filigrana de dios e rivalidades pessoais to tpicos da
poca e que se tornariam hoje triviais e incompreensveis. A
parte que nos diz respeito apresenta dois dados significativos
para compreender o seu carcter e a repentina aluvio de
acontecimentos que culminaro na actualidade, quando o leitor
destas pginas, espero que mais com tristeza do que com
alvio, fechar o livro que tem nas mos.
  Com retrica populista e miserabilista, o senhor Skrmeta
fala-me da adversidade dos habitantes da ilha e pretende que o
meu corao apare as suas lgrimas como se essa palavra Lhes
pertencesse s a eles.
  Adversidade, cavalheiro,  um conceito que dever aplicar s
a mim. Porque haveria eu de me ocupar da adversidade de uma
massa organizada de seres preconceituosos e sibilinos quando
so eles, os seus compatriotas, que me afastaram fanaticamente
do casamento com algumas das suas filhas, aps a dilacerante e
trgica viuvez do meu antecessor, que at hoje  o cruel prato
do dia nas sujas bocas de todas as aldeias e casais? Que culpa
tenho eu do trgico desenlace de Marta Matarasso?
  Que mal tem projectar emigrar para Nova Iorque, a cidade que
j hoje  o futuro quando a superstio, a grosseria e a
vingana contra o que tem mais porque trabalhou melhor
impediram que tivesse famlia nesta terra que amo, no por
herana nem costume mas por orgulhosa deciso de forasteiro?
  Cr que no dia em que eu morrer, algum destes seres na
adversidade que menciona ajudar a deitar uma pazada de terra
sobre o meu cadver? Que filha ou filho tenho eu que v
baixar-me as plpebras quando a morte me levar numa madrugada
de fria adritica?
  Antecipo o meu futuro com precisa melancolia: ficarei hirto
entre as rochas, feito numa trouxa de algas, o mar vir
desfigurar-me as feies e os ces encarregar-se-o das minhas
vsceras."

  O jovem Skrmeta ficou perturbado com estas linhas que pela
primeira vez mostravam de dom Jernimo algo mais que o sorriso
de quando fazia rodar a manivela da sua caixa registadora para
receber a nota que pagava as suas mercadorias. Ficou dois dias
de cama atacado pelo vrus da tristeza, pensando que em vez de
argumentar contra os sentimentos do homem mais rico,
escreveria um intenso mea culpa que se conclua com um apelo 
piedade e fraternidade de todos os ilhus. Elaborou ento uma
enternecedora carta aberta para a edio semanal do jornal.
  Esta pea literria foi eficaz no reduzido ambiente de
camponeses, pescadores, anarquistas e mineiros. No h velho
que no acredite que foi graas  pluma do nonno que se abriu
a Jernimo o caminho para a bela Alia Emar, personagem
decisiva na fico que aguarda a curiosidade dos leitores.

                           16 - 17


  Nos anos setenta, a brutalidade de um ominoso ditador na
minha ptria fez-me partir para a Europa, percorrendo ao invs
o mesmo itinerrio do meu av. Durante anos vivi na Alemanha,
inconveniente que se atenuou no Vero quando desci at Costas
de Malcia, com a inteno de comer sol, peixe na brasa, e
conseguir o artigo original do meu av, em quem via o ltimo
grmen possvel da minha vocao literria. Privado do meu
pas, a vida quotidiana pareceu-me to modesta quanto
acolhedora, e no meu dirio de viagem dei conta desta trgua:

  O pastor sobe a montanha com as suas cabras. O poeta Nazor
sobe  torre a pastar palavras. Os veleiros sulcam a baa no
porto. As rugas sulcam o rosto de um av. O tipo assa os
peixes nas brasas. A av tempera uma salada. As lentas nuvens
do Sul aliviam O meu exlio em Costas de Malcia.
  Anos depois, este pas que me permitiu este ltimo suspiro
de ingenuidade entrou noutra guerra brutal que, em regies no
muito longe de Gema, dura at hoje. Vistas em grande, as
conflagraes impressionam-nos como tragdias. Conhecidas em
pequeno, h interstcios de comdia, stira e melodrama.
  Este ltimo foi o gnero em que se distinguiu a minha av 
hora da sesta em Antofagasta. Todos dormiam menos ela, que com
infatigveis olhos azuis e o mau gnio pacificado pela
sintonia do receptor Philco, ouvia folhetins gticos e
truculentos at concluir o tricotar de coletes, cachecis e
pegas, que invariavelmente recebamos de prenda pelos anos e
onomsticos. A nonna teve sempre uma fina percepo do
desenlace dos conflitos, intuies que hoje como escritor
profissional ainda lhe invejo.
  Nas pausas dos anncios da comdia, a minha av
prognosticava com forte sotaque malicioso, fazendo rolar os
erres, o que iria acontecer nos minutos seguintes  herona.
"Deus vai ajud-la e h-de recuperar a vista", (se era cega);
"um senhor de boas famlias vai tir-la do bordel e casar-se
com ela"; "vo cortar-Lhe o dedo para lhe roubarem o anel de
ouro"; "ir a Nova Iorque e um mdico famoso vai curar-lhe a
sfilis".
  A Esteban Coppeta s o vi uma vez no Clube Social Malicioso
de Antofagasta a perder uma partida de pquer numa precria
mesa debaixo de uma ruidosa ventoinha. Creio que no lhe disse
nada, mas lembro-me de que me fixou longamente quando o meu
av mostrou histrinico e triunfal um, full de reis, como se
sugerisse que eu tinha contribudo para lhe armar uma
ratoeira. Detenho-me neste pormenor, porque a nica coisa que
posso fidedignamente avalizar da narrao seguinte  a
vertigem desse olhar azul, ainda mais indefinvel que todas as
aproximaes que se tentam na minha fico.
  No que a Nova Iorque se refere, confesso que compartilhei da
mesma alienao com Reino Coppeta e ainda  a cidade que
continua a subir-me  cabea apesar das piadas dos meus amigos
esquerdistas.
  Durante muitos anos quis escrever esta obra, mas adiei-a
esperando que se armasse sozinha. Como os meus assduos
leitores j sabem, as imprecises l se arranjam para se
organizarem e constiturem esse tempo e espao soberanos do
romance.
  Dedico-o em primeiro lugar aos meus avs, porque mortos e
enterrados no Norte do Chile j no podem desmentir o que aqui
se conta.

                              18


                              A BODA DO POETA


                              1.


     Era uma vez um tempo de abundncia na remota ilha de
Costas de Malcia. As uvas dilatavam-se sob o sol que mais
pareciam luminosos sinos de igreja, a chuva era qual visita de
um familiar que nos d alegria quando chega e felicidade
quando se vai embora e as jovens donzelas ternamente vetavam
os fogosos noivos at que o casamento os fundisse. Marta
Matarasso era a mais bela das suas filhas, e a ilha fazia
conjecturas, s vezes sob a forma de apostas, acerca do homem
que a desposaria quando cumprisse os dezassete anos. Ainda
vivem nesse longnquo lugar netos de alguns que teraram
lanas por ela              , danarinos com sapatos de
verniz, pescadores de pele acobreada, estudantes mais ercteis
que proveitosos, burocratas de gravatas e bigodes enfatuados e
outras espcies de difcil pormenor.
  Tal como o bom Descartes proclamou que no h nada mais
espalhado que o senso comum, aquela remota ilha era uma
excepo. Os eflvios primaveris costumavam ser to intensos
que os vares s se acalmavam quando chegava o Vero e os
barcos traziam s praias farinhentas suecas e olheirentas
britnicas que conferiam com liberal caridade o que as do
lugar guardavam tecendo casaquinhos de crochet  espera do
momento em que a prola vermelha da sua honra coroasse
triunfal a noite de npcias, conforma rezava a letra de uma
turumba que ainda hoje se ouve.

                              23


  Embora a ningum faltasse nada, todos tinham pouco, e para
conquistar as raparigas os ilhus no possuam outro capital
seno o engenho. Contudo, muitas coisas mudaram quando se
abriu um imenso armazm europeu, ao estilo das grandes lojas
do continente tipo Harrods, Gath e Chvez, Temperley e
Thompson, menos para atender os nativos aldees, que s sabiam
aforrar caspa nos cabelos e fungos nos ps, do que para os
distrados consortes de suecas e inglesas que a compravam os
seus scotchs, havanos, champanhes e camisas de popelina
italiana sem pagar nenhum tipo de imposto.
  Assim beneficiavam s o dono do armazm e o Governo Central
de que dependia aquela ilha, situao que levou alguns nativos
rebeldes com ideias federalistas a erguer-se contra o governo.
Estes grupos chegaram a acumular inclusivamente uma dzia de
militantes. O primeiro deles teve grande actividade por
alturas do fim do sculo. O seu lder Jos Coppeta foi
recebido pelo Governo, onde o ministro da Terra e da
Colonizao lhe entregou logo um pergaminho pelo qual concedia
de bom grado a autonomia  ilha Gema com todos os direitos de
uma nao independente, poder para criar a sua prpria
bandeira e at, se quisessem, usar o dialecto local como
lngua oficial.
  Diz uma testemunha que o ministro foi at junto do mapa do
pas que estava pendurado no seu gabinete, confeccionado em
Paris, e pediu a Coppeta que Lhe indicasse onde ficava a nova
nao. Com orgulho, o rebelde apontou para a ilha de Gema a
uns dois mil quilmetros da capital, e o ministro s comentou
"no  assim to longe nem assim to perto", frase sibilina
que reflectia alguma inteno sem mostrar precisamente
nenhuma.
  A seguir pediu a Coppeta que lhe dissesse o seu nome e
apelidos completos, e ditou ao secretrio um dito, por meio
do qual a partir dessa data nomeava Coppeta presidente do
nascente pas. Ao perguntar-Lhe que nome Lhe poria, o
recm-designado presidente confessou com modstia que
manteriam o mesmo apodo da ilha acrescentando-lhe a expresso
Repblica Independente.
  - Repblica Independente de Gema - saboreou em voz alta o
ministro. - Soa bem.
  A autoridade sugeriu a Coppeta que ao cabo de um prazo
prudente se fizesse eleger em eleies democrticas, j que os
cargos designados arbitrariamente mais tarde ou mais cedo
enfureciam os fanticos da democracia, umas bestas que
confundiam as estatsticas com a inteligncia.
  O presidente designado deu grande valor ao conselho, e
pedindo desculpas pela falta de diplomacia, agradeceu os
pergaminhos do fundo telrico da minha ptria e comunicou ao
ministro que tinha de abandonar rapidamente o gabinete porque
seno perderia o barco que o levaria com a boa nova de
regresso  sua terra. O funcionrio no s desculpou a
compreensvel pressa do seu ex-sbdito, como ps  sua
disposio uma carruagem para o levar ao porto, e perguntou
com cortesia, prometedora da maior considerao, o nome do
navio que o conduziria  ilha. Coppeta sacou do bilhete e leu
em voz alta o apelativo do navio: Caronte. O ministro sorriu
abrindo com o seu gesto cada uma das peas da sua impecvel
dentadura, e disse a enigmtica frase: "Um nome muito ad hoc".
  Numa conversa informal e romntica que teve Jos Coppeta ao
luar no Caronte com uma turista alem de brilhantes olhos
verdes chamada Anna Dickmann, mostrou-lhe os pergaminhos que
proclamavam a independncia da sua ptria e a sua nomeao
como presidente.
  Mas na manh seguinte, ou seja, a poucas horas da idlica
sesso sob o plenilnio, com infinita falta de delicadeza, o
capito do Caronte Piotre Kheftanovic convocou todos os
passageiros das diferentes classes e exps diante deles a
cabea de Coppeta separada do corpo por uma presumvel
cimitarra turca. Juntando de forma grotesca o pescoo s
omoplatas do defunto perguntou se algum conhecia este homem e
se algum dos presentes assumia o afilado assassnio. Anna
Dickmann, incapaz de conter o seu horror, e abalada de
repentina viuvez, disse que nos encontrvamos perante os
restos mortais do presidente da Repblica de Gema e exigiu os
pergaminhos que acreditavam a sua nomeao.
  O almirante Piotre Kheftanovic pediu  bela dama que se
aproximasse a bombordo, e mostrando-Lhe dois barquinhos de
papel induziu a turista alem a lan-los ao mar.

                           24 - 25


No constante azul desse mar que havia cantado sem exagero
Homero, as frgeis embarcaes afundaram-se em poucos
segundos.
  - Receio que sejam os ttulos presidenciais que lhe
interessam, minha senhora.
  Segundo confessou Fraulein Dickmann anos depois de ocorridos
estes incidentes, Kheftanovic sara-se na ocasio com a
seguinte frase cujo sentido ela declara ter percebido to bem
que s deu esta informao aps o funeral do almirante Khef
tanovic dez anos depois.
  "Imagino que, consciente da sua beleza, a Fraulein
reconhecer que a harmonia do seu magnfico corpo tem origem
fundamentalmente na unio da sua cabea com as jugulares.
Seria altamente melanclico para si e para os seus admiradores
que estas peas ficassem desarticuladas na sua esttica devido
a uma inconfidncia sua."
  Fraulein Dickmann perdeu de sbito o tom acobreado que
adquirira na primeira etapa do seu Vero malicioso; as suas
requintadas e sensuais sardas pareceram oxidar-se de uma
penada, e renunciou a essa, e a qualquer investigao
posterior, com uma pragmtica palavra germnica: Terstehel.
  Este acontecimento teve para a psicologia dos rebeldes da
ilha um valor exemplar. Na segunda grande rebelio contra o
centralismo metropolitano, o encarregado de apresentar as
reivindicaes foi Jos East, um alfaiate judeu instalado em
Gema por falta de cobia e erudio em anarquismo, e tambm
excitado assediador de Marta Matarasso, a quem pretendeu
impressionar com um folheto de trinta pginas, publicado em
trs edies do jornal A Repblica, sobre o sentido libertrio
dos Velhos Testamentos.
  No porto principal do continente recebeu-o o mesmssimo
ministro das Terras e Colonizao, que em vez de Lhe outorgar
um ou dois pergaminhos, lhe deu um cheque em branco com a sua
assinatura e uma recomendao para o bordel Gudiza, templo
onde East proclamou com amoroso impulso a sua energia sexual e
as ideias revolucionrias das escrituras no meio das
arroubadas discpulas, que lhe deram uma despedida de maraj
quando um ms depois confirmaram que o cheque tinha mesmo
cobertura.
  Com sabedoria ancestral East absteve-se de voltar a Gema e
os seus camaradas anarquistas escreveram nA Repblica um
artigo sobre o assunto que consistia s num ttulo: "East
ficou no West."

                           26 - 27


                              2.


                    Com a aurola proftica de East
excomungada do horizonte, sentiu Stamos Marinakis, o primeiro
dono do armazm O Europeu, que o candidato mais estridente a
cortejar Marta Matarasso se auto-exclura do papel de
potencial noivo, e decidiu-se a exibir perante a belssima
donzela as suas virtudes econmicas e os seus atributos
fsicos. As primeiras eram evidentes. Ningum no Adritico,
piratas includos, podia competir com a sua fortuna. Tlipas
holandesas, ourivesaria da Costa do Marfim, esmeraldas
brasileiras, chocolates vienenses, caviar iraniano, sapatos
italianos, fongrafos RCA Victor A Voz do Dono, foram alguns
dos iscos com que despovoou o redil dos aspirantes,
conseguindo correr pela humilhao da riqueza com meia dzia
deles.
  No que toca aos atributos corporais, no se pode negar que
na poca Stamos Marinakis cultivava um cabelo com uns caracis
sobre a testa que lhe davam um terno aspecto de propaganda
lctea para bebs, e que ocultavam s mil maravilhas as
profundezas do seu apetite. Uma amostra deste, de que foi
inventor o prprio burgomestre de Gema, cidado de alma gentil
e estilo epistolar lacrimogneo que salvaria da sua solido
vinte anos depois Jernimo Franck,  a da competio na arte
de deglutir ostras, em que Stamos no se contentou com ter
feito o servio a cento e vinte unidades, e se ps a comer a
ltima da bandeja com concha e tudo. Os seus dentes tremularam
conforme rezava um artigo de Mar e Futuro, mas animado de uma
ferocidade jactanciosa succionou a ptrea cobertura do molusco
deixando plidos os seus rivais.
  A partir de ento, os ilhus alcunharam-no carinhosamente de
Abre-Latas. Vestido qual gladiador romano, camisas de
peitilhos alegrados com incrustaes de filigranas e um
fuminho de veludo que sabia levantar com graa a sua
ma-de-ado, Stamos apresentou-se perante Marta Matarasso
como um ser solar e prepotente, um empresrio grego a quem a
fatalidade pusera  frente de um imundo barraco, e cujo nico
consolo nesta terra seria que a bela colmada de virtudes e
regalos aceitasse casar-se com ele e fundar uma famlia que
desse progresso e glria  ilha dos nossos antepassados.
  Em termos prticos, explicaram as tias  bela rf, estavam
a oferecer-Lhe ser a rainha de Costas de Malcia e
recomendaram-lhe que evitasse pr-se com melindres porque os
comboios expressos s param uma vez na estao e nunca mais
voltam.
  Tanto as suas pragmticas tias, que tinham feito grandes
sacrifcios para a criar, como os vizinhos desejosos de
assistir  boda do sculo, fizeram ouvidos de mercador 
informao que Mote Vranicic, guarda-livros da Escola Rural
Ade Faride, pusera a circular na mesma noite em que o Gema
Express empatou a dois golos com o Turim de Itlia, graas a
Tadeo Moulian ter defendido um penalty aos oitenta e cinco
minutos  equipa visitante.
  O match fora to intenso que apesar dos barris de cerveja
vertidos para a bexiga ningum se disps a sair para os
sanitrios e quando o rbitro deu a apitadela final os tifosos
desbocados precipitaram-se para os urinis praticamente
correndo de membro no ar. Mote Vranicic, tal como o resto dos
espectadores, no tinha outro desejo seno esvaziar e fechou
os olhos diante da parede carcomida de urinas gozando do
prazer elementar da evacuao. J a meio caminho, e sob os
efeitos da urgncia superada, s ergueu as plpebras para
descobrir o Abre-Latas, que com os olhos velados e em posio
de xtase, lanava um jorro turbulento e eterno.

                           28 - 29


No a mariquice, mas simples curiosidade, levou a vista do
Mote da catarata ao rgo que a emitia, e ao ver o seu
comprimento e grossura sentiu que o resto do lquido se lhe
aconchegava na garganta. Com aquela ferramenta, filosofou,
Stamos Marinakis seria capaz de partir ao meio no s uma
ostra mas tambm um tanque.
  Nessa mesma noite pde comentar o incidente. O empate com
uma equipa de tantos pergaminhos trouxe os ilhus  glria e
os tifosos do Gema s tabernas, onde uma rodada de slivovitz
cortada com cerveja levou o Mote a contar o que acabava de ver
com os seus prprios olhos, narrando-o com a sua lngua
realista mgica. Para sublinhar as frases tapava as plpebras
com as duas mos e abanava a cabea como se quisesse livrar-se
de um pesadelo. Os paroquianos retiveram esse dado, e embora
ao princpio atribussem o relatrio a uma alucinao do
guarda-livros, no puderam evitar nos dias seguintes que
acompanhassem as suas compras no armazm O Europeu com
sub-reptcias olhadelas de soslaio para a braguilha de Stamos.
  Numa terra simples e tradicional as famlias bem
constitudas aconselharam as suas filhas a nunca se meterem
com o dono do armazm, e alguns consideraram de liberal
prudncia alargar a recomendao aos filhos vares.
  Mera inveja, determinaram com mais vontade que convico as
tias de Marta Matarasso. Se outros cidados tivessem a
oportunidade de Stamos e a sua fortuna lhes cortejarem as
fmeas, no se importariam nada de que o homem fosse um
dromedrio. De modo que quando o homem veio em plano mais
formal pedir a mo da moa, lhe deram o sim em dueto e em
unssono.
  O dono do armazm brindou de variadas maneiras com as tias
da beleza, bebendo o slivovitz aos golinhos, e virando s
vezes a cabea para a rapariga que o olhava fixamente com a
persistncia de uma foto de calendrio. As cores do lcool
assomaram s bochechas das mulheres, momento que aproveitou
com delicadeza o pretendente para solicitar autorizao de se
retirar por uns minutos para o terrao com a noiva. Sob o
plido alpendre celeste da modesta casa, Marta Matarasso
brilhou to naturalmente sedutora que parecia uma rainha
visitada por um simples carvoeiro. Havia algo intrinsecamente
plido na  sua ctis que a diferenciava das mooilas rurais
cujos rostos e narizes pareciam ter sido talhados  martelada
pelo sol. Stamos antegozou impudente como seriam esses lbios
de mrmore quando ele os animasse com a sua robusta lngua de
fogo.
  Molhando com ela a parte inferior do bigode, olhou
humildemente para a rapariga.
  - Quero dizer-te que nunca na vida te obrigarei a nada. E
menos ainda a casares-te comigo se no o desejares.
  Ela fitou-o com a curiosidade com que uma criana segue as
deslocaes de uma centopeia.
  - Eu desejo casar-me contigo.
  - Achas-me atraente?
  A rapariga assentiu com um sorriso.
  - Es corpulento, tens uns dentes buliosos, e um sorriso
brincalho. E alm disso h o dinheiro.
  Stamos julgou engolir meio litro de saliva antes de pegar no
alvo pulso esquerdo da rapariga.
  - Sabes que dizem coisas de mim - acrescentou o homem
cabisbaixo e movendo a ponta dos seus mocassins.No queria
calar o assunto.
  - Alguma coisa ouvi - disse ela, com os olhos fixos no mar.
- Mas as pessoas dizem tantas coisas.
  O homem pigarreou:
  - Alguma coisa... Alguma coisa do que dizem as pessoas 
verdade.
  - Quanto?... Quanto dessa coisa que dizem as pessoas 
verdade?
  Stamos levou com suavidade a mo da prometida  braguilha e
fez que a rapariga ficasse com uma clara ideia da sua
topografia.
  - Chia! - exclamou a pequena, mordendo a unha do indicador
da sua mo livre. Depois retirou a mo santificada pela
cincia, juntou-a  outra, e em ambas pousou a fronte como
numa reza.
  - Lamento - disse Stamos emocionado com a perturbao da
rapariga. - No  necessrio que se celebre a boda.
  Marta Matarasso desfez a sua pose e tocou os lbulos das
orelhas como que para acalmar o ardor.

                           30 - 31


  - O problema no  a boda - arrastou com lentido as
palavras enquanto fixava o homem com ar grave. Num relmpago
lembrou-se de que Stamos iniciara o seu sucesso comercial
entre os nativos vendendo as suas mercadorias a prazo.
Assomando a ponta da lngua entre os seus dois dentes centrais
sorriu at os olhos se lhe embicarem e disse: - No podias
entregar-mo em suaves prestaes mensais?

                              32


                              3.


                    VINTE ANOS DEPOIS


     Os preparativos nupciais de Jernimo e Alia Emar ocuparam
grande parte das lnguas e prognsticos dos ilhus e teriam
continuado nos falatrios da frivolidade e da perfdia, se
cinco dias antes da cerimnia nupcial, do alto da torre da
igreja, onde o sacristo e os seus adolescentes aclitos
dispunham plios festivos e bandeiras papais, Reino Coppeta,
filho do descabeado heri anarquista, no tivesse reparado
com vista de gerifalto e instinto poltico numa estranha
barcaa que se aproximava da costa, contornando-a ao mais
clssico e sibilino estilo Jeric.
  No Lhe escapou que a bombordo e estibordo trazia canhes e
embora no discernisse nenhum aparato, percebeu que eram os
soldados do imprio austro-hngaro que vinham recrutar os
jovens ilhus ou degolar os desertores.
  A primeira cabala sobre o assunto teve lugar nas alturas
eclesisticas e um rpido inqurito revelou a Reino que o
terror aos militares fazia que ao grupo de catlicos em seu
redor no parecesse de desprezar a ideia de se entregarem e
vestirem botes dourados, sabre, dlman de janota e salrio de
empregado fiscal. Os bastardos, ruminou o filho do prcere,
preferiam calar as botas da tropa em vez de enfrentarem como
desertores o cadafalso.
  Com a revolta do sangue Coppeta que agora Lhe fervia s na
cabea, perdeu o seu suave falar, chamou o sacristo,

                              33


e sequazes poltres e saltando do plpito correu para a rua
poeirenta com o fim de recrutar milcias entre os pescadores e
ordenhadores de videiras. Estes nunca tinham usado facas seno
para perfurar moluscos e usar a sua carne enfiando-a num
gancho de ferro, para assim tentarem os polvos nos rochedos.
  Qualquer tipo de arma cortante convinha ao caso, precisou
Reino, quando os pescadores lhe mostraram as facas oxidadas de
tanto lascarem suculentos moluscos nos recifes. E com piedosa
doutorana precisou que o fio da ponta bastaria para furar o
corao dos austracos e que a ferrugem dos metais no devia
preocup-los pois era improvvel que depois de mortos os
cadveres contrassem o ttano.
  Enquanto o impulsivo Reino sublevava ilhus com as suas
arengas, Esteban Coppeta, seu irmo mais novo, entrara no
Grande Armazm Europeu para buscar duas unidades de tabaco
graas ao capital proveniente de uma paralisada lula que
pescara e cortara s fatias com preciso cirrgica para a ceia
de uma viva. A sua modesta entrada no estabelecimento foi
muito menos pica que o seu ingresso noutros espaos, mas s
porque o local estava momentaneamente vazio. A verdade  que
Esteban possua uns olhos azuis de tal profundidade e grossura
que pareciam forjados em cobalto e desestabilizavam o
equilbrio de qualquer pessoa que aparecesse  sua frente.
Assim, consciente do magnetismo do seu olhar, deixava tombar
modesto as plpebras para poupar ao mundo as atribulaes do
encandeamento.
  Se Reino era elctrico e electrizante, Esteban apesar dos
seus vinte anos tinha a calma de um lago. Consequente com esta
imagem tendia para proclamar que a vida dava as suas notas
mais fulgurantes onde se estava, e que toda a deslocao era
intil. Uma caminhada at  praa parecia-lhe um ultraje 
ordem natural. Uma viagem a Nova Iorque, como continuavam a
projectar tantos rapazes no cais, impressionava-o como o maior
dos desatinos. Isto explica que uma vez adquirido o mao de
cigarros, se sentasse num plcido banco dO Europeu a sorv-lo
com o mesmo deleite com que o faria um condenado  morte antes
da execuo iminente. Parte da sua filosofia era  tentar que
todo o momento fosse to pleno que nunca tivesse necessidade
de se interrogar sobre o sentido da vida. "No tenho cabea
para pensar nisso", espetou em certa ocasio a um caga-tintas
livresco e pedante que mais tarde lhe arruinou a blis com
artigos nA Repblica.
  No meio de to esgotante canseira, aconteceu uma coisa que
Esteban confessa ter esquecido. H quem opine que por razes
de feitio, da Alzheimer, ou pela convenincia que aconselha a
no voltar  realidade quando j se tornou lenda. O facto 
que Alia Emar surgiu do interior do armazm envolta numa
revoada de tules brancos seguida de duas modistas francesas
que lhe seguravam o pano ao corpo com compridos alfinetes de
cabeas amarelas. Levaram-na at ao espelho, diante do qual,
ignorante da presena do rapaz, a donzela se ps a apalpar a
delcia do seu decote para ver se o armado Lhas moldava com a
insinuao precisa, e estendeu com as palmas a pea dobrada do
tule que esvoaou at mesmo aos ps do cliente, que conforme o
seu costume deitava uma voluta de fumo antes de aspirar a
fundo o tabaco.
  S quando a noiva pretendeu verificar se a sua touca
atravancada de um quilo de prolas e lantejoulas, que
dispusera em cndidas flores a sua prpria me, conseguiria
aguentar-se em cima do cerimonioso penteado francs que
considerava uma elevao do seu cabelo castanho para dar mais
dignidade, altura e fidalguia ao seu formato campons, pde
descobrir o intruso, que com esse grande talento para ficar
ausente, contemplava o espectculo como se tivesse entrado no
cinema para o ver.
  Alia Emar esteve quase a guinchar uma reprimenda, porm
mesmo atravs da via indirecta do azougado vidro, soube sentir
outra vez a vertigem desses olhos azuis de cobalto apesar da
sorridente serenidade com que estes a observavam.
  Do que se disse nesse instante h vrias verses: pe-se de
parte a de Esteban, porque o seu laconismo quando Lhe
perguntam pelo assunto o levava a mover o pescoo com
diplomtico torcicolo, sem aceitar nem negar. A das modistas
francesas que encheram a imprensa com expresses luxuriosas e
maupassantianas, tal como de castanholas bizetianas,

                           34 - 35


bem pode ser rejeitada porque ignoravam meticulosamente a
linguagem ilhoa. S se pode aceitar como historicamente
fidedigno o relatrio da noiva, corpus verbal ferido no
entanto pelo inconveniente da subjectividade, e, literalmente,
o da lenda.
  A prometida de Jernimo vira-se com violncia para Esteban,
que evita pestanejar para que a via das almas permanea livre.
Ao sentir a mulher que a viso no mediatizada pelo azougue do
espelho daqueles olhos abismais a perturba at lhe consumir o
sangue que Lhe irriga o crebro, s atina com a seguinte
frase:
  - O que fazes aqui, poltro?
  Sorridente, Esteban mostra o cigarro que fuma com ritmo
inaltervel e expulsa uma nuvem de fumo com a excelncia de um
sulto. A seguir responde:
  - Bem vs. Fumo uma beata.
  - E at quando?
  - Falta-me um bocadinho.
  Alia Emar cerra um plido punho e f-lo vibrar junto da sua
face plida que no mesmo instante enrubesce como se houvesse
provado um vinho violento.
  - No sabes, desgraado, que d azar um homem ver uma noiva
no fato de npcias antes de se casar?
  - No se esse homem for o noivo - sorri Esteban Coppeta
acariciando o buo como se j possusse o frondoso bigode que
pensava deixar crescer qualquer dia.
  - Mas acontece que o meu noivo  Jernimo Franck e que o
casamento ter lugar sbado  noite.
  O rapaz pe-se de p, e sem achar onde apagar a ponta do
cigarro, apaga-a na palma da mo e guarda-a no bolso das
calas. - Assim como ests eu no esperava at sbado e
casava-me contigo agora mesmo.
  A noiva decide avanar para lhe dar um murro no nariz, mas
detm-na algo infinitamente alegre nas cascatas cor de cobalto
no fundo dos olhos do intruso, e desliza um acerado sorriso
pelos seus lbios grossos.
  - E com que dinheiro me manterias se fosse o caso?
  Esteban mi o resto do tabaco no bolso e com a mo livre
coa a testa.
  - Essa  praticamente a nica pergunta para que no tenho
resposta.
  - Saber a resposta a essa pergunta  o que diferencia um
homem de um rapazelho.
  As costureiras fazem gestos ao rapaz afugentando-o, e este
abandona o armazm de olhos no cho qual co repreendido pelo
dono. Quando desaparece do local, a modista f-la virar-se
para o espelho e nota com espanto que os laboriosos alfinetes
que Lhe comprimiam o busto se soltam do pano vtimas da sbita
turbulncia das mamas de Alia Emar que se pem to duras como
os punhos com que cobre os olhos cheios de lgrimas.
  - gua - consegue dizer antes de desmaiar.

                              36


                              4.


     Ter contagiado a sua febre aos conspiradores parecia
causar-Lhe um alvio quase mstico. Chegou com o seu nariz
altivo, como se farejasse glria no ar, e saudou Esteban
espetando-lhe o indicador no umbigo.
  - Que tal, baby?
  O jovem deps suavemente as plpebras e deleitou-se com a
repentina brisa que vinha acalmar-Lhe a fronte. De olhos
fechados, disse:
  - No me chames baby, est bem?
  - Porque no?
  - Porque  uma palavra para os midos.
  - No, qual qu, homem!  uma palavra inglesa.
  - E que mais sabes dizer em ingls?
  - One dollar mister, please.
  - E que mais?
  - Fuck you.
  Esteban cruzou os dez dedos das mos e f-los estalar antes
de se esticar num bocejo.
  - Continuo apaixonado por Alia Emar - concluiu.
  - No s o nico.
  - Mas vai casar-se no sbado com dom Jernimo.
  - F-lo pela massa.
  - O velho Jernimo no tardar a morrer. Ento trato da
viva. - O velho Jernimo tem cinquenta anos. Se com sorte 
morrer aos oitenta, deixa-te de herana Alia Emar com umas
ternas cinquenta primaveras.
  - Ento serei seu amante.
  - Irmo, no ters tempo para isso. Os austracos vo pr-te
amanh de farda e capacete e morrers no Egipto estripado por
algum sarraceno.
  Esteban cobriu a ilha com o olhar de um profissional, e com
a amplitude de quem contempla um continente.
  - A mim no me vo apanhar.
  - Como vais consegui-lo?
 - Fujo.
  - Para onde?
  - Para onde calhar.
  - Para onde calhar.  um excelente stio.
  Com a sua sentena conclusiva ps-se a caminho do bar. O sol
teria de se atenuar durante muitas horas at que as sombras se
instalassem na ilha, e ento provar-se-ia se a estratgia
concebida era correcta. O piquete de soldados austracos
evitaria atracar no porto para no dar tempo  fuga dos
eventuais recrutas. O mais seguro era que pusessem o p no
Morro do Porco, nica enseada conhecida pelos estrangeiros.
Da correriam rpido pelas linhas onde se quebra a espuma do
mar e, em menos de dez minutos, entrariam nos bares capturando
os jovens borrachos e degolando didacticamente quem oferecesse
rebeldia.
  Esteban foi ter com ele numa corrida. Sem o olhar, o irmo
mais velho remoeu as suas slabas.
  - Sabes o que aconteceu  mulher de Stamos Marinakis na
prpria noite de npcias?
  - J o ouvi mil vezes.
  - Se Jernimo herdou dele o armazm, talvez tambm tenha
recebido o condo de matar as mulheres. O sangue correu at 
praia.
  - Reino, por Deus Santo, a histria no se repete.
  - Se no tivesses deixado a escola saberias que essa frase
no  correcta. A histria repete-se sistematicamente.
  Esteban agarrou-o por um brao.

                           38 - 39


  - O que queres fazer?
  - Eu?
  - Tu e os rapazes. Tinham mais facas nas mos do que
porcaria nos joelhos.
  - No te convm saber.
  - Porque no?
  - Trata-se de coisas de homens, baby.
  - Os rapazes via-se que estavam quentes. Tu mostras-te o
mais sossegado que pode ser. O que se vai passar, irmo?
  - Vamos armar-Lhes uma emboscada no penedo de Santa Marta.
Ali a distncia entre o mar e a praia  to estreita que no
tero tempo de fazer pontaria com os arcabuzes. Saltaremos das
sombras e furamos-lhes directamente o corao para no
sofrerem.
  Esteban agarrou o pescoo do irmo e fazendo alavanca com o
cotovelo apertou-o at ele no poder engolir mais ar.
  - No vais fazer nada disso, Reino.
  Um minuto demorou a recuperar o flego e um segundo a cuspir
violentamente para os ps do seu agressor.
  - Tiveste medo, baby?
  - Sou o teu irmo mais novo, e tenho de cuidar de ti.
  - Mas nem parecemos da mesma famlia: a mim corre-me sangue
nas veias, a ti orchata.
  - Algum na famlia tem de usar a cabea. Os austracos so
um exrcito, no um bando de salteadores. Vo massacrar-nos.
  - Mas no tm o direito de nos meterem dentro dessa merda de
farda para depois nos degolar algum inimigo que nem sequer
conhecemos.
  - S o que te digo  que so um regimento com carabinas e
canhes e no um clube de marisqueiros que abrem amijoas nas
rochas.
  Reino acariciou a garganta e olhou desafiador para o
horizonte. Nada naquele lugar lhe parecia alheio. Era feito
intimamente daquela terra e daquele mar.
  - Depois vemo-nos - disse despedindo-se.
  Esteban reteve-o com um suave abrao que o outro no
recusou. O rapaz tinha uma estranha confiana no vigor
persuasivo dos seus gestos, na inteligncia dos seus
silncios, e sobretudo na profundidade do seu olhar. Tirou-lhe
de surpresa o punhal da cinta.
  - Para maior segurana - acrescentou sussurrando -, fico com
a tua faca.
  O jovem aceitou essa carcia fraternal e ele mesmo completou
o gesto de ternura abraando-o com afecto. Assim caminharam
at ao toldo do bar.  sua sombra, Reino limpou o suor, e ps
pela segunda vez nesse dia o indicador no umbigo do irmo.
  - Fica com a faca, baby. Tambm tenho muitas.

                              40


                              5.


     Durante a noite, oito dos mocetes juramentados ainda
tiveram tempo para transportar o Steinway dos sales de dom
Jernimo para o Salo Lucerna, onde teria lugar a primeira
sesso de cinema da ilha. Era um dos mltiplos presentes com
que o dono do armazm O Europeu se queria mostrar agradecido
aos ilhus por terem entrado no caminho da sensatez e
aceitarem que ele desposasse a mais bela das suas filhas,
depois de h vinte anos o antigo proprietrio da loja cobrir
de estigma e superstio o negcio quando a sua noite de
npcias com a virginal e plida Marta Matarasso culminou na
crnica vermelha dA Repblica com o ttulo Sangue sob a Lua.
Os exegetas de Agram, especialistas em metforas, no tardaram
a desentranhar a aluso ao cndido satlite da Terra no
artigo: era o lenol da pureza.
  Jernimo preferiria uma descrio fria, pormenorizada e
imparcial do que aconteceu nessa noite de tragdia em vez da
diarreia lrica de mistificadores exegetas que com as suas
obscenidades tanta influncia tiveram nas supersties do povo
mantendo-o a ele durante uma dcada em quarentena sentimental,
at este ano feliz da trgua e porventura do armistcio.
  Consciente da dor que a cerimnia carnal entre Stamos e
Marta havia provocado na terra, Jernimo refugiou-se numa
mudez altiva quando lhe tocavam no assunto, uma atitude muito
propcia para tratar com os maliciosos, submissos e cordiais
na sua vizinhana, mas capazes de esfol-lo vivo no meio da
praa.
  Contudo, Jernimo cometeu um erro tctico, quando,
incomodado com o cerco de silncio e a velocidade com que as
mes fugiam da sua loja arrastando consigo as filhas
casadoiras, como se ele fosse Stamos e no o culto cptico de
Salzburgo criado na delicadeza de leituras, entrou na igreja
para entregar ao sacerdote alemo Franz Pregel uma confisso
urgente.
  O facto de falar com o padre uma lngua comum deliciosamente
contaminada de expresses maliciosas e de arcasmos fez que
Jernimo se sentisse amparado na figura desse homem de Deus e
no teve peias em que o seu corao ferido transbordasse no
ntimo forno do confessionrio. O doce padre l o foi animando
a que esgotasse todo o seu ressentimento e informao e
comprometeu-se a dar-Lhe relaes pblicas em Gema que lhe
permitissem reviver.
  Quando o comerciante austraco teve uma hesitao e
mergulhou num silncio obstinado, o padre jurou-Lhe que
poderia contar com toda a confidencialidade do caso que a casa
de Deus lhe garantia, bem como com o prprio temperamento do
confessor que se definiu como parco e taciturno.
  Na ternura desta intimidade, e no apogeu da sua emoo,
Jernimo disse com voz grave que, ao fazer o inventrio das
mercadorias abandonadas por Marinakis quando emigrou para a
China, encontrara o dirio da vida deste que continha, veja
bem, padre, a verso da sua fatdica noite nupcial. Um
documento assim, padre Pregel, nas mos dos caga-tintas do
jornal A Repblica prestar-se-ia para um festim de infmias e
para renovar as feridas, atentando contra a sua moral e
legtimo desejo de contrair matrimnio com uma nativa sem que
o carregassem arbitrariamente com o cadver de Marta
Matarasso.
  O sacerdote perguntou-lhe onde estava esse valioso dirio, e
Jernimo tratou de sac-lo da sua bolsa e p-lo nas mos do
santo homem. Este recebeu-o com gravidade, e quase com
modstia ocultou-o entre as pregas da sua tnica grenat.
  - Imagino que lhe ter dado uma vista de olhos.
  - Li-o de ponta a ponta vrias vezes.
  - E o que me diz?

                           42 - 43


  - O estilo  muito prprio de algum que numa aldeia to
pouco sofisticada fora baptizado como o Abre-Latas, mas talvez
pela situao em que eu prprio me encontro no pude deixar de
ler sem chorar as duas pginas finais.
  - O que dizem, homem?
  - Marta foi feliz. Imensamente feliz.
  - Uma informao que certamente reconfortar os parentes
dela. E como acaba o livrinho?
  - Sei-o de cor, padre. A minha vida agora carece de sentido.
Se alguma vez o acumular bens materiais me obcecou, agora nem
sequer a posse de uma cereja me interessaria. Estas pginas
tambm no significam nada. Escrevia-as para Marta, e sem a
destinatria falta-Lhes todo o valor. O mais natural seria
queimar este dirio mas a apatia consome-me. Que fique aqui no
meio de tantos outros escombros da lixeira que foi a minha
vida.
  O sacerdote dirigiu-se  consola e encheu dois dedais de
vinho doce. Trouxe o copo ao visitante e com a mo livre
tocou-Lhe no ombro.
  - Est a chorar, dom Jernimo.
  Este limpou a cara com as costas da mo e a seguir baixou-a
at ao corao.
  - Penso no que faria se acontecesse uma coisa destas  minha
Alia Emar.
  - No caia tambm em embustes, meu bom amigo. Arribe com
esse esprito que est toda a terra  espera do casamento do
sculo.
  De repente, com brusquido e rudo incompatveis com o tom
do dilogo at essa altura, Jernimo deixou-se tombar
abraando tenazmente os joelhos do sacerdote.
  - Diga-me uma coisa, padre. Alia Emar ama-me?
  - Claro que sim, filho. Levanta-te.
  O homem esfregou com desespero a testa na batina do padre.
  - Como sabe?
  - Toda a gente sabe. Vo casar-se.
  - Toda a gente no  ningum!  voc que me interessa! A si
deve ter dito a verdade no confessionrio!
 Desprendendo-se daquele inabitual abrao, o sacerdote voltou
 consola e serviu mais uma dose, desta vez para si prprio.
  - Nunca falmos do assunto. E se alguma vez tivesse dito a
mnima palavra sobre si, no a repetiria. O segredo da
confisso guia o comportamento desta casa de Deus. Tudo o que
voc me disse aqui, foi depositado no meu corao e para toda
a gente a minha boca ser um tmulo.
  O dono de O Europeu ps-se de p sem nimo para sacudir os
joelhos das calas.
  - Cuide com o mesmo segredo do dirio de Stamos Marinakis.
  - No se preocupe, dom Jernimo.
  -  o ltimo respeito que devemos a esse homem desditoso.
  - Deus o acompanhe onde quer que esteja.
  Nessa noite, procurando a companhia de Deus na natureza,
Jernimo no dormiu e ficou a caar asterides no cu
estrelado. Estendido na areia fixou a vista na Lua e
pareceu-lhe que s vezes as suas figuras sugeriam o rosto de
uma jovem morta. Prestou ateno ao chapinhar dos peixes
nocturnos e o seu olhar deteve-se nas fogueiras acesas numa
ilha vizinha. A conversa com o sacerdote transformara a sua
dvida numa angstia de que s a boda poderia arranc-lo.
  De madrugada, quando bbedo de mar e de lua subiu o caminho
calcetado para sua casa seguido pelo prepotente cantar de um
galo, estoirou-Lhe nos olhos um grafito que cobria a toda a
largura a parede esquerda da sua loja: "Stamos Marinakis,
fanfarro".
  Em vez de rebentar a murros a porta do templo do nfido
padre, angustiado com as traies e tragdias, ps os lbios
numa estatueta da Virgem Maria, e untando os lbios num
humilde gesso que simulava um tule celestial, rezou fervoroso
a Deus pedindo que Lhe desse nimo para perdoar as ofensas que
recebia at dos seus prprios pastores. Sem que acontecesse
nada de revelador, ao abrir outra vez os olhos a sua vista foi
captada por um desenho de Nova Iorque por cima da sua cama.

                           44 - 45


No topo do arranha-cus mais alto do universo assomava uma mo
fazendo um gesto de convite para a urbe. No seu depressivo
estado, o homem quis considerar que era esse o sinal que o cu
Lhe oferecia. Aquela imagem iluminava-lhe a mente e levava-o a
compreender que no havia nenhuma razo para permanecer casado
em Gema, essa pequena galera de galeotos ferozes e xenfobos.
Casar-se-ia com Alia Emar pondo um ponto final naquele
terolho purulento no Sul da Europa, naquele torro
infinitamente ignorado no Novo Mundo, e definitivamente aquele
nada total e absoluto comparado com a galxia.

                              46


                              6.


     No sbado seria a boda, no domingo zarparia com a sua
amada para o porto italiano mais prximo, e se o navio que
andava h meses a construir Bizzarro fosse o que o hbil
napolitano prometera, seguiria com ela para Nova Iorque sem
temer as montanhas de icebergues do Atlntico.
  Uma inquietao to inexplicvel quo premente levou-o at
ao estaleiro. Os operrios esmeravam-se com animador
entusiasmo nos acabamentos do navio, e Jernimo abordou sem
prembulos o engenheiro italiano com a incisiva pergunta se,
de acordo com a sua experincia e douta opinio, o barco de
fragorosa madeira e ampla quilha que acabava de concluir
poderia realmente tocar a costa do Novo Mundo. Bizzarro fizera
uma aposta com o seu mestre dos estaleiros de Copenhaga
gabando-se de que tendo ao dispor materiais de ptima classe,
conseguiria construir um barco capaz de chegar a Veneza ao
cabo de duas noites de navegao. Na pausa que o napolitano
arranjou antes de responder pde ouvir com tanta fora o
pulsar do corao de Jernimo que decidiu que a sua resposta
deveria conter uma conotao prudente e positiva.
  - Com este barco, signore, poderia chegar daqui at Veneza e
l apanhar um transatlntico para Nova Iorque.
  - Professor Bizzarro, poderia meter dentro do transatlntico
o meu navio?
  O hbil napolitano piscou os olhos, recurso que quase sempre
lhe permitia fazer do insolvel algo potvel.

                              47


A seguir, pigarreando, e consciente de que no sbado era a
boda e que portanto a soldada do mestre estaleiro seria
acompanhada de umas suculentas broas, disse com superioridade:
  - Em teoria  possvel.
  E antes que o milionrio lhe perguntasse como reza o lugar
comum, e na prtica?, disparou-lhe  queima-roupa se j tinha
lido nA Repblica dessa madrugada o magnfico poema dedicada
por Annimo  sua noiva Alia Emar. Temendo que a lrica
estivesse ao mesmo nvel do brutal grafito contra Stamos,
intimou Bizarro que lhe recitasse sem demoras os versos que o
haviam fascinado.
  - Sou incapaz, signore, de repetir as luminosas estrofes.
Mas depois da evacuao matinal pendurei no gancho da retrete
a edio de hoje. Se quiser aliviar-se, indico-lhe a casa de
banho, onde poder apreciar de caminho que foi concludo com
todo o luxo, incluindo espelhos alemes e madeira de larcio.
  Jernimo sentiu que uma circunstancial e providencial
diarreia o assaltava e quase agonizante, apoiado num ombro do
italiano, foi at ao reservado. Correu com um suspiro o fecho,
e baixando depressa as calas puxou do gancho A Repblica, e
sem demora ps toda a sua ateno no suplemento literrio.


                         Alia Emar


Alia Emar diz o teu nome
Ali ao mar quero chamar-te.
Que ardente fuga te roube
de paixo, com graa e arte.


Com a suavidade da nuvem
bela e espontnea nasceste.
Altiva cresceste e sbia
como se eleva o cipreste.


Porm hoje a dita  doutro
vai teu corpo ao himeneu.


Sers o manjar do ogre
e esta dor do teu efebo.


Venha do cu a tormenta
que o teu destino te troque.
Um olhar azul de pedra
chora cobalto no bosque.


  Antes de se deixar alarmar por estes versos de rapina,
verificou os dados que o ajudavam  investigao: o criador
dessa magra matria no fazia gala seno de dois atributos, a
saber, que era jovem (leia-se efebo) e que tinha olhos azuis
(choraria cobalto, no bosque). Que estivesse combinado com a
sua prometida para fugirem antes da boda era improvvel,
porque o rapsodo se mostrava mais etreo que prtico. A
eventual fuga existiria se o cu quiser", ou seja, delegava o
trabalho prtico em Nosso Senhor, hierarca com muitas tarefas
urgentes para se ocupar com as masturbatrias oraes de um
msero lirfono.
  Que a eventual fuga no era mais que retrica barata
provavam-no outros dois dados do liricida. Dava por inevitvel
a noite nupcial com o seu rival nesta afirmao totalmente
apodctica: "Sers o manjar do ogre e esta dor do teu efebo."
Isto , tirando um milagre, o malogrado poeta no teria outro
consolo para mitigar o seu sofrimento que ouvir no bosque como
chiam as molas nupciais da noiva impregnada de luxria quando
o seu viril esposo a cavalgar num galope a caminho do cu.
("Deus meu", corrigiu-se, "no leves este argumento  letra.")
O segundo dado no precisava de detective; os versos haviam
sido dados ao prelo e nenhum preso que queira fugir mandaria
um comunicado prvio ao carcereiro a contar-lhe a sua futura
faanha. O internacional co que ladra caa aqui que nem
ginjas.
  Concluso, nada para se afligir. Com entusiasmo ps a foLha
com o poema dentro da sanita de porcelana austraca,
friccionou com ela o cu, e depois de esfregar cada milmetro
das suas ndegas com os restos mortais da ablica rapsdia,

                           48 - 49


ps-se de p, deu um puxo ao manpulo de alvenaria espanhola,
e perscrutou como a salina gua que brotou em cascata
dissolvia equilibradamente num nico ensopado produto o texto
e a merda que desembocaram no Adritico sem deixar mcula na
loia.

                              50


                              7.


     Consta na filmagem do Salo Lucerna que numa cadeira de
espaldar estava Alia Emar, num aparato de ctrica seda
amarela, to manhosamente disposto que mais do que cobrir
seios, cintura e ndegas, parecia sua misso reviver os sonhos
de duas geraes de homens que haviam contrado o
contraditrio hbito de ador-la e de se dizerem com os seus
botes que aquela mulher no era para eles. A sua perfeio
no poderia dilapidar-se nesta ilhota de videiras, azeitonas,
cabras famlicas e vinhos doces.
  Quando Jernimo iniciou o seu assdio a Antonio e Magdalena
trazendo-Lhes mercadorias dos barcos recm-aportados,
fantasiosos coletes de cetim brilhante para o pai e cintas de
terna flexibilidade para a senhora, os jovens sentiram o
alvio de verem confirmado o seu fatalismo: era mais terrvel
sab-la inacessvel para todos do que conceb-la amante de um
s entre os seus pares.
  A foto mostra junto de Alia Emar o seu progenitor Antonio,
corte de cabelo feito ao domiclio por um fgaro de tesoura
cosmopolita, fato azul de casimira inglesa salpicado de finas
fieiras vermelhas, de cujo peitilho brotava uma serena gravata
de seda, anular coroado por um anel que a charlatanice
calculava em meia libra de ouro, e charuto de trs centmetros
de espessura por baixo do imperial bigode. NA Repblica do dia
seguinte o conjunto era descrito piedosamente como a
caricatura de um milionrio.

                              51


  A sua esposa Magdalena em contrapartida dava uma lio de
modstia: um simples vestido de cetim amaranto, largussimos
sapatos de salto mdio, colar de prolas verdes que condiziam
s mil maravilhas com os seus olhos, e uma pequena boina preta
tecida a brunido crochet. Desta desprendia-se at meio da
fronte a rede de um vu que cobria com rigor histrinico a
eloquncia dos seus olhares.
  Na mesma fila, v-se um punhado de gringagem fanfarrona
sada do barco que trouxe as vitualhas nupciais, contando uns
aos outros ordinarices em alemo e ingls que celebravam com
palmadas nos joelhos e enxugando a transpirao com as mangas
e com lenos untados de gua-de-colnia.
  Jernimo aparece junto do pianista hngaro Adam Policzer,
instalado j h muitos anos em Costas de Malicia e reconhecido
no arquiplago como um ser imemorial sem geografia nem
amgdalas, alheio a esses conflitos ancestrais que costumavam
acabar em degolaes. Ele tocava Sobre as Ondas, a Marcha
Nupcial, a Ave-Maria, no rubro culto, qualquer pentelhada de
turumba na rea dos sons populares, e partia no primeiro bote
de madrugada contando o honorrio e as gorjetas que lhe tinham
metido os danarinos bbedos no chapu de feltro.
  Jernimo no se esquecia de piscar um olho  sua prometida e
de Lhe ordenar com um gesto das sobrancelhas que baixasse um
pouco a saia nas coxas, porque a sua pele distraa demasiado a
ateno dos convidados.
  Por ltimo a imagem revela a variegada multido nos bancos
trazidos da igreja, sem costas, que ia da fila dois at 
oitava, todos os fatos limpos e humildes, muito familiarizados
com a madeira onde se apertavam durante a missa dominical.
  De p, junto da porta, tomado de irritao, o reprter dA
Repblica disparava olhares irnicos para o mecenas do acto e
os cpticos espectadores que apostavam que as mentiras
contidas no celulide, que se anunciavam como
desesperantemente ms seriam pueris truques de magia para
gaiatos pequenos.
  S ele podia prever os calafrios que transformariam essa
massa brbara em elctrica gelatina quando no final de The
Great Train Robbery, o actor George Barnes apontasse o seu
revlver para o pblico e disparasse.

                              52


A empresa distribuidora convidara-o especialmente h uns meses
para a estreia do filme em Agram, e at esses seres
relativamente contaminados pelo ambiente cultural do
continente haviam sofrido desmaios e taquicardias nalgumas
cenas.
  Essa experincia permitira-lhe na edio dominical do seu
dirio escrever com exemplar suspense a histria do filme e
at sublinhar alguns aspectos revolucionrios da stima arte,
falando dos enquadramentos, e celebrando as ocasies em que
Porter omitia as sequncias filmadas de frente, como no
teatro. Espraiou-se pedante no episdio da perseguio a
cavalo dos ladres, explicando o que  um plano em
profundidade atravs do afastamento ou aproximao dos actores
em relao  cmara. Tinha gostado de escrever este
solilquio, digno do Times, para os doces apanhadores de
amndoas em Gema apesar de no terem compreendido nem um
pepino porque, para j, nunca tinham visto cinema.
Dificilmente poderiam perceber as grandes inovaes do
realizador Porter.
  No entanto estas vicissitudes inquietavam-no menos que o
enquadramento" real  sua volta: uns vinte jovens, com as
fraldas da camisa artisticamente soltas sobre as suas
braguilhas, por algum motivo enigmtico alteravam a disciplina
ancestral de meter as blusas por dentro das calas. Achavam-se
meninos de coro, mas o turvo, quase sulfrico olhar que
espalhavam em redor, no lhes dava precisamente um toque
angelical. O jornalista Pavlovic aproximou o seu faro do que
parecia mais fogoso, Reino Coppeta, e perguntou-lhe 
queima-roupa o que se passava.
  - Cinema - disse Reino.
  - Para os cordeiros - sublinhou Pavlovic. - Mas para os
lobos?
  Alargou o olhar ao conjunto de mocetes encostados  parede
do Lucerna e a seguir com o dedo mindinho apalpou a Reino o
enchumao metlico que se anunciava por baixo da camisa 
altura da correia. Reino sorriu com ironia.
  - No me diga, Pavlovic, que de h um tempo a esta parte deu
em maricas.

                              53


  - Trago o jornalismo no sangue e mesmo que um dia perca um
olho pela minha imprudncia hei-de tentar sempre andar bem
informado nem que s vezes me tenha de haver com um
traga-moiros como tu.
  O jovem pensou um momento selando os lbios com o indicador
esquerdo, mediu o reprter dos ps  cabea num piscar de
olhos e petrificou outra vez o sorriso na cara.
  - O que quer saber?
  - A carga.
  - O qu especificamente?
  - Punhais ou pistolas?
  Reino juntou as mos e abanou-as com um gesto de mercador
italiano.
  - Onde h pistolas, cavalheiro?
  - Ento punhais.
  - Muito cortantes.
  O jornalista esperou que o rapaz desfizesse o sorriso e
ento, humedecendo os lbios, atacou a pergunta (para a sua
vida profissional) do sculo.
  - Onde, quando, quem?
  Reino virou-lhe as costas e saiu para apanhar ar.
Escurecera. Pavlovic fitou a amplido da noite, e por um
minuto deixou que soasse apenas a cintilante rotina do mar.
  - Reino?
  -  tudo o que posso dizer-Lhe.
  Na sala ouviram-se os primeiros acordes do hngaro a
experimentar o piano. Algum apagou a luz e um guincho de
excitao mais natural que fingido empurrou para a ponta do
banco as ndegas dos vizinhos. Pavlovic encolheu os ombros,
indiferente.
  - Talvez haja uma coisa que a tua juventude ainda no te
permite compreender. Existem os factos e a histria. Os factos
se no se contarem, se no houver algum que os mostre, no
tero sentido. Para isso estamos c ns, os jornalistas.
  - Ora! Se no houvesse factos os jornalistas no teriam de
que escrever.
  - Com efeito, publicaramos poemas. E a propsito, se 
Jernimo souber quem foi o autor do texto de hoje, vai
produzir um facto que te causar um problema histrico.
  - Era uma poesia annima.
  - To annima que o prprio autor ma entregou nas mos.
  Reino afastou-o com um empurro e a seguir revolveu a palma
da mo direita na cinta.
  - No seja chantagista, Pavlovic.
  - No tenho nada contra o teu irmo, salvo a minha averso
pelo seu estilo. Mas quero contar a histria porque estou
convosco.
  - Com quem?
  - Com quem for. No suporto os austracos nem em Viena e
menos ainda no nosso pas.
  - Com a idade que tem no vo recrut-lo. De que tem medo?
  - H coisas maiores que um tipo, Reino. Por exemplo, a
ptria.
  O jornalista corou sentindo que o rubor o electrizava at ao
ltimo cabelo. Dissera uma frase to falsa e de mau gosto que
lhe brotou a transpirao na fronte como uma sbita maleza.
Olhou at ao fim do porto, sem se poder convencer de que esse
territrio primitivo fosse a sua ptria. Que lhe importava um
chavo aquele matagal?
  Nunca imaginou que esta melosa retrica tivesse efeito no
lder rebelde. Estava a fit-lo de olhos brilhantes e hmidos,
e pigarreou antes do comunicado transcendental. Murmurou-Lho
no lbulo.
  - Antes de acabar o filme. Penedo de Santa Marta.
  Pavlovic bateu-lhe com carinho na bochecha direita.
  - Vais fazer ptria e histria - concluiu declamatrio.

                              54


                              8.


  Ao princpio da funo Reino manteve-se de p junto dos
conjurados tentando ignorar o espectculo com a reticncia
provinciana de quem cr que a realidade acaba onde termina o
seu prprio corpo. Mas  medida que o conto se alinhavava
misturando cenas de massas com primeiros planos de rostos dos
actores, foi sucumbindo num feitio to magntico que se
deixou cair na ponta do banco traseiro junto das beatas de
Trono Alto, e contribuiu com a sua boca aberta para o total de
duzentas mandbulas cadas que Pavlovic anotou no seu livrete.
Juntamente com a palavra mandbula,, que lhe provocava
deleite, ocorreu-lhe uma linha para os ttulos do dia
seguinte: A NOITE DUPla; Tiros a fingir no cinema, facas a
srio na praia.
  No ecr, embalado pelo excesso de trmulos do pianista
hngaro, os assaltantes do comboio obrigaram os viajantes a
apear-se, roubaram-Lhes as bagagens e assassinaram um que
tentou escapar, acontecimento que provocou um unnime grito de
repdio nos espectadores, incluindo Reino Coppeta.
  A seguir os bandidos sobem para a locomotiva com os despojos
do saque e obrigam o maquinista a p-la em marcha e
desaparecer na distncia. A mquina pra. Os bandidos saem e
afastam-se rapidamente, atravessam um ribeiro e a magnfica
cmara mostra os cavalos que os esperam debaixo das rvores.
Montam-nos e arrancam a galope. Precisamente quando a
impunidade parece impor-se, a filha do telegrafista entra no
escritrio, v o pai amarrado pelos bandoleiros, solta-o das
cordas e  este irrompe no Salo Far West a recrutar homens. A
festa acaba. Os paroquianos montam nos seus cavalos e seguem a
pista dos bandoleiros, de escopetas prontas. Numa colina cheia
de rvores comea um tiroteio entre os bandidos nos seus
corcis e os bons nos seus Colts. Os delinquentes so
encurralados e aps uma luta desesperada fazem-nos
prisioneiros. Nesse momento, George Barnes, o chefe dos
desnaturados, vira-se, aponta o revlver ao pblico, e os
ilhus escondem-se no cinema debaixo dos bancos. Incluindo
Reino Coppeta.
  O pianista bateu com o punho trs vezes mais que o
necessrio para enfatizar os tiros, e s com essa Herica 
Tchaikovsky os espectadores se animaram a levantar-se; o
maquinista acendeu as luzes, e uma ovao premiou o empresrio
Jernimo Franca, portador pela primeira vez desse filme
enfartante  ilha.
  Os aplausos foram longos e no declinaram de intensidade
durante minutos. De modo que Jernimo pediu  sua prometida
que agradecesse ela este tributo como se fosse a herona da
pelcula. A rapariga inclinou-se com tal elasticidade que os
seus peitos amarelos brunidos pelo tecido aumentaram a
excitao dos paroquianos. Incluindo Reino Coppeta.
  O rapaz foi consumido por uma ausncia to impecvel que
muito tempo depois de se esfumarem as imagens continuava
magnetizado pelo ecr, e os fotogramas corriam-lhe teimosos
pelas retinas. De repente, como se os pigmentos do filme
comeassem a desfazer-se nas suas maxilas, desatou a chorar,
com o estrondo e a bulha de uma criana, derramando lgrimas
incompatveis com a sua idade e viril temperamento. Os
paroquianos vieram em seu socorro com copos de gua e lenos,
e o jovem aceitou-os com a inanidade de quem viu falecer um
familiar prximo e precisa da compaixo e do calor de meio
mundo. Acariciaram-Lhe o cabelo, deitaram-lhe a cabea numa
almofada, animaram-no com uma dose de slivovitz, e at a
prpria Alia Emar lhe untou as plpebras com dedos benzidos
previamente pela sua deliciosa saliva.
  Quando depois de beber o copinho de licor e respirar fundo,
se disps a articular uma expresso, s conseguiu dizer:

                           56 - 57


  - Nunca... vi... nada... to... bonito... - antes de desatar
a chorar outra vez com sufocos e vermelhes alrgicos na pele.
  Mas de repente o iminente defunto saltou do cho com a mesma
energia desses palhaos de madeira que saltam com uma mola
quando se abre a caixa de surpresas, e procurou a presena dos
seus camaradas da conspirao com o desespero de um nufrago.
  Tirou o punhal, e uivando  noite estrelada ps-se a correr
com ele em riste para a praia. A vergonha da sua desero
f-lo ofegar furioso, e o terror de ter metido os seus
compatriotas numa emboscada que podia ter fracassado f-lo
sangrar das narinas. Quanto mais corria, mais aumentava o seu
medo de que os rapazes, sem as suas ordens tcticas, tivessem
sido massacrados pelas balas dos fuzileiros austracos.

                              58


                              9.


     Do pedregal calcinado por cima da pedreira, viu ento os
seus rapazes em redor de uma fogueira, de trax desnudo, as
brancas camisas arrumadas sobre as pedras, e as pupilas fixas
no vaivm das chamas. Quando saltou o par de metros para cair
junto da fogueira, os jovens mal Lhe concederam um pestanejar
e voltaram ao tenaz fogo que os absorvia. Aproximou-se de
Rolando, o nico que na sua opinio o seguia em coragem e
determinao, e pediu-lhe que contasse o que acontecera.
  - Matmo-los.
  Ento Reino pde ver que cada um deles tinha o seu punhal
enterrado na areia junto aos ps. Ningum Lhe devolveu o olhar
quando os procurou um a um pedindo os seus olhos.
  Descravando o punhal de Rolando apertou-o pela lmina e o
sangue fluiu dos seus dedos. Ofereceu-lho de volta, com o
queixo altivo.
  - Degola-me.
  Como que combinados os jovens prestaram ateno  cena,
mudos, metidos nesse especial silncio que diferia tanto do
bulcio pueril com que Reino os associava. Observaram a mo
estendida que sangrava, o cabo da arma oferecida quase com
ternura, e a seguir a impassvel atitude de Rolando, que em
vez de lhe pegar limpou com um brao as narinas e aspirou o
resto dos seus fluidos engolindo-os. S ento aceitou a faca,
para a cravar de volta na areia.

                              59


  Reino foi at  fogueira e espezinhou os ramos em brasa
provocando um crepitar cujas chispas alcanaram alguns dos
seus sequazes.
  - No me vo falar, suas merdas? Onde esto os cadveres?
  Rolando apontou-Lhe com o queixo a escuna e deitou-se de
costas, a cara perpendicular s estrelas. O jovem Coppeta
atirou a camisa para a areia, desfez o n da corda que Lhe
atava as calas de cetim cinzento, e nu mergulhou nas guas do
mar. Rolando no quisera degol-lo e agora era absolutamente
improvvel que um remoinho com restos de moluscos e esqueletos
de aves podres o sugasse para esse espao onde pensar no faz
sofrer. O vazio que lhe esvaziara a cabea, que o desmiolara
com uma dessas bicadas incisivas dos pelicanos.
  Trepou  embarcao pela escada de corda a bombordo e ao
tombar no convs assaltou-o a imagem dessa dezena de soldados
dispersos, inertes desde a corrente da ncora at  quiLha,
simples cabotagem sem valor, sacos cheios de estopa. Foi at 
carranca da proa e desse ngulo privilegiado viu o leme e
sentiu o impulso de se agarrar a ele com os dedos
ensanguentados.
  Subiu a escadinha at  ponte de comando seguido pelo
palpite de que algum respirava a bordo, quase como um eco do
seu prprio arfar. Agradeceu a imprudncia de ter nadado com o
punhal entre os dentes como quando iam mergulhar ele e Esteban
em semanas de mars vivas e na espessura do mar eram capazes
de ver tridentes, golfinhos e sereias, e tambm aquelas
medusas que pareciam princesas mas que estrangulavam na sua
massa viscosa o heri do conto quando estendia os lbios para
as beijar. Tocou o leme com respeito sagrado e a polida
madeira das suas hastes levou-o num arrebatamento a outro
mundo, nenhum real como essa Nova Iorque que punha todos
loucos, mas a um reino semelhante ao dos contos, ao do cinema,
ao maldito cinema que o distrara e agora o coroava de cobarde
e traidor perante os seus prprios homens. Ento uma voz muito
secreta chamou-o.

                              60


                              10.


     Reino?
     O trnsito do brilho lunar para a penumbra donde provinha
o seu nome deixou-o exposto a uma tremenda cegueira. S
passados uns segundos conseguiu ver Esteban abraado a um
soldado austraco. Reino aproximou os dedos da face do rapaz e
sentiu-a a arder em lgrimas. Depois viu que o outro jovem
tambm chorava mas fungando e a tremer. O irmo segurava um
punhal com a mo paralisada. Dava a impresso de que tinha
permanecido muito tempo na mesma posio. Reino pegou-Lhe na
cabea com as mos e beijou-o no cabelo.
  - Ests ferido, Tebi?
  - No, irmozinho.
  - Ento porque choras?
  A pergunta foi uma espcie de detonador para que essas
lgrimas tristes rebentassem no rosto com gemidos. O rapaz
austraco tambm perdeu o controlo do seu sofrimento, e ambos
sacudiram os corpos entre soluos e arquejos. Esteban apertou
o irmo num rasgado abrao.
  - No o mates, Reino.
  Ao ouvir o pedido, estudou alerta o soldado. Tinha os olhos
escuros, um nariz redondo, e era um tanto gorducho como esses
midos que na passagem  adolescncia se enchem de banha.
Parecia um perfeito menino da mam, e a farda, embora apertada
at ao ltimo boto da casaca, no parecia real. Pelo
contrrio, fez lembrar a Reino uma verdasca da sua infncia.

                              61


  - Como te chamas, rapaz?
  - Wolf.
  - Que mais?
  - Wolf Michael Pretzlik. Sou de Graz.
  - No sei onde fica isso.
  - Na ustria.
  - Como sabes a nossa lngua?
  - Antes de nos mandarem para aqui ensinam-nos, senhor.
  O austraco pegou na mo ensanguentada de Reino e p-la na
sua face. Quando este quis retir-la o rapaz beijou-Lha
compungido.
  - No me mate, suplico-lhe.
  Reino desprendeu-se deste afecto com fora e foi at 
janela de bombordo. Pde distinguir a fogueira na areia, e os
doze conjurados, impassveis, longnquos, como se proviessem
doutra galxia. E no entanto conhecia-os desde pequenos,
tinham compartilhado a bola de basquetebol, partidas de
domin, trabalhos escolares, hinos patriticos, bailes com as
irms, socos debaixo dos limoeiros, pequenos furtos no armazm
O Europeu. E agora estavam assim estranhos, moldados na
obsessiva palidez da lua.
  Esteban veio at junto dele e levantou o postigo. A imagem
dos jovens, agora mais ntida e dilatada com o aumento de
volume desse mar que roa tenaz o casco da embarcao
pareceu-lhe fantasmagrica.
  - Porque ficaram eles na praia, Reino?
  - Esperam.
  - O qu?
  - Que eu o mate.
  - Porqu tu?
  - Todos os outros mataram. Porque no o mataste antes?
  - No pude, Reino. Eu no sirvo para isto.
  - Ningum serve para isto, at se fazer a primeira vez.
  Olharam para o fundo. O rapaz havia enterrado a cabea entre
os joelhos encapsulando-se no seu prprio medo. Reino
falou-Lhe com voz baixa e intensa.
  - Devias t-lo matado no primeiro momento. Sem lhe  olhar
para a cara, sem saber o seu nome, sem ter chorado junto dele
como um maricas.
  Esteban esfregou os olhos cor de cobalto querendo apagar  as
imagens que o angustiavam.
  - Talvez - disse com a voz entrecortada. - No sou um homem
como tu ou os outros. Talvez seja um maricas como dizes.
  - Mas s meu irmo e eu farei de ti um homem, Tebi.
  Nem que tenha de moer-te  paulada. No podes continuar a
viver nesta ilha como um cobarde. Todos te evitariam,
cuspir-te-iam aos ps quando passasses pela rua.
  - Quero ir-me embora, irmo. Para longe daqui. Para onde no
haja guerra nem pobreza.
  - Recordaro o nosso apelido como o de um traidor. Tu e eu
no somos uns papa-hstias quaisquer, Tebi. Corre-nos nas
veias a fria do velho Coppeta. Amamos mais a liberdade do que
as nossas prprias vidas.
  - No me far mais livre matar este mido.
  - Um mido como este  que pode ter degolado o nosso pai.
  - Como este mas no este, pela mesma merda, Reino. Sou
incapaz de Lhe tocar. No entendo esta guerra, no sei o que
estou a defender, falta-me valentia para matar, tenho o
estmago na garganta, irmozinho.
  Reino ps a palma da mo na testa do rapaz. Era um milagre
que com tanta febre no estivesse a delirar. Limpou-Lhe o suor
com a sua prpria camisa e a seguir quis abrir a mo que
segurava crispada a faca.
  - Larga-a, Tebi. Fao-o eu por ti.
  O corpo de Esteban saltou para trs batendo na parede do
camarote. Se antes havia apertado a arma com vigor, agora
fundiu a sua mo com ela. Ergueu o punhal ameaando o irmo. O
austraco desfez a sua postura e ao ver os jovens em confronto
desatou a chorar com gemidos. O balano do barco fez perder o
equilbrio aos trs e Reino aproveitou para apertar o pulso de
Esteban.
  - Larga-a, merda, larga-a!

                           62 - 63


  A faca tombou junto ao ba aberto donde assomavam
pergaminhos de navegao, bssola e compassos, e Reino
agarrou-a com a certeza do seu instinto. Avanou para a porta
abrindo-a de par em par e fez um gesto ao irmo para que
sasse.
  - Espera por mim no convs.
  - No saio daqui.
  - No vais gostar disto.
  - Se Lhe fizeres alguma coisa prometo que te mato com as
minhas prprias mos.
  - Ests transtornado, Tebi. Preferes matar o teu irmo em
vez deste gordo choro e cobarde?
  Esteban caminhou at ao rapaz e deixou-se cair a seu lado. O
austraco procurou refgio no seu corpo e convulsionou-se
dentro do abrao do seu defensor.
  - Vai para o convs, irmo.
  - No o farei.
  - Estou farto deste teatro para meninas. Os rapazes
esperam-nos.
  - No esperam, Reino. Esto paralisados de terror.
  - Tenho de cumprir com os rapazes, mais nada.
  - Para qu, irmo? Para comprazer a todos estes fantasmas
que a esto cagados de morte?
  - Fui eu que os meti nisto, no posso falhar com eles.
  - Mataram-nos a todos. Isso no basta?
  - A todos menos este. Como disseste que te chamavas, cabro?
  O soldado ps-se de p mantendo a custo o equilbrio na mar
e respondeu com voz ntegra, quase alheia ao seu destino.
  - Wolf Michael Pretzlik.
  - Ouviste falar alguma vez de Jos Coppeta?
  - No, senhor, Desculpe, senhor.
  - H muitos anos...
  Esteban levantou-se, tambm desafiador.
  - H vinte anos este no tinha nascido. Acaba com esse
teatro todo, Reino.
  O jovem virou-se, aturdido pela lgica piedosa do irmo, e
brincou por um bocado a cravar e desenterrar a faca no leme. 
Depois avanou at ao postigo e pousando o nariz contra o
vidro fitou a lua. Ento era essa a loba branca que inspirava
os poetas. O cemitrio entre todos os astros e cometas. Era
ela que dirigia as flutuaes do mar. Essa maldita luz que o
escurecia. Como se sentia mal agora desarmado pelo seu prprio
sangue! Porque no agora muito simplesmente?
  Aprendeu que nunca mais permitiria que o tempo dilatasse as
suas decises. O tempo  o aliado da resignao e da cobardia.
A fera que te pisa os calcanhares e te agarra e mata e te
deita areia aos olhos. Wolf Michael Pretzlik morreria agora, e
ele mesmo um pouco mais tarde. Que ele o assassinasse seria
uma partida ao tempo a quem um cadver mais deixava
indiferente. Assim a lua viu rolar a cabea do progenitor
Coppeta perante a cimitarra de um homem voluntarioso que no
tremeu como ele agora com esta faca que parecia
desfazer-se-Lhe nos dedos.
  - Se o mato morro, se no o mato matam-me - concluiu,
raspando com a unha uma marca de mosca esmagada no vidro.
  Fixou o leme em direco ao continente. Enxugando as mos na
madeira, decidiu que pensar lhe fazia mal. Que as suas
certezas e at a sua sade deviam confiar no que a sua prpria
respirao Lhe indicava, que era feito de aces. O irmo, o
seu pobre irmozinho, possua a alma submissa de um pastor de
cabras. No se podia imagin-lo o resto da vida seno com um
bculo a pisar o matagal das montanhas. Em contrapartida ele,
Reino, era futuro, projecto, e quando amotinou os amigos para
pulverizar os austracos, no o fizera por uma ideia romntica
de liberdade.
  A sua deciso no assentava seno na plenitude de ser um
animal jovem que no aceita que lhe ponham argolas ao pescoo,
e ainda menos aquelas fardas com rijos botes dourados que
estrangulam as amgdalas. Embora fosse o ltimo co da
galxia, este era o seu corpo e no possua outro bem. Porque
 que esses militares rapados e de capacetes em bico haviam de
dispor da sua vida, e por certo da sua morte, se ele no
aceitava a submisso ao imprio?

                           64 - 65


  - Anda c - ordenou a Esteban.
  Caminharam pelo corredor at  popa contornando cordas e
baldes e detiveram-se junto da barreira de ferro donde estava
suspensa a ncora. Era uma barcaa bastante nova, pois a
corrente no mostrava sinais de ferrugem. No tiveram
dificuldades em desprender a ncora do fundo e puxaram pela
soga, enrolando-a. Reino puxou o queixo a Esteban, fazendo-o
olh-lo nos olhos.
  -  esta a soluo que te ofereo. Deixamo-lo  deriva.
  Reino levantou o punhal e exigiu ao irmo o assentimento ao
pacto. Esteban deu-lho pondo as mos nos seus ombros. Depois
virou-se para a amurada direita e ps-se a olhar para a
fogueira; sem ningum que a animasse, comeava a extinguir-se.
  - Vai correr tudo bem, Tebi - disse Reino.
  E elevando-o com um impulso irrefrevel, lanou o irmo ao
mar por cima da borda. Quando o viu aparecer entre as ondas
indicou-lhe com um gesto que nadasse para a costa. Esteban no
entanto comeou a dar braadas com fria para a escada do
barco, mas Reino precipitou-se a levant-la deixando-o sem
acesso ao barco.
  Ento entrou com o punhal no camarote do timoneiro.

                              66


                              11.


     Em Costas de Malcia a dana festiva para todas as
grandes ocasies - e o casamento de Jernimo e Alia Emar
excedia este eufemstico qualitativo -  a turumba, alegre
ritmo que se dana em duas modalidades.
  A de salo, chamada propriamente turumba, onde ao compasso
de uma msica lasciva os pianos e violinos comeam meldica e
ritmicamente num tempo razovel, para irem crescendo de ritmo
e volume, quase  maneira das danas ciganas, mas com a
peculiaridade de que muito cedo na dana os homens agarram por
trs as cinturas das mulheres, e com vaivns que aprendem j
na escola primria, realizam ondulaes e saltos incomuns na
Europa, frica e at na Amrica Latina.
  A outra modalidade da turumba chama-se eufemisticamente a
prostibulria,. Mas em linguagem ch denominam-na como
turumputa. As festas locais iniciam-se com a verso mais
comedida e conforme a generosidade bquica dos anfitries e a
temperatura da noite, deriva em noventa por cento dos casos
para a mais liberal.
  Assim, por exemplo, na turumputa os vares transcendem com
as suas mos da cintura das damas at aos seus seios. Estas,
compreensivas, j fizeram uma visita  toilette e omitiram as
brassires para que nada impea a espontaneidade do contacto.
   Os homens por sua vez arrancam as calas ntimas das
mulheres e como se fosse um trofu que animasse
consideravelmente a turumputa, dana considerada hoje um
monumento folclrico, enfiam a pea furtada nos dentes,

                              67


e pem maior nfase que antes em esfregar a sua plvis contra
as rijas ndegas das ilhoas enquanto os violinos e pianos se
excedem paroxisticamente.
  Se a festa cumprir certos requisitos, ento a turumputa
necessariamente culminar numa coreografia de acordo com a
qual os homens erguem as calas das damas agitando-as no ar
como quem se despede de uma pessoa que se afasta de comboio e
dando violentos sapateados no cho enquanto o seu par,
protegido talvez pela poeira que levantam os taces, levanta
por sua vez at  cintura o saiote permitindo a qualquer
observador perspicaz vises da agitada sombra que cobre nada
ingenuamente a deliciosa pbis das islenhas.
  Conhecem-se verses mais cvicas desta apoteose em pases da
Amrica do Sul, onde a mesura e falta de barbrie produz que
as mulheres omitam o mostrar ndegas, pitos e seios, e que os
homens renunciem ao ritual de arrebatarem a cala, usando para
o sapateado um leno branco, em geral limpo, mas s vezes
decorados com secrees das narinas ou ndoas de vinho tinto.
  Na sexta-feira  noite, enquanto o barco levava de volta
para Agram o filme que entusiasmara os ilhus e complicara
para sempre a vida dos Coppeta, iniciaram-se os ensaios da
turumba com o objectivo de subir os nimos do casal sabatino,
mas com a expressa indicao do dono do armazm O Europeu de
que toda a derivao para a turumputa ocasionaria a expulso e
crcere de quem o tentasse.
  Com o fim de todos se sentirem aconselhados pela prudncia,
serviram-se bebidas no alcolicas, como granadina de toranja,
pirolito de lima, polpa de aparas, e aguada de resmas.
  Rolando, o Comprido, a quem a prefeitura naval do continente
atribura a funo de oficial de cais, foi arrancado da sua
actividade musical por um garoto que lhe anunciou ofegante que
o capito do barco que levara a mquina de projectar e o filme
estava a digitar do alto mar uma mensagem urgente  costa, e
que o telgrafo no parava de fazer soar o alarme. As passadas
do diletante oficial, que obtivera o posto graas a um curso
de morse por correspondncia, levaram-no num minuto ao
escritrio do cais. Fez o devido contacto, e o teclado
anunciou-lhe, com estranheza, que a estibordo, e rumo norte,
tinham avistado na confuso do crepsculo uma escuna  deriva
que era uma cascavel das ondas, e que ao que parece, se os
ventos no alterassem o seu trajecto, iria despedaar-se no
penedo da ilhota de Curica, pulverizando-se contra as suas
rugosas escarpas.
  O morse acrescentava que atravs da luz que concedia aquele
ocaso para esquecer o prprio capito pde inteirar-se de que
no havia um nico homem no convs e que considerando o
fenmeno demasiado original no seu currculo nutico de
quarenta e dois anos decidiu no pr ao alcance de eventuais
fantasmas os seus passageiros nem o filme, que era esperado
com ansiedade da aldeia de Aemona, e seguira a rota instruda
sem desviar numa milha o seu destino. Aconselhava, no entanto,
que Rolando e alguns homens remassem para essa apario e se
inteirassem da sua substncia.
  - O que diz? - perguntou o garoto vigia, uma vez que o
oficial enchera duas folhas a decifrar a mensagem.
  - Merdices - balbuciou Rolando.
  Inconscientemente amarrotou os papis para os atirar para o
cesto, mas com a certeza de que no h melhor pista do que a
que no se deixa, conteve o gesto, acendeu um fsforo, e
queimou na sua prpria mo o alarme vermelho at o ltimo
pedao se lhe ter pulverizado entre os dedos. Passou a mo com
carinho pela cabea do mido e p-lo na rua, dando-lhe um
caramelo. Depois iniciaram juntos, mas desta vez lentos, o
regresso  dana.
  No entanto, quando chegaram ao salo os praticantes da
turumba tinham-se colocado em redor do passageiro checo Jan
Parruda que fustigou os jornalistas do porto continental com
um relatrio sobre o que chamou o navio fantasma avistado
durante a travessia. Com voz nasal, e essa caracterstica
toada cantada no final de cada frase que distingue os checos,
aterrou o pblico local e os turumbeiros com as suas
declaraes.

                           68 - 69


  Ele no s fora testemunha da apario como o seu
privilegiado olfacto lhe permitira sentir um odor e um rumor
de barco velho, de podres madeiras e ferros avariados. Ao que
parece esses materiais em asquerosa decomposio at exerciam
efeito sobre o prprio mar, pois enquanto o barco avanava
mastigando lamentos fazia um rudo de agras guas sobre as
agras guas, movendo o velho navio sobre as velhas guas. O
displicente som litnico do lrico checo eriou os cabelos dos
ouvintes temerosos de que alguma feroz profecia que ignoravam
se abatesse sobre a ilha na noite do casamento ("holocausto",
murmuravam no bar) da sua dilecta Alia Emar com o prdigo
Jernimo. A vista alucinada do checo Parruda tambm vira que o
barco levava, a saber, sacos, sacos que um Deus sombrio
acumulou, como animais pardos, redondos e sem olhos.
  O jornalista Pavlovic interessou-se por este colega de
letras que via com a lngua o que no tinha visto com os
olhos. Mas que lngua, disse para consigo. Com trs ou quatro
metforas tinha o seu auditrio cativo e estupefacto. Quase ao
terminar, o informador referiu ao entrevistador que se calava
porque tinha a boca cheia de lgrimas, e introduziu o silncio
prometido com a seguinte frase: "A seguir caiu um nevoeiro, um
nevoeiro que envolveu o navio por todos os lados.  impossvel
saber para onde ia. S o velho demnio do mar o saber."
Ps-se de p limpando umas cinzas de tabaco que lhe tinham
cado nos joelhos, e decidiu que chegara a hora do triunfo, a
vitria do cronista sobre o poeta.
  A sua crnica A noite dupla, gerada com voluntria insnia
aps a emboscada que presenciou in situ, estava no bolso
traseiro das suas calas juntamente com o telegrama que
confirmava reserva em camarote duplo para o transatlntico
Rainha Luisa que zarparia com pontualidade britnica na
quarta-feira de madrugada de Gnova.
  As condies de Pavlovic atinham-se aos sbios e mundanos
conselhos que se autoforneceu:
  1) A noite dupla seria publicada simultaneamente nos trs
rgos domingo prximo imediato porque com essa estratgia
matava vrios coelhos de diferentes raas:

                              70


o exrcito imperial mandaria as suas milcias para a ilha tipo
segunda de manh, mas por muito vapor que insuflasse os seus
navios, no iriam chegar ao territrio antes de tera, momento
em que Gema teria evacuado a sua populao masculina a cem por
cento. Embora a nsia de v-lo impresso na prpria noite do
atentado fosse feroz, e a sua ambio de alcanar a glria de
jornalista estrela se atrasasse assim por umas horas, no
queria por motivo algum perder a boda do milnio, as danas de
turumba, que dominava nas suas duas verses, e a crnica da
prpria boda que redigiria no convs do transatlntico
enrolado num xaile e sorvendo um martini seco.
  2) Os honorrios pelo exclusivo deveriam ascender a
suficientes libras esterlinas para se radicar noutro pas,
mais uma passagem de classe turstica no Rainha Luisa para o
ltimo destino que o transatlntico tivesse.
  3) O Salzburger Zeuge nome-lo-ia correspondente com
ordenado mensal em qualquer que fosse a nao onde
desembocasse, nem que fosse a Finis Terrae.
  O jovem Esteban entrou no salo.
  - O que disseram?
  - Um barco fantasma - riu-se Rolando.
  - O que levava?
  - Ao que parece sacos, sacos de qualquer coisa.
  - Quantos sacos?
  - Sacos, uns sacos. Que te importam os sacos?
  - Quantos sacos? - gritou o jovem, perante a estranheza do
pblico.
  O pianista hngaro coou a mo como se intusse a violncia
nas pontas dos dedos.
  Pavlovic agarrou o jovem pelo cotovelo, levando-o
amavelmente para a rua, e depois guiando-o para o molhe.
  - A verso oficial - repreendeu-o molhando-lhe a cara com a
sua explosiva saliva -  a de Rolando. - Tudo o que se diz do
barco so merdices, reverendas merdices.
  - Disseram sacos, doutor.
  - Pois bem. Ento so sacos. Reverendos sacos cheios de
merdices.

                              71


  - Mas quantos?
  - Para que te interessa isso? Que raio de porra te importa
um saco a mais ou a menos?
  - Porque para mim no  o mesmo serem dez ou onze sacos.
  O jornalista aguou o seu instinto e quis fitar o fundo dos
olhos do jovem para compreender porque  que este o assediava
com a sua estranha obsesso. Mas a tentativa de adivinhao
dissolveu-se na profundidade cor de cobalto das suas pupilas.
Animava-as uma vertigem irresistvel; se tivesse de defini-las
numa crnica escreveria "dono de um olhar em que podemos
mergulhar. E afogar-nos", acrescentou. Se o rapaz fosse um
tipo espevitado, poderia fazer uma magntica carreira no
cinema. Assim, ali estava, meio furibundo meio choroso,
enquanto a sua gente, mais assertiva, configurava a sua
liberdade com festa e sangue.
  - De modo - arriscou Pavlovic -, que a noite das facas
curtas no acabou onde tinha acabado.
  - Nunca seria to idiota que fosse falar disso a um
jornalista.
  - Mas o teu irmo f-lo, e isso permitir que a existncia
da tua famlia nesta cagadeira de tartarugas passe  histria
com honra.
  - O que lhe disse Reino?
  - Tudo. Vi com os meus prprios olhos a emboscada. E o
desenlace.
  - At que ponto?
  - At ao ponto de levarem os cadveres para a escuna.
  - E depois?
  - Esteban?
  - Se falou com Reino, ele deve ter-Lhe contado como acabou
essa noite de merda. Quero que mo diga.
  - Reino s disse o essencial.
  - No Lhe contou o que aconteceu depois no barco?
  Pavlovic acariciou felinamente o queixo. H trs dias que
no se barbeava pela excitao de ver os acontecimentos,
negociar o seu artigo, e escrev-lo de ponto em branco. Com a
urgncia que d a massividade da morte.

                              72


  Mas tambm com a mesma desprolixidade que tratava as suas
milas talvez tivesse deixado fugir alguma coisa to
significativa que poderia fazer apodrecer a sua crnica ainda
antes de editada.
  - Tu sabes?
  - Queria saber com certeza para tomar decises.
  O reprter manteve o rosto impassvel, apesar do travesso
sorriso que quis pintar-Lhe os lbios. O pusilnime Esteban
Reino, o prncipe Hamlet das Costas de Malcia, assegurava que
seria capaz de tomar uma deciso. Sobre que assunto e em que
sculo, rapaz?
  - Se  assim to importante, porque no perguntas ao teu
irmo?
  - Porque j no Lhe falo.
  Na direco do molhe vinha-se aproximando um bote com as
cores de Curica. Trazia o reforo de violinos, baixos e
contrabaixos para o baile nupcial. Os msicos j traziam
vestidas as suas roupas de gala, dispostos a negociar mesmo no
molhe os seus honorrios com Jernimo.
  - Eh, mido - exclamou jovial. - Que grande escanhoadela
tens. As tuas bochechas brilham que nem maminhas de freira.
Como te rapaste?
  Esteban apalpou as faces e realmente confirmou a fluidez do
barbeado com o mesmo gozo que Lhe produzira a sua perfeio
umas horas antes  frente do espelho. No valia a pena contar
a esse borra-tintas de quarta categoria que se barbeara at 
mincia apenas por desespero. Estudava-o como se estivesse a
tocar-Lhe a cara com os olhos.
  - O barco trouxe ontem uma carga de lminas de barbear para
O Europeu.
  - De que marca?
  - H de trs tipos: Gillette Dourada, Gillette Azul e Legio
Estrangeira.
  - E qual recomendas?
  - Para uma barba como a sua, a Azul.  mais cara mas penetra
at  raiz dos capilares.
  - A raiz dos capilares. Onde foste buscar essa frase to...

                              73


- procurou um adjectivo suave para substituir idiota, culta?
  -  publicidade nA Repblica. Saiu no mesmo dia em que
publicou os versinhos.
  - Ah, claro. Os versinhos. Outro Waterloo, dom Napo, no ?
  Embora no pudesse compreender a ironia, um sagaz rubor
manchou-lhe num instante o rosto e os seus clebres olhos
cobalto cintilaram com outra forma de inocncia.
  O jornalista fez tilintar umas moedas no bolso das calas e
apontou a rota para O Europeu.
  - Gillette Azul, ento.
  Porque  que ao ver aquelas rotundas e certeiras costas
desejou ter uma pedra para lhe atirar  nuca? Porque era to
merdas o mundo em toda a sua estpida grossura errando cego
pela galxia? Sobretudo porque era to difcil ter vinte anos?
  Passou uma vez mais os dedos pelos pmulos, e a seguir
mordeu iracundo o pulso direito, para no gritar a sua
pergunta  Via Lctea. Reino tinha matado Wolf Michael
Pretzlik?

                              74


                              12.


     Versado em histria, Pavlovic sabia que uma vez com o
cavalo dentro de Tria a poderia conquistar.
  O impulsivo Reino Coppeta precisara-Lhe o stio da emboscada
porque tinha pavor ao anonimato. Embora mais defensor de fazer
a histria do que de escrev-la, com certeza j tinha
compreendido que se o acto  o primordial, a histria repete o
acto sempre que encontra um leitor que tente perceber os
acontecimentos do mundo. Reino foi a alma da revolta e o
protozorio que contagiou de herosmo os ilhus. No entanto, o
lder, o que posava de auriflama, o esplndido clarim de luta
libertria, no estivera  frente das suas hostes na noite das
facas curtas.
  Pelo contrrio, enquanto ele via as armas islenhas cruzarem
de corao a pulmo os corpos da soldadesca austraca, o
tambor-mor do espectculo enfrentava de boca aberta o
pistoleiro George Barnes no filme do Lucerna. Era esse
encantamento pelo cinema uma doena viral galopante que o
fizera levitar to longe dos problemas reais que at se tinha
esquecido de se pr  frente dos seus homens na batalha
decisiva, ou, antes, o seu trauma flmico no havia sido mais
que um esperto e cobarde estratagema para fugir do conflito
real, como tantos lderes com fogosa retrica especialistas em
mandar outros  morte para depois lerem os obiturios das suas
hostes num plcido exlio?
  Hoje, o seu aptico irmozinho Esteban optara por no Lhe
dirigir a palavra. Esta atitude, com fundada probabilidade,

                              75


propunha-se fustigar com a lei do gelo um... Custou-Lhe pensar
no vocbulo traidor,. Porm, como se tratava apenas de uma
hiptese, assumiu-o, digamos, entre parntesis.
  Bastou-lhe uma volta para a direita para se afastar dO
Europeu e voltar ao salo de baile. A guarnio de cordas
trazidas de Curica j se juntara aos msicos locais, e a
marulhada de poeira que levantava a turumba fazia prognosticar
que se o ensaio era assim feroz, a festa do dia seguinte seria
apocalptica. Podia suspeitar-se pelo odor e uma ou outra
ndega exposta em toda a sua lisura, que o regime analcolico
havia sido vulnerado com entusiasmo militante.
  Encontrou Reino Coppeta atrs de uns bastidores teatrais
tentando abrir a blusa de Constanza Lazio, uma rapariga
parcialmente agraciada entre o pescoo e a cintura. Esta
impedia a aco do gal com mais coqueteria que firmeza.
Entretanto, os danarinos entoavam com a afinao maliciosa,
que nem sequer o calor alterava, a turumba da moda cuja letra
rezava:


Por sobre os mares da morte
jogo a minha sorte, jogo a minha sorte.
Debaixo do cu de treva,
eu vou bardamerda, eu vou bardamerda.


  O reprter decidiu atacar o seu rival com um directo aos
queixos.
  - Ol, heri - disse-lhe, limpando um imaginrio gro de
poeira no nariz.
  Sem olhar para ele, Reino dobrou o pescoo com ternura sobre
a esfera superior do seio esquerdo da mida, beijou por cima
do pano a ponta do triunfal mamilo, e ento, afastando-se com
calma desse incndio, fechou-lhe minuciosamente o boto da
blusa que com tanto af acabara de abrir. A seguir apertou
essa mesma ertica mo at a transformar num punho rochoso, e
com todo o impulso dos seus vinte anos num s repelo rodou o
corpo e atingiu com tal violncia a queixada de Pavlovic, que
ao cair arrastou um bastidor decorado com bailarinas
sevilhanas.
  No inconfortvel solo o jornalista decidiu que essa era uma
estratgica posio para evitar oferecer-Lhe cristamente a
outra.
  - Curioso - disse, correndo o risco de lhe voar a jugular
com uma sapatada - que me tenhas batido antes de leres o meu
relato dos factos no dirio.
  O jovem olhou-o com o queixo altivo e uma expresso de
curiosidade e desprezo.
  - O que escreveu de mim?
  - Amanh poders l-lo. Ser uma edio muito cobiada
porque traz o relato dos factos, uma anlise esttica do filme
de George Barnes e os preparativos da boda em pormenor. Talvez
o segundo tema te interesse mais que o primeiro. Embora no
primeiro tema eu te dedique um subttulo.
  Enquanto falava pegou num barrote de madeira da decorao
para se proteger do eventual pontap.
  - Quero saber agora. O que diz o subttulo?
  - Brilhou pela sua ausncia.
  Pavlovic saboreou da humilhao do soalho o seu uppercut. O
jovem ficou lvido num nico instante e com um gesto ordenou a
Constanza Lazio que desocupasse as bambolinas. Engoliu a
saliva e esfregou as mos.
  Engoliu saliva e esfregou as mos.
  - J est impresso? - Fez uma pausa e baixou o volume. - Ou
 conversvel?
  -  conversvel.
  - Desculpe-me pelo empurro - inclinou a cabea o jovem.
  Ainda com o queixo torcido, Pavlovic sorriu para dentro
confirmando que os habitantes de Gema eram mestres do
eufemismo. Chamar empurro quele massacre soava francamente
corteso. Aceitou do rapaz uma garrafa de slivovitz e antes de
passar o sorvo pela garganta fez um gargarejo anestsico para
o seu queixo. Fez-lhe sinal para que se sentasse junto dele.
  - Heri ou traidor? - comeou Pavlovic o interrogatrio.

                           76 - 77


  Reino ouviu a pergunta e passou as mos pelas orelhas como
se as alternativas fossem badaladas retumbando dentro da sua
cabea. Esta simples e maldita pergunta p-lo pela primeira
vez nos seus transparentes anos perante algo que nunca havia
sentido: dvida, ambiguidade. Pareceu-Lhe estranho que a frase
seguinte sasse da sua boca:
  - Depende do vidro com que se vir.
  - Acho essa muito subtil. Cada um dos midos deu cabo de um
austraco, qual foi o teu contributo na festa de beneficncia
para alm da retrica insurreccional?
  - No posso diz-lo.
  - Porqu?
  - Pelo meu irmo.
  - Esteban.
  - Se lho disser, quebro-lhe o corao.
  - V l, Reino, os coraes s nos romances  que se quebram
com palavras. Na realidade racham-se com facas. E esta noite
faltou um. O teu.
  O jovem arrebatou-Lhe a garrafa de slivovitz e serviu-se de
um breve trago. Meteu a cabea entre os joelhos de um modo to
abandonado que at o prprio Pavlovic se viu compelido a
acariciar-lhe a cabea. Com expresso intimidada, o rapaz
ergueu a fronte.
  - No faltou nenhum.
  - Eu estava l graas s informaes que tu prprio me deste
e tu faltaste. Como mo explicas?
  - Isso no posso explicar-Lho.
  - Bem, Reino - disse o reprter levantando-se e sacudindo a
seguir os fundilhos das calas. - Ento ficamos assim e basta.
  - O que quer dizer?
  - Brilhou pela sua ausncia.
  Precipitou-se sobre o reprter e encostou-o  parede.
  - No pode fazer isso.
  - Meu rapaz, j me deixaste mais abanado que o membro de um
colegial. No podes acalmar os nervos?
  - Se me fizer essa paneleiragem fataliza-nos.
  - A quem?
  - A mim e a Esteban! E ao velho Coppeta!
  - O teu pai foi um homem a srio e pagou-o com a vida.
  Ningum difama um heri.
  - Mas h uma coisa muito mais grave. O seu artigo faltaria 
verdade.
  No novo esgar de interesse que apareceu no rosto de
Pavlovic, o rapaz deu-se conta de que agora tinha a seu cargo
o ataque. Afrouxou a presso e roeu uma unha do anular.
  - Em que sentido?
  - Se lho disser, cala-se?
  - Mido, pedir isso a um jornalista  como sacar uma banana
a um macaco.
  -  a nica possibilidade de eu lho contar. Combinado?
  Pavlovic passou as palmas das mos pelos pmulos e fez uma
anotao mental de passar pel O Europeu para levar as lminas.
Gillette Azul, recomendara o benjamim. Interrogou-se se
porventura toda a histria da humanidade no teria sido uma
trama infinita de seres e aces insignificantes, como as
destes jovens confusos, retidas sem eco em jornais remotos
como o seu.
  - Combinado - repetiu sem entusiasmo.
  Reino limpou longamente o gargalo da garrafa de slivovitz e
inclinou a garrafa de modo que o lquido passou directo 
garganta, uma proeza que em Gema se aprende no ltimo ano da
escola bsica, o que equivale tambm, por uma feliz
coincidncia, ao ltimo ano de escolaridade disponvel.
  - Doutor Pavlovic: esta noite houve mais um morto que voc
no contou.
  - E foste tu que trataste dessa... estatstica? - sussurrou
Pavlovic saboreando o seu estilo.
  Meu Deus! Por qual desinspirao do destino aceitara o cargo
de correspondente em Costas de Malcia em vez de Portugal? Por
esta altura se calhar j o teriam nomeado em Lisboa redactor
de notas gastronmicas.
  Reino molhou os lbios com a ponta da lngua. Uma gota de
slivovitz fez-lhe arder as entranhas.
  - No  meu hbito lanar fanfarronadas. Mas juro-lhe pelo
meu pai que se publicar isto o degolo.

                           78 - 79


  O reprter disse-se com profunda melancolia que nesse caso
poderia poupar a compra da Gillette e a minuciosa barba graas
 qual se propunha coquetear com alguma rapariga ao ritmo da
turumba durante a festa nupcial.
  - Juro pelo teu pai no publicar nem uma linha - disse,
sentando-se no tamborete que lhe alcanou o rapaz, enquanto
sacava do caderno de apontamentos.
  Depois destapou com os dentes a caneta de tinta permanente
deixando a parte superior presa nos lbios.

                              80


                              13.


     s trs da madrugada desse sbado tpido e insone, Alia
Emar foi arrebatada das brancas colchas do seu leito, brunidas
com rendas que simulavam elegantes lanas medievais, e
conduzida pela asfixia at  janela do segundo andar. Ao
aspirar uma maresia de ar fresco, o seu peito ergueu-se at
desprender o lao cor de rosa do seu corpete como se um amante
destro e fugaz o tivesse desfeito com os dentes.
  Reteve esse ar salvador nos pulmes e foi-o deixando sair
num lento assobio sem msica at que dissolvido na noite
voltou a trabalhar outra massa semelhante que os seus
brnquios receberam como uma bno. Essa brisa informou-a de
que no parapeito da sua varanda pareciam ter-se concentrado
todos os aromas da povoao, os frutais e florais dos
arbustos, a sbia menta dos eucaliptos, a espessa contundncia
dos jasmins, o gosto salgado da espuma, o cido gotejar da
resina no alto bosque.
  Agora se calhar essa brisa lev-la-ia com Jernimo para Nova
Iorque. O barco estava pronto. Mas para qu? Nunca conseguiu
entender em qual episdio da rotina provinciana perdera a
nsia de ausncias e soube, sem o formular, que havia algo
indivisvel entre a paisagem e ela. Habitava plena num mundo
sem fracturas onde tudo era uma presena total: inseparveis
eram o canto da voz, o beijo do lbio, a luz das vibraes no
ar, ou o sol descascando-se num polvilho to parecido com o
que caa por cima dos santos nas tapearias da igreja.

                              81


  Coincidindo com esta imagem, soaram quatro badaladas de
bronze opaco, demasiado profundas e graves para a dimenso e
leveza da ilha. A brisaagitou-lhe a camisa de noite e ela
cruzando os braos sobre o peito quis achar nesse gesto
proteco e lucidez. Porque  que haviam tocado os sinos agora
se desde o seu nascimento naquelas paragens desadornadas e
esquecidas s repicavam aos domingos s sete para a missa ou
s cinco da tarde quando tocavam a funeral? Nunca o padre
violou antes essa rotina dado que subir trinta degraus at ao
campanrio Lhe dava cabo da articulao do joelho esquerdo.
  Por um lado, visto que eram exactamente trs da madrugada,
havia um certo delrio no acontecimento. Jamais ningum em
toda a histria ftil da ilha tinha feito soar aquele metal
fnebre herdado da ocupao veneziana quela hora da noite.
Talvez o que a lgica Lhe devia indicar - suspirou Alia Emar -
fosse voltar para a cama e permitir que o sono interpretasse
estas estranhas variantes.
  Em contrapartida, o que fez foi tirar a camisa de noite,
extrair enrgica o levssimo vestido de tule verde do
prolfico enxoval com que Jernimo a tinha dotado durante
meses, p-lo com um simples gesto donairoso, e descala correr
para a igreja.
  Os seus ps possuam a certeza de todo o seixo, feto, regato
ou silvado que se lhe atravessassem no caminho, e
conduziram-na sem quedas para o templo onde a tinham
baptizado, e no qual fizera tambm a primeira comunho, com o
olhar tingido da mesma doura da virgem de gesso. A igreja
tinha uma histria que a inquietava e que ela desconhecia e
nessa noite quis ter a certeza de tudo. A rstica pedra
fundacional havia sido lavrada com motivos de anjos e de ces
que deitavam fogo pelo rabo ou com apstolos de tnicas
desbotadas pelo p que o vento havia feito chocar contra as
paredes. Todas as tropas invasoras lhe puseram no sagrado
recinto penduricalhos ao estilo das suas cortes, fossem eles
ouropis bizantinos, miniaturas asiticas, meias-luas rabes,
ou odaliscas com vus prfidos antes das gndolas e dos mantos
venezianos.
  Alia Emar nunca soube porque  que a sua ilha num sculo se
enchia de luzes e cortesos displicentes e no outro se
despovoava, deixando apenas o vento para revolver a luz da
espuma do mar e fustigar as videiras incultas depois da peste:
a filoxera que tambm tinha pulverizado os campos de Bordus
fazendo minguar o vinho nas tabernas de Frana e nos palcios
ducais.
  Nesta noite impecvel o vento atenuara-se numa grata brisa.
Nem o mistral, que algumas semanas atrs havia traficado
turbulento e remoinheiro levantando a areia at  cpula da
igreja, poderia ter deslocado um centmetro do bronze espesso
dos sinos. Ao chegar ao prtico, a rapariga sorriu perante os
seus raciocnios.  claro que no soprava o mistral, contudo,
mesmo que crescesse com ira, nunca seria to instrudo a ponto
de se moderar e fazer bater as horas com quatro rtmicas
pancadas nos pndulos.
  O sino esteve ao p do templo em Gema durante cinquenta e
cinco anos, sem que se encontrasse uma tcnica para o subir
at  torre, e muitas inscries, tanto de amor como procazes,
foram gravadas com cinzis ou tesouras oxidadas na sua
tolerante superfcie. O primeiro que fez uma notcia sobre o
fenmeno foi precisamente o jornalista Pavlovic. "O sino
escrito" conclua a sua pea de investigao com uma antologia
essencial dos textos que baptizou usando uma expresso
desconhecida at ento em Gema: "Grafiti". Na sua opinio o
melhor aforismo religioso era: "Todos os deuses foram
imortais." O seu nmero um em matria de amor foi: "Sulara,
amo-te com uma paixo to rara que no to posso dizer cara a
cara." E o mais porco: "Aqui me vim para o Papa."
  No pde saber se era sugesto, mas ao passar a mo pela
fria superfcie de metal, sentiu que a vibrao ainda sacudia
as fibras secretas do bronze e que estas lhe transmitiam as
suas ccegas at s tmporas. Fechou os olhos, e apoiando a
face sobre a sua superfcie entregou o seu ser a esse vibrato
que parecia querer dizer-lhe qualquer coisa. No duvidou que a
tinha conduzido at esta cpula de pedra e p para que ela
interpretasse um sinal que porventura Deus lhe dava atraindo-a
ao seu templo. Ento exteriorizou docemente a pergunta que
tinha na ponta da lngua desde h meses:
  - Vou morrer amanh, no vou?

                           82 - 83


                              14.



     Uma leve chama acendeu-se no canto mais escuro do
campanrio. O homem, com um cigarro nos lbios, aspirou o
tabaco e a brasa revelou o seu rosto. A seguir emitiu uma
cortina de fumo que foi atravessada por um pirilampo. Alia
Emar veio at junto do rapaz, pediu-lhe com um gesto o
cigarro, e deu duas fumaas em silncio com a sensao de que
se despenhava do alto da torre para o vazio.
  - O que ests a fazer aqui?
  - Bem vs, a fumar um pensamento.
  Estendeu-lhe outra vez o cigarro e Alia tornou a aspir-lo
com desejo.
  - E o que pensavas?
  - O mesmo que tu perguntaste a Deus.
  - E ento?
  O rapaz reteve durante um longo bocado o fumo nos pulmes e
depois foi-o soltando devagar. Ela seguiu o seu trajecto at
se perder na noite.
  - Deus inspira-nos as perguntas, mas no nos d a resposta.
  - O que queres saber?
  - Porque  que sou cobarde. Com uma faca na mo no sou
capaz nem de pelar um pssego.
  - Quando se trata de matar algum somos todos cobardes.
  - O meu irmo no. Antes de pensar o que quer fazer j o
fez.
  - Esteve na emboscada, no esteve?
  - Como soubeste?
  - A areia junto do penedo brilha com cogulos de sangue.
Toda a terra foi l v-la. Mataste algum?
  - Eu?
  - E o teu irmo?
  - Peo a Deus que no o tenha feito.
  As pontas dos dedos de Alia Emar untaram as plpebras do
rapaz, e a seguir com as unhas dos polegares correu de ponta a
ponta as suas afogueadas pestanas. Pensou: " como estar a
saquear uma manso intocvel." Os olhos cobalto de Esteban
nunca mais acabavam e ela no seria a dona dessas pupilas, a
coleccionadora daquelas bruscas jias, daqueles crios tecidos
a ouro e prata com uma vertigem no fundo. O Sol no nascera,
mas a franja de avermelhada claridade prvia  sua ascenso
bastava para iluminar a breve aldeia.
  Ao cantar do primeiro galo somou-se um segundo, depois
outro, e um pouco mais tarde o de centos deles.
  - Dizem que o exrcito austraco vai entrar na ilha e
matar-nos a todos.
  - Quem diz isso?
  - Pavlovic. Dorme com a passagem do transatlntico no
pijama.
  - Porque  que havias de acreditar nele?  um homem cnico e
cobarde.
  - Talvez. Mas  um patriota.
  Alia Emar olhou em toda a roda a ilha. Conhecia as casas uma
a uma, muitos enfeites dos sales, os meses riscados nos
calendrios, as camas de ferro branco do hospital, as rachas
na sala da escola, as sardas dos irmos mais pequenos das suas
amigas, o ninho dos corvos-marinhos, a balana alem onde
neste momento deviam estar a pesar o po para o distribuir de
triciclo de porta em porta, sabia todo o repertrio de canes
que assobiavam os garotos da praa, as prprias metforas com
que a fustigaram anonimamente os admiradores das suas coxas e
tornozelos, os pumas em sobressalto que se ofereciam para lhe
lamber os lbulos e at os calcanhares com saliva buliosa e
espermtica. Seria este molho de mesquinhices a ptria?

                           84 - 85


  - Aqui nunca aconteceu nada, e agora a poltica tem tudo
alvoroado.
  - Aconteceram coisas. Aconteceram coisas inesquecveis.
  - Lembra-me ao menos uma.
  - O meteorito que se despenhou no Penedo da Sombra Comprida.
  - Bah! Em toda a parte caem estrelas.
  - Mas tu foste a primeira a encontr-lo.
  - Bem, corremos em grupo e alguns fugiram porque deitava
chispas.
  - Eu ia nesse grupo, e sei que tu correste mais que ningum.
  - De que coisas ests a falar-me?
  - Falo-te de que acontecem coisas. Aconteceu a tua comunho.
Atravessaste a terra acompanhada dos teus pais e deixaste uma
pegada de neve aps cada passo.
  - Neve em Gema? Os Coppeta esto doidos varridos. Tu e o teu
irmo.
  - E no dia em que tiveste febre no hospital, e enquanto te
punham panos gelados na testa, olhavas para a parede sem
pestanejar e contaste o que estavas a ver numa lngua que
ningum compreendeu?
  Alia Emar deu uma gargalhada e o eco expandiu-se pela
abbada. Esteban viu-a rir com a gravidade de um notrio, at
que estremeceu pela alegria que brotava de cada dente da
rapariga, e tambm abriu a boca num sorriso, e os olhos
compulsivos se abeiraram dela, amveis.
  - Ento para ti  isso a ptria?
  -  o que penso - disse Esteban instantaneamente srio.
  - Faz l as contas, Tebi. Pelo que contaste, a ptria
reduz-se  minha humilde pessoa.
  - E naturalmente tudo o que a rodeia. No gostaria que me
metessem dentro de uma farda para me mandarem para longe dela.
  O ardina devia estar agora a trazer a edio dA Repblica do
barco a vapor. O navio entrava a esta hora no cais em
silncio, mas ao afastar-se o capito combinara com o padre
fazer  tocar a sua sereia para evitar que este subisse gotoso
at  torre para proclamar o Dominus das cinco da manh. Por
este servio, uma vez por ms oferecia-lhe uma garrafa de
velho tokay guardada nas suas catacumbas muito antes que a
filoxera esterilizasse as plantas.
  - De modo que te sentes completamente pleno e feliz na ilha?
  - No  caso para tanto. Mas quando creio que me falta
alguma coisa, escrevo uns versos.
  Ela lanou outra vez uma risada que at o padre Pregel ouviu
ao benzer-se diante do altar onde Cristo estava acompanhado
por uma estatueta a castanho e cinzento de So Roque,
padroeiro dos pescadores e dos piratas. Esteban impregnou-se
dessa alegria total, e sem saber como, da sua boca, que com
muita pacincia tirava da alma um certo sorriso uma vez por
ms, saltou uma catarata de riso com um rudo de pedras a
despenharem-se.
  - Poemas, Tebi? Um admirador dedicou-me umas estrofes no
outro dia nA Repblica. Leste-as?
  - No - acelerou o jovem, cortando o riso com um murro nos
lbios. - Que tal eram?
  Alia Emar preparava-se para provocar outra vez a gargalhada
simples do rapaz exclamando espontaneamente uma merda quando
uma lcida palidez, digna das alturas eclesisticas onde
conversavam, lhe reteve a respirao e alterou o seu texto num
quase inaudvel geniais no entanto suficientemente claro para
que Esteban Reino adquirisse a cor de um turista noruegus
aps o seu primeiro dia de sol na praia de Gema.
  "Se eu sou a ptria para este homem, no  de estranhar que
tenha sido ele a dedicar-me os versos para impedir o meu
casamento."
  - Daqui a pouco vo chegar os barcos com a ceia para a
festa. De todas as casas te traro presentes. Danaremos a
valsa e a turumba, e segunda-feira de madrugada, antes de
nascer o Sol, estaremos todos mortos.
  A noiva abraou-se sufocada ao peito de Esteban, to
estreitamente como se quisesse que ele lhe emprestasse o
corao para bombear ar  sua cabea.

                           86 - 87


O discurso do rapaz esbofeteara-a de volta  realidade.
  - Tu sabes a resposta da pergunta que vim c acima fazer a
Deus, no sabes, Esteban?
  O jovem pestanejou e a seguir apertando as plpebras com
fora pretendeu concentrar-se naquele fundo rochoso onde a
passagem das ondas abismais havia deixado inscries
semelhantes s que sentia gravadas no crebro. Sem abrir os
olhos , balbuciou a sua incerteza:
  - Vai acontecer-te alguma coisa m, Alia Emar. Tenho o
sentimento mas no as palavras.
  Ela tornou a apertar-se a ele. Mas o rapaz apagava-se sem
lucidez para se formular.
  - Vou morrer esta noite?
  Afastando-a dos ombros, ele reteve-a a curta distncia e
acariciou-lhe levemente os lbulos, quase como se tivesse
perdido qualquer coisa. Ela procurou-Lhe os olhos e viu-os
nublados com uma gua estranha. Ps-lhe um dedo sobre o nariz
e traou com ele um percurso desde o septo, passando-Lhe pelo
trax e cintura, at se deter com toda a mo na dura ponta do
seu sexo. O jovem dobrou o pescoo e outra vez o rubor o
atingiu at s orelhas.
  - Aqueceste-te - disse ela num sussurro.
  Acariciou-lhe o membro e depois levou os dedos ao nariz
sentindo que a exalao do esperma dele tinha trespassado as
calas, e cheirou-os com perturbada reverncia. Ento caminhou
devagar para as escadas, e antes de descer, virou-se para
Esteban e disse-Lhe com voz grave:
  - Obrigada pelas quatro badaladas.
  - Alia?
  - As quatro badaladas. Trouxeste-me aqui ao toc-las.
  O jovem avanou para a rapariga notando que a veia da sua
garganta crescia segundo a segundo.
  - Eu nunca toquei nos sinos.
  Ento ouviu-se a buliosa sereia do barco relgio e a
maldio de um vizinho que difamava o navio e a sua santa me.
  - Mas deves t-las ouvido, no? Ao fim e ao cabo estavas na
torre.
  - Alia Emar: no.
  A rapariga olhou um instante para as unhas, virou uma das
mos e mordeu o n do dedo mdio. Depois lanou o cabelo para
trs com um gesto suave.
  - Est bem, Esteban - disse.
  E desceu as escadas.

                              88


                              15.


     A insnia expandiu-se epidmica. Jernimo manteve a
viglia a noite inteira, embora no dia do seu casamento
projectasse ver-se mais jovem e encantador que nunca. Jamais
lhe tinha faltado dinheiro, mas sim razes. Por isso gastava
os seus recursos com uma generosidade cptica,
prodigalizando-se em causar pequenas alegrias aos ilhus. 
claro que os ilhus mais inquietos conheciam a stima arte
pelas suas incurses a Agram, e inclusivamente um ou outro
tinha-se arrolado nos navios que carregavam os futres de vinho
tokay, e trouxe para casa notcias dos feitios que
manipulavam os irmos Lumire.
  Jernimo noutro tempo e noutro lugar teria sido um prncipe
ao servio do seu povo. Ao chegar pela primeira vez a Costas
de Malcia, s havia procurado a ruptura com certos hbitos
familiares. A doena de seu pai, um clebre banqueiro de
Salzburgo ligado  elite poltica, anunciava a iminncia da
sua morte e com ela o eventual fim dos seus deveres filiais.
Que se recordasse, nunca tinha trocado com o progenitor
nenhuma frase substancial.
  Pai mesquinho com as mesadas em vida, Jernimo no contava
com uma herana quantiosa, pois imaginou que s Lhe deixaria
aces ou papis a longo prazo que fossem gotejando juros at
 velhice, evitando assim que o seu herdeiro dilapidasse em
aventuras o que ele obtivera com trabalho e austeridade.
  Com sonolncia e depois com enfado ingressou na Hochschule
da sua cidade natal, onde lhe interessaram as aulas de direito
internacional, num continente que a ponta de guerras violava
no s as leis mas at os mnimos direitos humanos. No resto
das disciplinas manteve-se no lote dos medocres sem levantar
cabea nem sequer quando alguns colegas faziam sero com ele
preparando-o para um exame. S a excelente classificao na
sua matria predilecta Lhe permitia uma mdia anual levemente
acima do mnimo aceitvel, virtude que os mestres compensavam
arredondando para cima as dcimas das suas classificaes.
  Considerando tambm que na sua maioria os professores eram
prestigiosos clientes do banco de seu pai, que recebiam deste
crditos hipotecrios com taxas preferenciais, e s vezes
olvidveis, as suas notas acadmicas podiam considerar-se um
balano comercial.
  O seu interesse pelas matrias internacionais fez que o
catedrtico do ramo o convidasse para um seminrio em Lbeck,
no Norte da Alemanha, onde o baro von Vietinghoff, inquieto
com determinados surtos racistas e autoritrios na sua ptria,
convocara para o seu instituto destacadas eminncias e jovens
valores para debater com eles em que sentido o direito
internacional poderia ser um marco que pusesse controlo aos
polticos alemes se o seu ultranacionalismo os levasse a
fanatismos e guerras contra os seus vizinhos.
  Noutro aspecto, a convocatria tambm incitava a meditar
acerca de assuntos como a supremacia das leis humanitrias
sobre as legislaes nacionalistas no caso de se atropelarem
atravs das torturas e do crime poltico os direitos de
minorias tnicas, ou os de rebeldes contra a autoridade. Os
documentos acusatrios reunidos numa pasta chamada O ovo da
serpente para Jernimo tornaram-se to rotundos que ele
desenvolveu uma espcie de doena nervosa que se traduzia por
nojo aos comestveis. A semana de discusses passou-a lvido e
olheirento, comendo ao meio-dia s compota de ma.
  J no comboio de regresso, admirando a prosperidade da
Baviera com os seus prados paradisacos e as suaves lombas que
pintaram os romnticos, props-se emigrar da ustria para
territrios menos historiados, ao aprovar lvido a concluso
que o seu mestre lhe citou ao separarem-se em Wien Mitte:

                           90 - 91


  A histria  s o retrato de crimes e desgraas.
  No dia seguinte reviu o mapa-mundo com o apoio de uma lupa
fazendo-o rodar devagar e marcando as zonas carentes de
interesse para as cobiosas repblicas militaristas. Ao fim de
meia hora, desejou com fervor que houvesse outro planeta.
Contudo, trs lugares excitaram a sua imaginao:
  Nova Iorque, a metrpole louca onde os cavalheiros bebiam
champanhe  noite sobre as ndegas de louras indecorosas e
cocainmanas e erguiam arranha-cus durante o dia jogando
pquer em escritrios atapetados a veludo e couro.
  O Chile, uma excentricidade fraca l no fim do mundo que se
dissolvia pelos ps numa mancha de gelo polar incapaz, pensou,
de estimular a rapina de quem quer que fosse.
  E essas pequenas ilhas dispersas de Costas de Malcia que s
com uma lente de aumentar eram apreciveis e que no produziam
ouro nem urnio, nquel nem cobre, cobalto nem carvo, ferro
nem estanho, mas apenas azeite, vinho branco de cepas
francesas, basquetebolistas e danarinos de turumba, e que,
ouro sobre azul, ficavam ali mesmo  mo.
  Uma semana depois os seus afs geogrficos ganharam
inesperadamente actualidade com a morte do pai. Na sua ltima
hora encomendou ao mdico uma ona de pio directo na veia, e
pediu aos seus dois filhos que lhe pegassem nas mos e
rezassem por ele. A irm Paula sabia todas as oraes para a
ocasio e recitou com voz sbria os textos apocalpticos
alegrados por uma ressurreio iminente e uma geral
bem-aventurana.
  O agonizante interrompeu-a para formular uma apreenso que
nele se infiltrara havia meses quando lhe apareceu o cancro.
  - Achas, filho, que na outra vida ser reconhecida a minha
posio social? Crs que faro discriminao entre gente como
ns e os simples trabalhadores?
  - Garanto-Lho, pai - respondeu Paula sem pestanejar. - A
Bblia est cheia de versculos onde se estabelecem e
respeitam os privilgios terrenos.
  Com um resto de voz, o pai dirigiu-se ento a Jernimo:
  - E essa coisa do camelo e da agulha?
  O jovem, aproveitando o facto de o doente ter fechado os
olhos, encolheu os ombros, e activou a irm para que
respondesse quela estocada.
  - Pai - disse esta. - Est a citar um texto que admite
muitas interpretaes. - Ao notar que os dedos do progenitor
seguravam os seus na intuio da despedida, decidiu prolongar
a sentena at que a sua respirao cedesse
completamente.Todos os versculos que dizem respeito a animais
tm uma certa impreciso fantstica que abre caminho a
significativas ambiguidades. Assim a imaginao colorida dos
poetas apresenta jogos de palavras, que postos do avesso dizem
uma coisa e vistos do direito exprimem o contrrio. Basta
determo-nos no camelo. O que tem a ver semelhante bicho com a
nossa fauna e a nossa experincia de vida? Porventura, pai,
alguma vez em toda a sua vida viu um camelo? Acha que se podem
transferir coisas de uma cultura to cingida  geografia local
com todos os seus aspectos pitorescos e extravagncias para a
nossa, to sbria, asctica e espiritual?
  Paula fez uma pausa tentativa, suficientemente longa para se
certificar de que o velho havia expirado. Disse ento
etctera,, acrescentou men, descruzou com algum esforo as
falanges do defunto das suas, a seguir auxiliou Jernimo a
soltar-se, e cruzando ao defunto as mos debaixo do queixo,
benzeu-se com ar grave, e aps o ltimo pau da cruz
imaginria, passou um dedo pelas plpebras como que
afugentando uma lgrima.
  Enterrado o banqueiro no Kommunal-Friedhof, os irmos foram
ao escritrio do advogado para se inteirarem dos pormenores da
herana. Sem atraioar as expectativas da filha mais velha,
Paula ficava com a gerncia do banco, a casa de Kaiserdamm, o
descapotvel Opel azul com buzina exterior prateada, a
pinacoteca onde no havia grandes coisas, a no ser por um
jovem de apelido Modigliani instalado em Frana a quem
auguravam mais futuro que presente, e que s fora posto entre
o tesouro familiar pela fortuita garantia de um crdito no
pago concedido para investir numa cervejaria de Linz.

                           92 - 93


  No que tocava a Jernimo, o resumo dos seus bens vinha anexo
a uma carta assinada pelo pai onde expunha critrios,
aconselhava medidas e ditava ctedra de geopoltica. O
advogado leu-a baixando as lentes pelo septo do nariz com voz
montona, explicando que assim se distanciava da enorme dor
que sentia pela morte do seu cliente e amigo:


     Filho:


     Apesar de desde criancinha teres sido esquisito, gosto de
ti. Nunca to disse porque me faltou o tempo. Em pequeno dizias
coisas to extravagantes que te baptizei o poeta. Espero que
te tenhas curado dessa praga. Deixo o banco  tua irm porque
ela sabe o que faz. Com semelhante transatlntico
afundar-te-ias na primeira poa de gua. Portanto, recebes uma
conta bancria com um capital em tudo anlogo aos passivos que
a tua irm saber administrar. Usa-o para uma coisa sensata.
Compra uma casa na Alemanha, a nova potncia; instala uma
confeitaria perto da praa natal de Mozart. O turismo para o
Sul beneficiar a nossa cidade, porque ningum querer ser to
bruto que v adquirir uma pele bronzeada em Costas de Malcia
sem se ter dado antes uma injeco cultural em Salzburgo.
Sobretudo gasta moderadamente em comidas, e no te cases
enquanto no tiveres a certeza de que te querem por ti prprio
e no pela massa que herdas. Tens com que fazer feliz muitas
mulheres, de modo que calma. E sobretudo, imploro-te, que
acabes o teu curso. Nem todos os advogados so ladres, como o
prova o nosso querido doutor Gesner. O ttulo no acrescentar
nada ao teu dinheiro, mas sendo doutor em leis roubar-to-o
julgando que so prolixos.


  Consumado o acto, os irmos dirigiram-se a p para a sede do
banco, compraram na loja do padeiro Pabst dois Bienenkuchen,
acabaram-nos com a ajuda de um cappuccino de festival espuma,
e sorriram ao verem as suas imagens no espelho com cerrados
bigodes brancos. Rememorando certa cumplicidade da infncia,
no limparam a boca, e inclusivamente ignoraram a brincadeira
da empregada que lhes indicou as manchas nos buos.
  Meteram-se pela rua fora e com similar humor foram at ao
banco. Puseram culos pretos, para completar o luto, e Paula
disse  secretria do pai que convocasse os caixas e
administradores no hall central a fim de lhes emitir um
comunicado. Juntamente com o irmo, tomou lugar a meio da
escadaria de mrmore, e depois de cavilar um minuto em
silncio, como se rezasse, ergueu a cara embigodada de leite e
disse o seu tradicional "Senhoras e cavalheiros." Ao notar
certa inquietude na vintena de empregados, perguntou-Lhes sem
se dirigir a ningum em especial, se alguma coisa Lhes causava
estranheza ou aflio.
  O grupo negou enfaticamente, e s o idoso contnuo julgou
salvar a conjuntura dizendo: " s o pesar pela morte do seu
querido pai." "Compreendo", afirmou Paula, e virando-se para o
irmo apontou-o com o dedo: "Tens um bigode de leite na cara."
  Jernimo apressou-se a limp-lo e ela levantou orguLhosa o
queixo para que a nica bigodaa branca reinasse agora em
solitria majestade. "Imagino, senhoras e senhores, que j
tero tomado nota de que o nico director do banco agora sou
eu. Inicio a minha gide sob o lema "Austeridade e
Disciplina".
  Quando o grupo se dispersou foram ao gabinete do defunto e
encontraram dispostas sobre a cobertura da secretria dois
dossiers em que ele tinha escrito com a sua pena e letra o
nome dos herdeiros. Quando o irmo mais novo chegou na
terceira pgina a certificar-se da quantia que tinha
depositada na sua conta, disse para consigo com angstia que
possua tanto dinheiro que dava para incorrer em todos os
vcios imaginveis no resto da sua vida, e ainda deixar um
resto a algum eventual rebento. Paula, por seu lado, confirmou
que estava tudo em ordem segundo expusera o doutor Gesner e s
um sobrescrito selado e confidencial ps um certo ar de
mistrio na cerimnia. Depois de rasg-lo, e l-lo de uma
assentada, estendeu-o com um sorriso indiferente ao irmo. O
texto era breve: "Uma ltima advertncia: considerando que a
maioria dos nossos clientes provm da Baviera, recomendo-te
que com discrio te vs livrando do nosso pessoal judeu: o
contnuo Friedman, a caixa Meerapfel, e o escrivo Liliencorn.

                           94 - 95


 Arranja-lhes alguma coisita aqui ou ali para que no fiquem
na rua."
  Paula admirou os seus bigodes no espelho ovalado do gabinete
e ento  que os limpou esfregando-os com um dedo.
  - Como achaste a minha inaugurao?
  - Enrgica.
  - Caguei-os a todos, no foi?
  - Esfregaste o cho com eles.
  - Agora o banco vai andar como um reloginho suo.
  - Exactamente como um reloginho alemo.
  Jernimo saiu para a avenida e apanhou um carro para o levar
 universidade. Retirou do seu cacifo o Manual de Direito
Internacional, inspirado na vaga certeza de que algum dia lhe
serviria para alguma coisa, passou a tomar uma gua mineral na
cantina, e ali deixou alegremente esquecidos o resto dos
livros curriculares. Foi ao gabinete do reitor, e pedindo 
funcionria de carrapito, lentes redondas e dentes manchados
de tabaco o livro de inscries, teve o cuidado de riscar o
seu nome a tinta vermelha.
  - Vai gozar umas frias?
  - Exactamente.
  A mulher anotou a sua interrupo do semestre e a seguir
teve de pedir-lhe que precisasse o tempo de ausncia.
  - Oh, anote a indefinido e infinito.
  Um bofeto de ira sublevou o cenho da funcionria.
  - Vou anotar entre quarenta e cinquenta dias, jovem
Jernimo. O senhor seu pai no vai gostar nada do que est a
fazer.
  Jernimo tirou uma nota de cinco schillinge, e com a energia
do seu novo status atirou-a  mulher.
  - Faz bem em recordar-mo. Por favor, use esse dinheiro para
comprar flores e leve-as ao tmulo dele no cemitrio.
  Dois quarteires a sul havia um pequeno local onde vendiam e
reparavam trastes com o acadmico nome de A Clnica. O dono
era um pequeno espanhol de dedos minuciosos que examinava os
tubos dos rdios montando no olho direito um monculo de
joalheiro.
  - Alguma coisa para reparar, mister?
  - Por agora no. Interessa-me o aviso na sua janela.
  - O aviso na janela?
  - Precisa-se ajudante.
  - Ah, isso j no  actual. O negcio hoje em dia no d
para um ajudante. - Uma chispa de entusiasmo animou-o e coou
com prazer o lbulo de uma orelha. - Percebe de rdios?
  - Sei apag-los e acend-los.
  - E alm desse enorme talento, conhece alguma coisa do
funcionamento do artefacto? Do seu entramado de chaves e do
trabalho de cada rgo?
  - Oh, no. Disso, nada.
  O espanhol no perdeu o humor com essa notcia, e pelo
contrrio pareceu satisfeito com a situao.
  - E quer ser meu ajudante?
  - Hummm, hummm.
  - Acredite, meu rapaz, que aprecio enormemente o seu
interesse e a sua brilhante formao acadmica em electrnica,
mas no tenho com que lhe pagar a sua capacidade.
  Jernimo levantou um cone com finssimos cabos de diferentes
espessuras e depois meteu a mo numa caixa de fusveis.
  - Isso no  problema. Eu  que Lhe pagaria para ser seu
ajudante.
  Os sinos da catedral de Salzburgo deram quatro badaladas e
os dois homens ouviram-nas com exagerado respeito. O
electricista pigarreou:
  - Firo os seus sentimentos se em vez de assistente
definirmos a sua elevada funo como a de um aprendiz?
  - De modo nenhum. Acho aprendiz perfeito.
  Com um salto o tcnico abriu-Lhe caminho indicando-lhe que
passasse para o seu lado do balco.
  - O que o conduziu a este interesse pela radiofonia,
senhor...?
  - Franck, Jernimo Franck.
  - Est aparentado com o banqueiro Franck?
  - Extremamente, senhor...

                           96 - 97


  - Torrentes. E em que relao?
  - Sou seu filho. Bom, seu rfo - corrigiu.
  O tcnico ps-se a andar nervosamente de uma ponta  outra
da pequena loja, tropeando em ferramentas, cartes, pilhas de
jornais velhos, e at numa ncora de navio. Perdera num
segundo todo o seu controlo.
  - Oh, my God - exclamou, sem deixar de tropear, tentando ao
mesmo tempo ir arrumando os destroos. - Nem sabe a quantidade
de dinheiro que devo ao senhor seu pai! Tudo o que v aqui
est hipotecado. At ao ltimo parafuso. Deve estar com uma
pssima impresso de mim.  que o negcio no d para dois,
como Lhe disse. Na verdade, nem sequer para um como deve
ter-se dado conta. As pessoas simplesmente no so modernas.
Para elas a rdio no passa de um desconcerto de rudos. Mas
tudo mudaria, senhor Franck, se resultasse o que quero
inventar. Porque esta oficina, perdoe-me este abuso de
confiana,  uma fachada. Sim, senhor, uma simples fachada. O
que realmente conta nesta pocilga, meu querido senhor,  o que
est por trs desta cortina. Com licena.
  Correu as telas de rstico material opaco e s quatro da
tarde em Salzburgo o sol era suficientemente meridional para
incendiar de luz o recinto privado de Torrentes. S no
gabinete do doutor Frankenstein, pensou Jernimo, poderiam
encontrar-se semelhantes parafernlias. Dentro de uma
banheira, no meio de jarros e bacias, havia ferros que se
elevavam como antenas, pedras de galena com veios
resplandecentes, lquidos de cores inexistentes chiavam quando
por uns segundos se lhes injectava uma chispa.
  Torrentes olhou com alvoroo o que o outro admirou com
pavor. Numa sbita intimidade pegou no cotovelo do jovem e
abanando-o como se tivesse diante de si uma viso da Terra
Prometida, disse:
  - Veja bem. Todo o problema para evitar os rudos, 
suprimir a esttica. Se fosse capaz de conseguir que a aco
dessa chispa fosse contnua e no alterna a recepo ficaria
limpa e at se poderiam ouvir nitidamente as obras de Mozart
que transmite a Filarmnica de Londres. A ustria, meu senhor, 
promove os negcios, mas no a arte. Oh, my God, o senhor seu
pai deve odiar-me.
  - Bem, morreu ontem.
  - Deve ter-me odiado muito.
  - Com entusiasmo, senhor Torrentes - disse Jernimo
oferecendo ao pequeno inventor uma sbita notoriedade de
devedor que intuiu que o homenzinho agradeceria.
  - Mas se a chispa deixar de ser espordica e conseguir que
seja contnua, pago-lhe a dobrar tudo o que Lhe devo.
  - No se aflija tanto por isso. Permita-me que seja seu
assistente, dado que tenho profundo interesse pelo mundo da
rdio.
  - De acordo.
  - Pago-lhe pelas suas aulas e por aprender que passos deu
para eliminar a esttica.
  - Encantado, jovem Franck. Mas no  necessrio pagar-me.
  - Oh, sim. De todas as maneiras.
  - Digamos um schilling por dia.
  - De maneira nenhuma. Aprecio enormemente o seu talento para
me mostrar tacanho.
  - Ento diga, jovem.
  - Qual  o total da dvida que tem com o banco, senhor
Torrentes?
  O homem desatou a rir e outra vez a sua capacidade motriz se
desarticulou batendo com a nuca no calendrio.
  - Perdi totalmente a memria. No me lembro donde nasci e
raramente falo espanhol. Imagine se vou lembrar-me do volume
da minha dvida externa.
  O flamante rfo tirou do bolso interior do casaco o seu
livro de cheques encadernado a couro verde e com uma pomposa
letra que no delatava a sua ignorncia no ramo preencheu um
exemplar por dois milhes de schillinge e estendeu-o ao
tcnico exclamando "voil."
  - No compreendo porque  que me faz este favor
incomensurvel. Esta quantidade de dinheiro escapa  minha
imaginao.  a soma de muitos anos de fracasso. Por que razo
o faz, meu bom amigo?

                           98 - 99


  - Por amor  arte, mestre.
  - Querer dizer por amor  tcnica.
  - Fiquemos em amor  poesia, senhor Torrentes. Eu tambm no
aguento nem a sinfnica de Salzburgo nem o seu director, o tal
Braille.
  - Nem me diga esse nome. Era um pssimo primeiro-violino, um
arranha-tripas...
  ... Com esttica?
  - Isso. Um Salieri. Quando comea a primeira aula, ento?
  - Agora mesmo, senhor Franck. Fao-lhe uma chvena de ch?
  - Com muito gosto - disse o aprendiz Franck esticando os
braos numa espreguiadela triunfal.

                              100


                              16.


     Foi ele mesmo que se props mudar de rumo e se enfiou no
primeiro barco que viesse para sul. O destino do Valeria
Luperca era a Grcia mas o capito tinha o costume de fazer
calafetagem nalgumas ilhas menores em cuja costa atirava sacos
de contrabando para uns botes onde os remadores pareciam
recrutados nas prises. A Jernimo a demora no conseguia
afligi-lo.
  Queria outro ritmo, um tempo diferente, espaos menos
povoados, reencontros com o sol e o ar que talhassem uma coisa
mais viril no seu rosto plido. A conjuntura era ptima. Por
exemplo, um jovem poeta francs tinha escapado para frica com
a nsia de descongestionar a sua alma ocidental, e segundo o
Salzburger Nachrichten tivera tal xito no seu objectivo que
at deixara de escrever, apesar de o prprio Verlaine o
considerar um gnio.
  Ao acostar o navio a uma ilha do arquiplago, chamou-Lhe
obsessivamente a ateno a feroz presena de um sino na igreja
desproporcionado para a torre, o territrio e a zona. Esta
bomba sonora merecia uma catedral em vez destes matagais.
Assim, no hesitou em inferir que se os habitantes aceitavam
esta extravagncia, podiam perfeitamente tolerar outra. Pediu
ao barqueiro dos fretes que o levasse at ao cais, e
informou-se com o instinto empresarial do velho banqueiro
Franck de quais eram as maiores carncias de Gema.
  O barqueiro concluiu lgubre que esta ilha era a mais
desprezadinha pela mo de Deus, embora a adornasse a fama,

                              101


senhor, de produzir as raparigas mais belas de Costas de
Malcia, todas virgens e quentes at se casarem. Daqui ningum
emigra - informou o patibular - apesar de no faltarem
oportunidades, porque depois de atirarem uma partida de
contrabando zarpam com infinitos rumos. E como escolhem mulher
desde a infncia, basta a ideia de deixar a sua eventual noiva
exposta aos excessos hormonais de outros candidatos para os
aparafusar a este porto.
  Sem dvida, cavalheiro, houve dias de glria, embora jamais
de riqueza. Imagine que existia em Gema uma grande loja ao
mais faustoso estilo dos armazns de Constantinopla ou Paris.
Era ali, naquela manso azul com o mastro branco, e os navios
forneciam-na de alimentos essenciais ou de vitualhas exticas.
Hoje o senhor v-a assim, desbotada, com o estuque em farelos,
de vidros quebrados, guarida de ratazanas e de gatos, ninho de
morcegos, cagadoiro pblico. Mas devia t-la conhecido h dez
anos. Que fineza, que abastecimento, quantos marinheiros, que
festas!
  Mesmo sem trabalho o povo podia viver dos resduos que
deixava o trfico em seu redor.
  Vinhas, oliveiras, peixe, um pouco de mrmore, azeite,
tantos produtos naturais. Mas a filoxera despovoou as vinhas.
Os nossos vinhos compravam-se em Frana. Vinham italianos e
gregos para as vindimas. E depois fechou o armazm por razes
que prefiro calar, senhor. Uma tragdia sem nome, senhor.
  Durante as invases, patro, os brbaros abstiveram-se de
ficar na ilha pelos custos humanos de uma operao assim. Os
turcos tentaram-no uma vez e mandaram-nos de volta para casa
com as cimitarras enfiadas nas gargantas. Aqui a nica
maneira, cavalheiro, de estabelecer uma cultura, uma
civilizao como a austraca, seria passar todos pelas armas e
repovoar a ilha com gente de trabalho e esforo: chineses,
japoneses, protestantes ingleses.
  Para Jernimo a conversa com o barqueiro foi mais instrutiva
que muitos anos de academia. A descrio deste nada era quase
celestial. Na sua mala trazia suficientes livros para matar
alguns meses, bastante dinheiro para ter sempre peixes-reis e
vinho, e suficiente sade e pinta para arranjar uma noiva
entre as lindezas to liricamente destacadas no relatrio. A
sua sapincia do Cdigo de Direito Internacional, captulo
Aranzis, servia para manter  distncia os funcionrios dos
impostos e com persuaso de pequenas chantagens talvez
chegasse a construir uma rede de provedores ilegais que Lhe
permitissem estabelecer uma loja, e sabe-se l se a longo
prazo no pudesse construir um sbrio armazm com tapetes,
gobelins, madeiras bem polidas, cortinados, e um bufete de
couro, melhor que o anterior. O local arruinado consegui-lo-ia
ao preo da chuva, se porventura a municipalidade no Lho
oferecesse atendendo  influncia do imprio nas suas tediosas
colnias.
  No cais pediu informaes se por acaso alguma famlia sem
descendente havia perdido o seu ltimo membro e se uma casa
desalojada naqueles arrabaldes do mundo poderia servir de
repouso aos seus ossos nessa noite. Mas quando no dia seguinte
comprou a manso azul entregando um cheque de retrica
caligrafia ao tesoureiro municipal, Lucas Lausic, comeou a
circular o boato de que o forasteiro trazia intenes ocultas.
Uma casa daquelas dimenses com tantas varandas, recantos e
ptios secretos, no podia ser a guarida de um solitrio.
  Na parte de trs da sua cabea o austraco no podia andar a
parir outra ideia seno a de um lupanar. Desde o primeiro dia
os ilhus comearam a avaliar Jernimo  medida dos seus
preconceitos. No meio da ausncia de acontecimentos, a
novidade da sua chegada avultou-se a limites mticos. O
malvado invasor propunha-se ir arrancando dos seus doces lares
as mais belas nativas para as oferecer por fortunas a
marinheiros que obrigatoriamente fariam escala nesse nada s
pela fama da frescura e inocncia dessas raparigas que faziam
sonhar os vares pobres mas honrados com o consolo de um
casrio, fundamentado na histria comum, nos laos de sangue e
na esperana de melhores dias.
  Contra esta teoria adversa a Jernimo ergueram-se os
realistas funcionrios municipais depois de verificarem que o
cheque tinha cobertura e o prprio padre de Gema,


                         102 - 103


que percebeu que com a intromisso desse estrangeiro rico a
sua igreja ia melhorar de hierarquia. Dificilmente se podia
exigir esmolas aos fiis que viviam delas. Se no fosse pelas
hortalias, o vinho e as azeitonas que os ilhus lhe traziam
aos domingos, o tenaz sacerdote j teria morrido de fome. Se a
diocese crescesse talvez fosse possvel urdir com algum
engenho o pedido de um subsdio ao arcebispo de Agram.
Provavelmente, argumentou para consigo o padre, o estrangeiro
concebia um bordel dada a posio estratgica da ilha entre a
Europa e a Grcia, pas que para eles era algo assim como o
Plo Sul. Porm, discutiu inflamado contra os receosos, nunca
por nunca ser se exporia o ataviado e maduro imigrante aos
punhais dos pais virtuosos e dos noivos inquietos. Pelo
contrrio, sabedor por alguma enciclopdia das facas afiadas
dos nativos, o seu objecto com um centro recreativo do prazer
seria mitigar os ardores da espera masculina trazendo mulheres
de outros portos, especialistas em danas do ventre, fox-trot
americano, shimmy, charleston e qui turumba.
  Uma semana mais tarde, o padre, pelo meio da filigrana do
lavradssimo porto com motivos de So Francisco e o Lobo,
pde observar Jernimo, de mandbula levantada at ao cu
nublado, estudando o milagre desse sino de quinhentas
toneladas, delicado qual mariposa na sua torre.
  Consciente da alta curiosidade dos forasteiros e turistas
por esse prodgio de engenharia, o padre escrevera os
antecedentes do milagre num pergaminho que deteriorou
banhando-o em linleo e especiarias rabes. Esta brincadeira
dava ao documento uma ptina renascentista. Nele, Miguel
ngelo, o mesmo que se veste e cala, afirmava que com a mo
de Deus e a sua cabea conseguira fazer voar uma vaca, e no
s, mas tambm da feliz experincia havia inferido que era
possvel desenhar corpos mecnicos voadores que levassem qual
passarocos de pedra os homens de um pas para outro pelos
ares. O padre Pregel, com semelhante documento apresentava
Miguel ngelo como precursor da aviao, e a humilde ilha,
onde ele servia a Deus sem outras retribuies alm de pecados
no confessionrio e azeitonas no saco das esmolas, como o
stio inspirador onde o multignio tinha concebido desde o
aeroplano at  Capela Sistina.
  "Em qualquer lugar do mundo, meus senhores, isto seria uma
relquia, porventura at um monumento nacional, um tesouro da
humanidade. Mas a distncia castigou Gema com a indiferena
pela sua histria, arte e cultura. Por muito menos que este
sino capaz de dar horas  terra at aos Avernos se casse da
sua mgica posio, se celebra o engenho dos arquitectos
egpcios e as suas oraes e se confeccionam oraes em
Lourdes por uns milagres to enternecedores quo pouco
cientficos. Se os turistas oferendassem um bolo, certa
doao de carcter visionrio, prprio dos mecenas, ele
poderia transformar este pedao brbaro de natureza em
histria, porventura at em lugar de peregrinao."
  Com a pluma entre os dentes mostrava a seguir uma curta
lista de turistas dadivosos que teriam dado contributos para a
Igreja, cujos nomes seriam gravados com cinzel no sino de
Miguel ngelo para glria das suas famlias e de Deus, no dia
em que o Santo Padre em pessoa declarasse este templo cenculo
sagrado da humanidade. Infalivelmente caa ento um marco,
certa libra, talvez um franco no mealheiro, e o padre s
lamentava a escassez de veraneantes e a abundncia de
fugitivos da justia que desembarcavam por alguns minutos no
porto para se protegerem da justia. Se algum conseguisse que
mais gente visitasse por qualquer outro motivo a ilha, o seu
servio ao Senhor ver-se-ia consideravelmente recompensado. De
modo que, apesar do pujante sol do meio-dia, saiu com a mo
presta para estreitar a do estrangeiro, e ps-se, de queixo no
ar, a observar com Jernimo o impossvel equilbrio daquele
sino.
  O homem cumprimentou-o oficioso e de imediato apontou o
indicador para a torre.
  - Padre, eu como toda a gente sou um pouco ateu e outro
tanto crente, conforme as circunstncias. Ento peo-lhe que
me trate como um adulto racional e no me venha para c com
milagres nem maus-olhados. Estudei um pouco de engenharia a
partir de certos problemas relacionados com a esttica, e 
simples vista, salvo se o sino for de carto, o que estou a
ver parece-me impossvel.

                         104 - 105


  O padre afinou a garganta para o seu discurso rotineiro e
acariciou no bolsinho da sotaina a chave da cripta com o
manuscrito de Miguel ngelo, quando uma heresia afastou num
nico flego o texto turstico da sua boca. Em vez de comear
com um sorridente Miguel ngelo, disse:
  - Um bordel.
  - Wie bitte, tater?
  - O melhor  instalar um bordel. Os inconvenientes so
poucos e as vantagens muitas.
  O herdeiro do banqueiro Franck baixou pormenorizadamente a
vista pela cara do sacerdote e at se entreteve nos frondosos
cenhos cados para o solo, como a caricatura que fazem as
crianas de um homem triste, antes de desafi-lo com as suas
pupilas penetrantes.
  - Padre, conheo bem o alemo e tenho prtica do malicioso.
Mas quando diz bordel refere-se, perdoe-me a grosseria, ao que
se conhece como uma casa de putas?
  - Exactamente, senhor. O que convm a esta ilha  instalar
uma casa de putas.
  O estrangeiro apalpou os bolsos em busca de tabaco. Estendeu
um cigarro ao padre, que aceitou sem hesitar, e acendeu ambos
os canudos.
  - Padre, como chegou  peregrina conjectura de que  esse o
nimo que me trouxe a Gema?
  O sacerdote aspirou fundo umas vezes para evitar que o
morro se apagasse.
  - Atravs da anlise objectiva de deves e haveres. Ou meLhor
dizendo, aps um longo cadastro das carncias que impedem a
ascenso eclesistica a um padre de ltima categoria como eu.
  - Padre, estou muito interessado no que diz, mas receio que
estejamos perante o que na arte dramtica se chama uma
Gegenbesetzung.
  - H anos que sa do seminrio. Poderia esclarecer-me sobre
esse ponto?
 - Sem dvida. Em teatro chama-se Gegenbesetzung ao acto pelo
qual se preenche um papel com um tipo moral e fsico que no
corresponda  personagem. Por exemplo, escolher para o papel
de Jesus Cristo algum que seja vermelho, maneje a forquilha,
tenha cornos, cheire a enxofre, e deite drages pelos buracos
do nariz.
  - Parece-me to horroroso o que conta, que temo que seja uma
espcie de indirecta.
  - Qual indirecta qual macacos, padre! Se o entendi
correctamente,  o primeiro padre na histria da humanidade
que prope a ereco de um bordel. De que se ri?
  - Da palavra ereco. Parece-me muito ad hoc.
  - Vejo que conserva muito bem o seu latim.
  O padre envolveu num abrao o forasteiro e conduziu-o at 
sombra mais prxima. Aspiraram duas ou trs vezes o tabaco, e
ento o padre disse sentencioso:
  - Uma casa de putas e um armazm.

                         106 - 107


                              17.


     Embora a maioria pensasse que Reino era capaz de marchar
sobre cadveres e at de danar no funeral da sua me, nessa
noite tambm sucumbiu  viglia. O sono fugia-lhe em primeiro
lugar pela paixoneta de Esteban e Alia Emar. Essa histria de
melindres melfluos, versinhos annimos, ternura frente ao
inimigo, elogio da passividade, no lhe agradavam nada. Ele
no fora agraciado com a parvoce do amor, mas no caso de
ficar no raio ftuo de Alia Emar cederia ao seu instinto a
prioridade e faria rebentar o hmen da noiva em qualquer
rochedo mesmo que amanh o austraco lhe cortasse s postas os
testculos pendurado de um cadafalso na praa da terra. A gaja
era bonita, mas do modo que o so todos os anjos perversos de
dezassete anos que misturam os desejos com a inocncia.
  Era a hora da aco poltica, e ver algum do seu prprio
sangue, um descendente dos Coppeta nessas dilaes vaporosas
fazia-o passar-se do juzo. Se os austracos agora o matassem
- primeiro o do armazm e depois o batalho que viria
aperfeioar uma represlia - entregaria a sua alma ao Senhor
na candura incontaminada com que este o pusera em Costas de
Malcia. Morreria sem fornicar e sem ter tocado no inimigo. Em
duas instncias excitantes, o pobre irmozinho renunciaria 
glria que a histria Lhe oferecia.
  Enfim, mariquices dignas de Esteban! Porque a verdade  que
depois da bebedeira e de morder as ndegas e lamber as tetas
das raparigas no baile nupcial, teria de conservar lucidez
para preparar a fuga. No queria ver Tebi perfurado com a
baioneta dos austro-hngaros nem os seus dez sequazes
rettalhados s fatias no cais da ilha, serem cuspidos ao mar
como iscos para as agudas serras. O seu pequeno peloto
continuava sonambulizado pelos assassnios. Decerto iriam 
festa nupcial e aps dois ou trs slivovitzs abandonariam a
metafsica e as papoilas por seios, coxas torrenciais e os
forcejos erticos. Mas com a cabea nas fragrantes ratinhas
das belezas locais, quem ia ser o lcido estratego que
organizaria a fuga quando os exrcitos carregassem belicosos
vindos da linha do horizonte cortando em fatias os pncreas,
pescoos e pnis?
  Outro tema Lhe cortava o flego. Com o amanhecer, a sereia
do barco embalando as pedras, chegaria o leiteiro, que
depositaria no seu portal o seu pequeno-almoo, juntamente com
a edio nacional dA Repblica que se imprimia nas rotativas
de Aspalathon. O seboso Pavlovic tinha-se comprometido a
salvaguardar a dignidade do seu nome contando, conforme ele
lho narrou, o que acontecera na fragata fantasma com luxo de
pormenores mas com tal aparato metafrico que a honra de Reino
ficaria to alta como obscuros para Esteban os factos. O que
teria querido dizer com a frase de que uma metfora oculta
tanto como mostra e mostra tanto como oculta,? O seu mundo era
decisivamente claro e agora uma corte de lambe-cus, cnicos e
cobardes pretendiam perturb-lo, diminuir-Lhe a energia com
lgrimas e metforas. O que teria escrito mediante os seus
servios confidenciais o patriota Pavlovic? Se se excedesse um
milmetro no que soubera sugerir sem o nomear, o seu irmo
Esteban, num acesso emotivo, poderia privar os austracos do
prazer de lhe moerem em vivo os tomates, cometendo um perfeito
fratricdio. A quem, merda, salvo ao pai dele, poderia
importar o flcido e gelatinoso contedo do corpo de Wolf
Michael Pretzlik?
  O que tinha de se meter o seu prprio irmo para vir semear
a confuso no seu crebro e nas suas claras mos? Se
porventura a piedade estivesse to democraticamente repartida
como as formigas e o musgo nas rachas das paredes talvez Lhe
brotasse espontnea uma espcie de ternura. Mas esse
sentimento j o tinha consumido aos onze anos. Tebi e ele
pediam de joelhos a Deus que a me no morresse.

                         108 - 109


"No h remdio", disse-lhes o padre, "o cancro vai atacando
os ossos em massa. A nica receita  morfina para Lhe atenuar
o sofrimento, mas custa dinheiro."
  Anos mais tarde quando num dia de chuva os dois irmos se
ajoelharam perante a hstia, o padre deteve-se  frente de
ambos e disse-Lhes: "Crescestes sozinhos e cristos e dou-vos
a minha bno e declaro-vos dignos de Jos Coppeta e da vossa
me. Ouvi pela nica vez o que a santa senhora me confidenciou
no seu ltimo suspiro: Em cada homem h um lobo e um cordeiro.
Reino tem muito de um e nada do outro. Esteban tem muito do
outro e nada do um. Padre, faa que se reconciliem os dois
bichos que trazem dentro deles."
  As lembranas suavizaram as suas tenses e ficou a dormir na
hora mais inoportuna. No ouviu chegar o leiteiro e em vez de
encontrar A Repblica junto do jarro de lata, teve de se
enfrentar com uma mensagem escrita  mo e presa com um punhal
cravado no banco de madeira.


  Irmo:
  S resta uma forma de estabelecer a morte entre ns dado que
careo de valentia para te tirar a vida: no quero ver-te
nunca mais e para o evitar partirei hoje desta ilha, sem rumo
certo mas para sempre. Vi saltar a noz da tua garganta de cada
vez que engolias saliva e no pude empregar a faca, como se a
mo da me ou de Deus me tivesse detido com fora o pulso.
  Esteban.


  Reino bebeu um longo trago de leite directamente do jarro
vacilando entre a tristeza e a ira. Consequente com as
palavras, Esteban havia desalojado as suas camisas, sapatos e
calas do armrio, e fugido com o velho saco de couro curtido
do pai Coppeta. Foi at  casa do vizinho e levantou a sua
vasilha de leite para tirar A Repblica. O ttulo ocupava
exactamente metade da primeira pgina e as trs palavras
pareciam saltar em relevo da tinta: A NOITE DUPla.
  O rapaz correu para o seu quarto e atirando-se para cima da
cama leu o artigo rachando-o com os olhos.

                              110


                                18.


     Que magnfica festa para comear uma nova era! Um tempo
de amor e dignidade. De promessas e realizaes. Que dia o de
hoje guando todo o povo celebra as bodas de dois ilustres
filhos da nossa ilha! A inigualvel Alia Emar pousar o seu
divino corpo no leito do entre ns estabelecido cavalheiro
Franck, que aps anos de celibato, s mitigados pelo xito
comercial da sua empresa de comrcio, quebra hoje os seus
votos de tristeza para desposar a mais bela das nossas
donzelas. Jernimo Franck ser mais um dos nossos e como tal
devemos respeit-lo e am-lo. Ele veio para aqui com o corao
aberto h uma dcada, e instalou-se nestas terras rudimentares
por amor  sua paisagem, por devoo  paz em que vivamos, e
pela paixo que nele desencadeou Alia Emar.
  No reiteremos os falatrios, hipteses extravagantes,
mexericos xenfobos, que tm nutrido a nossa nfima histria,
pondo um acidente de amor, como o de Marta Matarasso e Stamos
Marinakis,  mesma altura mtica das faanhas de Jos Coppeta
ou do milagre de engenbaria que pressups fazer levitar o sino
de bronze at  cpula feita com telha de barro do nosso
templo nico maior.
  Esta noite iremos  igreja entregar os nossos parabns aos
noivos, levar-lhes os modestos presentes que permite a nossa
economia alde e deprimida, e danar a valsa e a turumba at
que os corpos e as almas fiquem exaustos.
  Mas no haver s felicidade nupcial nas prximas horas. O
nosso povo e o mundo inteiro, atravs desta crnica,

                              111


ho-de saber que enquanto se preparavam os rituais do fausto
acontecimento, um grupo de jovens mais espigados e valentes da
ilha abandonou o proscnio dos prazeres para cumprir na
sigilosa discrio da noite uma tarefa patritica que um dia -
em tempo de liberdade - os por no mrmore das nossas
efemrides.
  Enquanto se desdobravam cortinas e os msicos importados
afinavam os seus violinos ciganos no Salo Lucerna, um punhado
de heris, nenhum deles com mais de vinte anos, dispersou-se
estrategicamente pela ilha para fazer frente a uma sibilina e
fantasmal invaso do exrcito austraco que nas trevas das
praias desembarcou com o propsito de recrutar contra sua
vontade os nossos rapazes, concentrados nos preparativos da
festa, e de degolar,  vista e pacincia das suas mes, todos
os que resistissem ao ignominioso recrutamento para servir uma
potncia estrangeira.
  Os nossos rapazes, fazendo gala de valentia e silncio, para
no alarmar mes nem noivas, ocuparam as amadas areias da
nossa infncia e brindaram com rudimentares armas cortantes
uma desigual luta contra batalhes dotados da mais moderna
tecnologia blica.
  Mas quando so a justia e a dignidade que animam os
coraes, as desvantagens materiais transformam-se em
virtudes, em estmulos, em glria. Dotados da invencibilidade
que protege os deuses, os bravos rapazes dispersaram-se em
escasso nmero para dar conta de um contingente porventura dez
vezes maior. Quanta gua contm o mar, quanto sangue inimigo
absorveu a areia ptria. Nela crescer altiva a flor da
liberdade.
  No exerccio do seu ardor guerreiro actuaram instintivamente
guiados por uma estratgia que j em 1513 Nicolau Maquiavel
sugeriu nO Prncipe: "Aos homens deve-se perdoar-lhes ou
destrui-los ferozmente, visto que se lhes causarmos s uma
ofensa moral eles iro tirar vingana; em contrapartida, se
lhes causarmos um dano enorme, sero incapazes de replicar e
assim no haver que temer deles a desforra."
  Um incidente de que foi testemunha este cronista prova este
acerto e relampeja com fulgor prprio nesta luminosa jornada
sob a luz do luar. Dizimados os emissrios da escravido, s
faltava verificar se no poderoso navio de que tinham
desembarcado se encontravam ainda mais invasores. Na temerria
noite, com coragem unnime, submergiu-se no temeroso mar um
dos nossos filhos. Que no me trema a voz nem a pluma ao
revelar o seu nome para depositar numa pessoa concreta o bolo
que devemos a todos estes magnficos. Nomeio-o, no s pela
especfica grandeza da sua faanha, como tambm porque com ela
renovou os louros dessa famlia lutadora que perdeu o mais
epnimo dos nossos homens em luta semelhante. Senhoras e
senhores: estou a escrever aqui, com letras de ouro, o nome de
Reino Coppeta, filho do nosso Jos Coppeta.
  O audacioso jovem nadou com braadas apolneas at  ominosa
nau, despreocupado se a claridade da espuma delataria a sua
presena. Com arrojo e a elasticidade de um felino trepou por
estibordo ao bem apetrechado barco e brandindo apenas o seu
libertrio corao e um punhal de cortante lmina fez a sua
entrada no camarote do timoneiro, em cujas sombras encurralado
pela cobardia de no ter tombado junto das suas tropas nas
areias, um soldado se convulsionava presa de envergonhadas
lgrimas. Ao ver a irrupo de Reino Coppeta, o vil sujeito
lanou-se a seus ps e pediu clemncia, invocando Deus e a sua
me viva. Estas lgrimas de homem, em vez de amolecer o
corao do filho de Jos, insuflaram-no de vergonha alheia, e
sem hesitao ceifou com tal entusiasmo a jugular do austraco
que a cabea por pouco no se desprendeu do corpo.
  A seguir, com uma disciplina desafiadora de todo o Imprio
Austro-Hngaro, escreveu com o sangue derramado do lobo uma
nota breve e rotunda: "Bem-vindos."  Triturando com fora
ciclpica a corrente da ncora que mantinha a nau imvel, fez
que o mar a arrastasse para barlavento. A vo, direitos ao
nada, o cadver e a mensagem. Juntos navegam at que algum
nufrago os encontre e murmure tremendo de horror: "Deus se
compadea de quem se atrever contra os bravos de Costas de
Malcia."
  Assim, celebremos, amados compatriotas: Que salte como
fasca do andar abaixo o estrondo da turumba, que o vinho
corra em cascatas bquicas pelas vossas gargantas, que as
raparigas nos dem a alegria da dana e o perfume dos seus
corpos, que o amor ateie qual exploso de pirilampos os corpos
dos amantes, que o par nupcial voe nos lenis de seda

                         112 - 113


at bem dentro do cu, que os hbeis dedos do maestro Policzer
excitem de febre o violino, que os harpejos do piano nos
sublevem com a sua rapsdia, e que brame a natureza saudando
esta dupla noite de liberdade e amor.

                    Pavlovic, correspondente.


                              114


                              19.


     A frota Jordan destinou o seu barco maior  ilha. O
entusiasmo pela boda propagou-se pelas tediosas vizinhanas e
o boato de que qualquer coisa muito especial iria acontecer
pela noite de sbado esgotou as passagens de terceira classe,
as de coberta, e certamente a cabina de luxo que se eleva
sobre a ponte de comando. Dois passageiros privilegiados
ocupavam aqueles faustosos camarotes. Um deles era Paula
Franck, que trazia no s o relatrio dos ltimos lucros do
banco, mas tambm uns quilitos de imprensa austraca onde os
editorialistas prognosticavam que a monarquia, sangrada pela
preguia e pela falta de imaginao, s podia elevar o imprio
iniciando uma aco blica para o Sul que levantasse os nimos
e mostrasse a ptria aguerrida perante os vizinhos do Norte. O
Sul era para Paula Franck esse matagal brbaro que se estendia
at s inteis ilhas de Costas de Malcia. Uma ustria exangue
s podia reanimar-se ganhando alguma coisa l para baixo a fim
de impressionar os de cima.
  O seu pobre irmo bomio tinha optado por essas lonjuras e
agora contribua para a sua estupidez com um bolo maisculo:
contraindo matrimnio com uma ilhoa sem linhagem nem dinheiro,
sem territrios nem expectativas, sem um idioma imperial e
falta de maturidade para se emparelhar com um iminente
cinquento. Ela, pelo contrrio, tinha dado lustro ao seu
apelido e ao seu banco casando-se com o nobilssimo Tadeo von
Auertal, que se mostrou sensvel aos seus encantos justamente
numa conjuntura de dissipao familiar que levara o seu
aristocrtico progenitor a hipotecar no Banco Franck todos os
seus bens de raiz.

                              115


A ltima carta do ancio foi para sugerir a Paula que  falta
de outros recursos e perante a impossibilidade de um homem da
sua hierarquia ir para a priso, o melhor seria unir a
prosperidade bancria com a tradio terra-tenente, isto ,
consagrar a aliana do capital com a classe e engendrar essa
modernidade que fazia tanta falta em Salzburgo.
  Paula duvidava que em caso de guerra as possesses de um
austraco em territrio inimigo ficassem por confiscar, e o
veterano advogado que h lustros lhes tinha lido o testamento,
aconselhava-a agora a ordenar ao irmo que escapasse dessas
paragens nuas, mas aptas para massacres dos quais s teriam
conhecimento as aves de rapina.
  A preguia e a bomia tinham-no enterrado nesses areais com
os seus montonos festins de azeitonas e vinho branco, em vez
de zarpar para os desafios do sculo que, recm-inaugurado,
prometia progressos to enormes que antes do ano 2000 os
homens poderiam voar e a medicina os faria imortais. O seu
objectivo primeiro e principal era esse: convenc-lo a
levantar ncora com o seu barquito at qualquer costa
estrangeira, nem que fosse meramente italiana, e dali fosse
fazendo escala at  Amrica do Norte onde poderia por exemplo
abrir um cinema. Este era o negcio da dcada. Encher a cabea
das pessoas com imagens que as fizessem esquecer as suas
rudimentares vidas. Todos sem excepo querem esquecer
qualquer coisa, por isso contar histrias no ecr se tornava
to lucrativo.
  No iria logo directa ao assunto. Aguardaria a faustosa
ejaculao do irmo mais novo e a felicidade da noiva, e no
pequeno-almoo triunfal do mar Adritico saberia persuadi-lo
com vocbulos documentados na mais recente imprensa para que
emigrasse. "Quando?", perguntar-Lhe-ia Jernimo. "Agora",
diria ela. "No fundo, proponho-te uma lua-de-mel sem biLhete
de volta. Um rapto  rabe. Tu e a tua jovem putinha
rebolando-se nas ondas do Atlntico, e quando te cansares dos
teus orgasminhos, contratas um bom advogado nova-iorquino  que
os divorcie."
  Antes, depois de cortar o bolo nupcial, entregar-lhe-ia o
magnfico presente que encomendara ao melhor joalheiro de
Munique: uma bssola de ouro. "Para te orientares,
irmozinho", espetar-lhe-ia com um sorriso malfico.
  No obstante, havia algo que a inquietava nesta travessia
mais diplomtica que sangunea. Quem era esse insignificante
homenzinho que coberto por uma capa portuguesa evitava as suas
rotundas saudaes de seca cortesia tapando a cara que
abandonava as luxrias da primeira classe enterrando-se nas
sufocantes caves do navio? Exibia a atitude de um larpio ou
do empregado de notrio a quem a famlia financiou uma viagem
que no est  altura dos seus meios. E o que o entretinha
nessas profundezas onde se podia imaginar remadores de
Madagscar chicoteados por um pirata mpio acelerando a nau
para Costas de Malcia?
  De repente, no vaivm das noites cerradas, um estranho
resplendor escapava pelos interstcios do baixel, e uma
espcie de relmpago acendia o oceano para se dissolver em
franjas de espuma. Tal como o ziguezague do raio no cu vinha
antecedido por um trovo, a misteriosa claridade ocorria aps
uma vibrao inconfortvel, a modo que como a bala prateada se
segue ao troar de um canho. As suspeitas operaes coincidiam
com a descida do homenzinho aos reinos de Neptuno, e Paula
decidiu que num prximo encontro casual o abordaria com a
autoridade que lhe dava a sua riqueza e a sua nova
aristocracia.
  Na madrugada de sexta-feira, o barco bordejou a costa do
continente antes de enfiar para as ilhotas e de repente a
mulher foi acordada por uma irradiao mgica que incendiou
por um minuto o seu camarote como se a lua tivesse explodido
no seu leito. Correu para o olho-de-boi e pde ver uma
poderosa armada ancorada em frente do porto de Aspalathon. Em
cada navio conseguiu reconhecer o escudo do imprio e na sua
mente fez-se uma fulminante conexo entre essas fragatas e os
desfiles de trabalhadores diante do seu banco em Salzburgo:
"No temos trabalho. Vamos para a guerra, carago. Temos muito
que temer, mas o exrcito dar-nos- de comer."
  Saiu para o convs, e rapidamente ocultou-se no corredor,

                         116 - 117


ao ver o mnimo sujeito que a obcecava envolvido num grosso
xaile com motivos folclricos andaluzes aguardando a lucidez
do amanhecer. Refrescou a garganta com um sorvo de saliva, e
aproveitando o facto de a personagem estar presa dos seus
sonhos e enterrada na cadeira de lona de riscas azuis e
vermelhas, chamou autoritria:
  - Bom dia, homem.
  Sem dvida soube dizer homem com um tom que gritava
homenzinho.
  Se este tivesse nesse instante um copo nas mos ter-se-ia
estilhaado em cem fragmentos pelo convs.
  - Bom dia, doutora Franck.
  - Vejo que sabe o meu nome, amigo. Vem de Salzburgo?
  - Oh, sim, madame. Exactamente da Kommerzgasse.
  - Uma zona muito prestigiada.
  - O acaso, ou antes o passar do tempo, deixou a minha
humilde loja nas proximidades do seu banco, doutora. Sou
indigno da sua vizinhana e da sua conversa. Desculpe-me,
lady.
  Fez um esforo para se levantar da manhosa cadeira de praia,
e, no o conseguindo, Paula depositou uma mo fraternal no seu
ombro e p-lo com ternura de volta  lona.
  - Por favor, no se retire ainda.  um prazer conversar com
um compatriota nestes mares alheios.
  - Oh, no, minha senhora. A minha conversa carece de
cultura. Conheo muito bem a sua categoria social. Sua
Excelncia de resto contraiu matrimnio com o baro von
Auertal.
  - No ignora nada da minha vida.
  -  que de coisas dessas fala... perdoe a minha grosseria...
sou um pria... em todo o sentido um pria.
  - Diga de uma vez, homem.
  - A imprensa de Salzburgo. A medocre imprensa de Salzburgo.
  - Ento de que deveriam falar?
  - Das coisas que se passam no mundo.  possvel que o
Partido Social e o Partido Alemo Reformista se unam numa
nica e grande coligao.
  - No vejo em que possam afect-lo essas alianas.
  - Ah, doutora. A Alemanha e a ustria. So como o cu e a
fralda. Vm a tempos ferozes. E no falemos da msica.
Tocaram Schnberg em Viena e depois do escndalo ningum disse
nada.
  - Tal como voc detesto Schnberg.
  - Muito me apraz que uma senhora de tanta linhagem coincida
com a minha modesta opinio.
  Paula estremeceu com uma sbita brisa fria e exagerou o
tremor fazendo castanholar os dentes de forma cmica. Se no
sasse agora daquele embarao passaria a festa do casamento
com as amgdalas inflamadas.
  - Perdoe-me a minha curiosidade, senhor...?
  - Oh, o meu nome e a minha pessoa so irrelevantes, madame.
  - No julgue que o espio, mas em certas ocasies vi-o descer
para o poro do barco. Ora bem, de cada vez que o faz, uns
minutos depois, a seguir a um grande barulho, vi uns estranhos
reflexos sobre as ondas.
  - Perturbei o seu sono. No sei como desculpar-me, baronesa.
  - Est tudo bem. S queria saber. O que so esses raios
brancos persistentes que parecem tatuar com a sua luz o
oceano?
  - Oh,  um invento. Horrivelmente imprtico e falvel.
  - Qual?
  - Soube que o professor Langmuir inventou a ampulheta
elctrica cheia de gs?
  - No tinha ideia.
  - Isso vai desembocar na iluminao pblica. Os crimes em
Viena diminuiro. No haver sombra nos becos que protejam os
assassinos. Embora gostasse muito de que algum conseguisse
degolar Schnberg.
  - E o que o une a si e o senhor Langmuir?
  - O interesse pela luz. Mas o que nos separa  o talento. E
os meios. Imagine que ele tem um imenso laboratrio e
abundantes assistentes e eu s conto com a minha ignorncia.
  - E o que anda a perseguir, querido amigo?
  - A vela elctrica sem gs.

                         118 - 119


  - Professor, mas se o conseguisse j o vejo coroado com o
Prmio Nobel.
  O homem encolheu-se dentro da manta protegendo-se tanto da
ironia como dos seus sonhos de juventude: "a gente est na
terra para tentar a glria ou nada. Nada", disse para si mesmo
com melancolia. Mas corrigiu com o esboo de um sorriso:
"Quase nada." Se tivesse tido a educao, os materiais,
relaes internacionais, lnguas estrangeiras, um mecenas mais
tenaz que o seu nico e inconstante anjo da guarda. Mas o seu
nico capital tinha sido a vontade.
  - Sabe que este ano deram o Prmio Nobel da Literatura a
Rabindranath Tagore?
  A banqueira esfregou as mos desejosa de ter uma manta to
acolhedora como a do inventor. No entanto o frio acicatava a
sua curiosidade.
  - Transformou-se num prmio cada vez mais extico. Voc
poria a um filho seu um nome como Rabindranath?
  O inventor bateu nas faces com uma alegria quase infantil.
  - Se eu tivesse tido a infinita honra de uma mulher se
interessar pelos meus tristes ossos, e dar-me um filho,
orgulhoso Lhe teria posto o nome de algum que escreveu: "Os
meus dias e as minhas noites foram-se em vo entre sbios e
discretos; o muito saber ps-me branco o cabelo e o muito
velar queimou-me os olhos. Enquanto eu procurava e ordenava
fragmentos e andrajos, os meus anos secavam-se. Destri o teu
tesouro, dana em cima dele, manda-o ao demnio! Que j sei eu
que a maior sabedoria assenta no beber e ser um perdido."
  O dia comeava a insinuar-se e um tanto entorpecidos pelos
versos do poeta indiano os interlocutores calaram-se e
permitiram que os seus pensamentos vagueassem pelos contornos
das primeiras ilhotas que viam desde que tinham avistado a
armada. De um lugar imprecisamente remoto chegou-Lhes o som de
quatro badaladas. Paula consultou com preciso militar o seu
relgio de cinta fazendo saltar a tampa de ouro, e fez um
gesto de desespero.
  - Tocam quatro badaladas mas s so trs horas.
  - Lento ou rpido, no se chega a nenhuma parte. No o digo
por si, doutora Franck - corrigiu depressa, aceitando a  ajuda
que ela lhe oferecia para abandonar a cadeira. Este sbito
contacto fsico animou Paula para lhe apertar o cotovelo em
atitude compincha.
  - Os raios no mar, amigo. O que so?
  - Luz.
  - Elctrica?
  - Elctrica e insensata. Produzi-los custa uma fortuna. Para
acender um foco, preciso de uma parafernlia de meia tonelada.
  - Mas  luz, vizinho! Luz!
  - Por este preo qualquer um com um grama de pimenta nos
miolos pode faz-la.
  - Um grama de pimenta e quantos anos?
  - Ignoro que idade tenho, lady. A minha memria  promscua,
arbitrria e espasmdica. Retenho informao cientfica,
poemas, partituras musicais, mas s vezes perco-me no centro
de Salzburgo e levo dias at chegar a casa. Os meus juzos so
raios de lucidez no meio de abismos de trevas.
  "O meu pai", disse Paula para consigo, "jamais se permitiria
uma conversa como esta."
  - Seja como for v-se bem - exclamou depois, com falso
entusiasmo.
  - Cada achaque um trofu. Cada meta mais longnqua, excepto
a morte.
  Os dois apoiaram-se na amurada de estibordo sentindo a
espuma salgada saltar at s suas pestanas.
  - Pense que voc como amador chegou a um ponto que ainda
nenhum sbio conseguiu alcanar.
  - Por um preo muito alto. Os meus esforos tm sido
constantes mas desproporcionados. Andei em busca de um
artefacto do tamanho de um pardal e criei um elefante, um
dromedrio rabe de mil corcovas. Muito mais interessante que
a minha luz so as tradicionais velas.
  A empresria bateu na testa.
  - E o que o traz a estas costas do Sul, mestre?
  O homem engoliu um pouco de humidade que se tinha acumulado
nas narinas e disse:
  - Venho iluminar uma boda.

                         120 - 121


                              20.


     O arsenal da armada austro-hngara no porto anexado de
Aspalathon consistia em duas fragatas com quinze canhes a
bombordo, outros tantos a estibordo, um lana-granadas na
proa, um de torpedos na popa, uma goleta de dupla marcha e
traco a vapor e outra eficientssima de velas montadas num
madeirame de ptima resistncia s inclemncias das alteraes
bruscas de temperatura, duas lanchas rpidas equipadas com
telgrafo, oitenta soldados de elite especialistas a cravar
baionetas nos fgados alheios sem recuarem perante o eventual
dano, trinta artilheiros com pontaria provada na conquista de
Tergestre, onde cravaram balas nos ponteiros dos minutos e dos
segundos do relgio da catedral, frigorficos que permitiam
manter frescas as provises mesmo em clima trrido, dois
cozinheiros recrutados por decreto do intendente no Hotel
Heraldo de Graz, capazes de fazer manjares com o subtil cervo
mas tambm, sendo caso disso, com a repugnante ratazana,
capacetes alemes da ltima gerao onde ricocheteavam as
balas feitas de m plvora, e um contingente de explosivos
suficientemente grande para mandar pelos ares Paris.
  O almirante Mollenhauer no tinha fama de cruel nem de
pusilnime. Gostava de beber e comer de empreitada, contava
com uma esposa em Graz, que tinha deixado estrategicamente
prenhe antes da empresa blica da sua ptria, e na mesma
cidade sabia compartilhar algumas noites com a divina modelo
asitica Sigrid Liu. Esta extica e indocumentada menina
atenuava com ele e os seus beijos champanheiros a tortura das
jornadas em pose esttica para o pintor homossexual Francis
von Kassen que a deixavam glida. Era proverbial a avareza do
mestre, que poupava em combustvel o que no ganhava em fama.
  Assim, para proteger a sua concubina dos riscos de uma
estragadora pneumonia, Mollenhauer enviava todas as
segundas-feiras ao atelier uma carrada de lenha e carvo, e
at ofereceu a Madame Liu pr-lhe um quarto num hotel de duas
estrelas, que ela recusou por se considerar artista e no
puta.
  No tinha o menor motivo para ser cruel porque o sexo e os
manjares o tinham reconciliado com qualquer desgosto da vida,
e no deixou de chamar a ateno no Ministrio da Guerra que a
semelhante vivedor se encomendasse uma represlia no apta
para cordeiros. Muito se especulou nos gabinetes sobre a razo
por que o Mole, fazendo uso da sua elevada posio, no movera
influncias no sentido de desviar esta misso para um capito
ambicioso e de moral bastarda.
  A explicao mais plausvel  que Mollenhauer aspirava com a
represlia em Costas de Malcia a uma vitria mtica que ele
saberia amplificar atravs da distncia pela via do bastardo
jornalista Pavlovic, a quem ele faria escrever as suas
faanhas arrancando-lhe as unhas dos ps e uma vez terminado o
artigo despoj-lo-ia das unhas das mos para no o deixar
desequilibrado. O imprio tinha posto  sua disposio tal
quantidade de guerreiros profissionais que at contra o
exrcito turco fariam boa figura. Conferiram-Lhe tambm um
canho de mira to precisa que poderia matar um mosquito
pousado no fruto de uma palmeira. Ou seja, queriam
espectculo. A ustria j no deveria sair vulnervel nesta
guerra contra o Sul, e um certo histrionismo de grand guignol
sem dvida impressionaria os aliados alemes um tanto
reticentes a meter-se em Costas de Malcia.
  O mundo cobri-lo-ia de ignomnia mas o imprio de glria; a
seguir reform-lo-iam com a penso mais alta sem o exporem a
massacres que o aventureirismo expansionista da sua ptria
poderia pagar caro anos depois.

                         122 - 123



Se doze ratazanas haviam rodo at as vsceras a um grupo dos
seus rapazes nos confins de Gema, de que barbaridade seria
capaz um exrcito regular contra as suas tropas?
  Enquanto Mollenhauer elevava o moral com estes argumentos,
na ilha tinha-se acumulado por volta do meio-dia um arsenal de
outra ndole destinado, na opinio do padre, a varrer as
tripas da aldeia. Entre os produtos autctones podia-se
enumerar duzentas e cinquenta galinhas, quarenta e oito
cabritos, dez vacas, duzentas e vinte e duas codornizes,
duzentos e dez linguados, trs tinas de sardinhas, um porco,
vinte cestas de tomate, cinco caarolas de cebola, duas
carradas de uvas, seis sacas de batatas novas, cinco sacos de
couve-flor, trezentos litros de slivovitz, quatrocentos jarros
de vinho local, cem garrafes de tinto francs, um hectolitro
de limonada, e a instalao de um chuveiro nas traseiras do
Lucerna para desembaraar os bbedos dos seus delirium tremens
e dissolver em parte as tradicionais manchas de smen que
decoravam at  meia-noite as saias das raparigas e as calas
dos vares.
  Os rapazes que no tinham participado na emboscada,
inspirados pelo incendirio relato de Pavlovic deram
relatrios equvocos, pcaros e vagos, o que fez inferir s
suas noivas e pais que eles tambm faziam parte da lenda,
enchendo-se de um prestgio cuja imprudncia no tardaria a
demonstrar-se. Quanto aos autores reais, andavam como
sonmbulos pelos bares engolindo cervejas moles, fumando
insones tabaco negro, cantando com voz de bbedos melanclicas
letras de turumbas aprendidas na infncia, entalhando coraes
cruzados por setas no balco do Lucerna, ou untando de
desesperado suor os bancos da igreja. No entanto, quando o
sacerdote os convidou a confessarem-se para lhes aliviar as
cargas, intercambiaram gestos feios e disseram que se
quisessem ajuda de Deus se entenderiam directamente com ele, e
no com intermedirios. O padre, ofendido, augurou-Lhes uma
temporada no inferno, sem saber ento que havia um ttulo
genial da literatura francesa com esse nome.
  Sob a batuta do maestro hngaro Policzer j  uma da tarde
se tinha tocado a Turumba das Frutas composta em Curica  por
Reino Acevedo, um tipo de Portugal que, dotado de um
temperamento exultante, deixou os fados para emitir letra e
msica adritica. No Museu Histrico de Costas de Malcia
conservam-se gravaes do seu abundante opus, criticado pela
gente de bem como grosseiro, picante, repulsivo, e
idiotizante.
  Transcreve-se a seguir a mencionada turumba, que apesar da
sua alegria e devido aos acontecimentos que se desencadearam,
o povo das imediaes recorda como uma balada sobretudo
anmica. Mas na plenitude dos preparativos para a festa, soou
como o que era, e o que se cantou e danou j ningum o tira.


                    Turumba das Frutas

Esta  a turumba das frutas, das frutas,
para danar com a noiva, e com as putas e com as putas.



Eu vou comer a melancia at a deixar toda vazia
eu vou comer esse melo e no deixo nem o corao
eu vou comer a gamboa, que est bem boa, que est bem boa
e depois beijo-te as maminhas, que esto durinhas,
que esto durinhas.


Esta  a turumba das frutas, das frutas, das frutas.
para danar com a av, e com as putas e com as putas.


Menina chupa-me a banana, que est s, que est s
quero beijar-te a couve-flor, que suave odor, que suave odor
e depois at chamo um figo a esse biquinho, a esse biquinho.
Deita sumo a tua laranja, vamos pr cama, vamos pr cama.


Esta  a turumba das frutas, das frutas,
para danar com o padre, e com as putas e com as putas.


  O sacerdote ameaou no benzer as alianas se no retirassem
a ltima estrofe da letra e excomungar todo o povo de uma s
penada como o fez o papa Pio I com os hereges de Tunkun quando
estes usaram as velas do templo com fins pouco santos.

                         124 - 125


Jernimo recordou-Lhe que havia dois lustros ele mesmo em nome
de Deus Lhe tinha solicitado que abrisse um bordel. Pregel
confessou estar sob um ataque de amnsia, e quando o dono dO
Europeu Lhe passou duas notas das grandes para que na sua
prxima viagem a Agram comprasse uma nova esttua de So
Roque, o patrono dos piratas, decidiu que no fundo a Turumba
das Frutas tinha algo de admico na sua frescura e props-se
que antes de cair a noite a demoliria com uma composio
prpria sobre Ado e Eva no paraso. E ali mesmo Lhe ocorreu
um verso:



Olha bem o que fez o bicho, nos jardins do paraso.
Olha o tamanho da serpente, que no to espete,
que no to espete.

                              126


                              21.


     De Nova Iorque vinham os cidos e detonantes que
tornariam possvel que nessa noite a cerimnia nupcial e a
festa alde pudessem ser iluminadas perto de quarenta minutos
como se tivesse lugar em plena luz do dia. Foi o que explicou
o senhor Torrentes a Jernimo Franck enquanto arfava dando
instrues aos carregadores para que no entornassem nem uma
gota dos preciosos lquidos que devia empregar para produzir
essas labaredas brancas. Os habitantes um tanto envaidecidos
pelo triunfo blico que tinham obtido sem entrar em nenhuma
batalha e impacientes por iniciarem a sarabanda que teria
lugar no Lucerna quando escurecesse, acumularam-se no cais e
imediaes para observarem com uma mistura de terror e
maravilha os objectos indescritveis que o enrgico ancio de
rosadas faces mandava levantar com a grua. No era nada que
tivessem visto, e parecia-se com coisas que jamais imaginaram
nos livros.
  Naves espaciais, tanques de cristal, dromedrios de lata,
pernis de ferro, correntes fosforescentes e alavancas
cromadas. Os lemes de ao que o inventor tocava com umas
grossas luvas vermelhas, quase natalcias, eram excrescncias
que brotavam em grande quantidade da maquinaria, e parecia que
todos esses bocados faziam sentido como os instrumentos de uma
banda produzem a msica.
  Depois de Jernimo ter beijado com cortesia as altivas faces
da irm, dedicou toda a fora da alma a abraar Torrentes,

                              127


obrigando-o a depositar a cabea cintilante de cs sobre o seu
corao. No faltaram lgrimas da parte de nenhum dos dois,
mas quando o maduro noivo afrouxou a presso, Torrentes
atropelou-se com as palavras engolindo sincopadamente a saliva
que lhe subia a ma-de-ado no delgado pescoo.
  - Oh, senhor Franck. Como estou envergonhado. Vir aqui com
estas humildes latas para dar um espectculo de feirante
pulguento.
  - A minha irm diz que assistiu aos ensaios nocturnos no
navio e que  uma coisa estelar.
  - Oh, no, querido amo.  a generosidade tradicional da sua
famlia que fala pelos seus lbios. Produzo luz bastante para
que possa filmar a sua boda nesta ilha desgarrada do planeta e
de toda a fonte de energia e at poder fazer imagens das
estrelas e da Lua que viro abeno-la. Mas a que preo,
mestre! Est a gastar a sua fortuna nesta porcaria que  o
verdadeiro parto da montanha.
  - Ser assim, ao cabo de uma vida de experincias?
  - Aparncias, doces aparncias, mas a que custo! Um invento
sem destino; o mesmo que a cauda de um cometa que nos deixa de
boca aberta e que se perde nessa abominvel imensido sem nos
revelar nada de nada, Deus meu!
  Os trs empreenderam o caminho para casa e enquanto o
pessoal dO Europeu carregava as malas e os artefactos, Paula
dedicou cada um dos seus braos aos ombros dos seus
acompanhantes.
  - Em que sentido avanaram as suas investigaes desde a
ltima vez que concebeu o alternador em Salzburgo, Torrentes?
  - Eu no concebi nada, senhor. Dom Nicolau Tesla, um nativo
destas paragens, de Nova Iorque indicou-me algumas vias por
correspondncia. Imagine, essa luminria perdendo tempo
comigo! Tem um sentido de ironia que mi o fgado. Sabe como
me chama?
  - No fao ideia, mestre.
  - Meu querido gnio - ruborizou-se. - Ele, que inventou o
gerador de alta frequncia, o transformador Tesla, os
osciladores mecnicos...
  - J podia dizer etectera. Mas qual  o seu contributo,
mestre?
  Torrentes pigarreou e pela primeira vez Paula teve a
impresso de que o homem sentia que pisava terra; de sbito
faltou-lhe o vaivm do barco debaixo dos ps, e segurou-se 
dama como se um desmaio estivesse prestes a abat-lo.
  - Se se aquecer ou esfriar a soldadura de dois metais
diferentes, engendra-se uma corrente de sentido contrrio em
cada caso, que  fraqussima. Lembra-se do efeito Seebeck,
senhor Franck?
  - De modo nenhum.
  - No tem importncia. O mais prtico  produzir
indirectamente a electricidade convertendo o calor em energia
mecnica por meio de geradores de vapor, e depois a energia
mecnica em elctrica por meio de dnamos e alternadores.
Voil! Compreendeu?
  - Nadinha, mestre. Depois do casamento peo-Lhe que me
acompanhe uns dias na minha lua-de-mel para que se estenda
sobre o assunto.
  - O que ali v so os geradores de vapor.
  - So enormes.
  - No dia em que conseguir reduzi-los, estaremos em condies
de dizer que a minha vida teve a sombra de um sentido.
  - Bem, mestre. O prprio Edison disse: ""Eu no fracassei,
mas antes achei mil solues que no funcionam."
  -  muito irnico, senhor Franck. Edison  uma Kapazitt e
eu s um clown protegido pela sua misericrdia.

                         128 - 129


                              22.


     Antonio e Magdalena afanavam-se medindo o passe partout
onde colariam a coluna de Pavlovic depois de terem desalojado
uma imagem da infncia da mulher onde aparecia demasiado bela
para continuar a infligir-se dia a dia a comparao, quando
sem que mediasse aviso nenhum a distinta dama apareceu na
ombreira da porta obrigando o casal a pr-se de p, esticar de
forma precipitada as roupas, e limpar no avental ou nas calas
os restos da teimosa goma com que executavam a operao.
  - Os pais da noiva, imagino.
  Antonio esfregou com um leno as costas da cadeira que Lhe
indicou para se sentar.
  - Sim, senhora. A minha esposa chama-se Magdalena e eu
Antonio.
  - Nomes cristos, graas a Deus.
  - O meu santo celebra-se a treze de Junho.
  A dama abriu e fechou vrias vezes a fivela metlica da sua
carteira, antes de voltar a falar.
  - O meu nome  Paula Franck. Sou a irm de Jernimo.
  Magdalena levou as mos s faces e sentiu-as corar. Tinha-os
surpreendido naquele acto de modstia rotineira e com os
guardanapos sujos de sangue depois de ter tratado  filha o
dedo ferido pela navalha com que descascava um pssego. Ps-se
diante do lavatrio e inclinou-se perante a visita.
  - Veio  boda?
  Com um suspiro, Paula acomodou o ondulado da sua rgida
permanente, e cravou os olhos nos da mulher, at que esta,
confundida, baixou o olhar.
  - A boda - disse ento. - Dizem que a sua filha  primorosa.
  - A gente exagera - disse Antonio.
  - A gente que exagera - acrescentou a visitante - diz que
noutras circunstncias a vossa filha poderia passar por uma
princesa, to finas seriam as suas feies e to intensa a luz
da sua alma nas pupilas.
  Madalena aproximou-lhe um pequeno copo de barro e apontou na
prateleira uma garrafa.
  - Servia-se de um pouco de slivovitz?
  O casal desfez os seus sorrisos e a me encheu o copinho at
ao bordo. Paula sorveu umas gotas depois de resvalar o seu
estimulante ardor pelos lbios.
  - Que opinio tm vocs do meu irmo?
  - A melhor do mundo - acelerou Antonio.
  - Na nossa famlia,  tido por bomio.
  - No sei o que  isso.
  - Algum de gostos e costumes pouco convencionais. Os
pintores, os bailarinos, por exemplo. O meu pai chamava-Lhe
ironicamente o Poeta.
  O homem sorria afastando o ar com a mo diante da fronte.
Magdalena juntou os cotovelos no peito como que a proteger-se.
  - Jernimo  bem o contrrio de um poeta, senhora.  um
prspero comerciante.
  - Um vendedor de gua no deserto, no  assim?
  - No compreendo, minha senhora.
  - O que quero dizer-Lhes  que a prosperidade  relativa. O
que vocs julgam que Jernimo conseguiu aqui,  o que ele
dilapidou l.
  - Onde, Madame Franck?
  - Em qualquer parte, querido amigo, que no sejam estes
arrabaldes do planeta - disse Paula tocando no nariz com
impacincia. - Diga-me uma coisa, dom Antonio, com toda a
franqueza. Este casamento, tem necessariamente de se fazer?

                         130 - 131


  O homem olhou para a esposa com desconcerto e depois abriu
as palmas das mos diante da dama.
  - Sem dvida que sim, senhora. Faz-se hoje.  a festa do
sculo. At vai ser filmado em cinema.
  - Oh, sim, j sei. Conheci o iluminador no barco.
  Magdalena tirou o avental e enquanto o dobrava para o
pendurar nas costas de uma cadeira, tirou para fora da sua
blusa preta a pequena cruz de chapa.
  - O que  que quer, minha senhora? - disse a me.
  - Contribuir para a felicidade de toda a gente.
  - Incomoda-a o casamento?
  - Na aparncia no, mas no fundo sim. Considero que um
enlace deste tipo deve dar-se entre seres de igual dignidade.
  Antonio sentiu que a esposa Lhe apertava o antebrao, e
conseguiu moderar o seu discurso quando a injria j se Lhe
desencadeava na lngua.
  - Olhe, madame. Esta  uma famlia pobre mas digna, nenhuma
mcula se pode apontar em toda a histria desta casa.
  - Uma histria de que no h nada escrito, suponho.
  - No percebo.
  - Uma histria que no se escreve no existe.  uma soma de
recordaes privadas, est a perceber-me?
  - Pois bem, as nossas recordaes privadas so dignas.
  - Tem razo, dom Antonio. H dignidade na pobreza. E muita
dignidade nos pobres que tm nos coraes a certeza moral de
estarem a proceder correctamente.
  O homem deixou-se cair abatido e acariciou a garrafa de
slivovitz, soltando agora uma suspeita que o mortificava. A
irm de Jernimo viera por sua prpria iniciativa humilh-los
com estes argumentos? Ou mais que uma harpia espontnea era a
porta-voz do prprio Jernimo, que num acto de cobardia
motivado porventura pelo confronto entre os nativos e as
tropas da sua ptria considerava prudente desligar-se do
compromisso que procurou com tanto af? Ou talvez a
prestigiosa senhora fosse uma fada protectora, que sabedora do
mito fatal  que aureolava O Europeu, vinha salvar a sua filha
dessa morte que ele mesmo no fundo temia? S atinou em
levantar a garrafa e servir-se de um copo de slivovitz.
  - O que quer, senhora?
  - Falar com a sua filha.
  - No  possvel.
  - Porqu?
  - Feriu um dedo ao cortar um pssego. Est estendida na cama
com o brao no ar para deter o sangue.
  Paula levantou-se da cadeira e avanou pelo corredor que
dava para o quarto de Alia Emar.
  - Sou mulher e no me impressiona o sangue - disse.
  Dividiu o seu olhar entre o casal e bebeu at meio o copinho
de licor. O sol caa vertical sobre o telhado, e espantou-se
de si mesma, por tomar esta beberagem brbara a esta hora. O
casal baixou os olhos para o cho, como que convocados por uma
autoridade superior, e Paula meteu-se pela escada que a
levaria at  rapariga.

                         132 - 133


                              23.


     Ao entrar na vila de Bororo pde reparar que alguns
habitantes o cumprimentavam com inclinaes mais corteses que
as rotineiras. Uma espcie de intuio props-lhe que esses
leitores dA Repblica o identificavam como irmo de Reino e em
vez de desiludi-los proclamando com todo o corao que o seu
suposto heri era um assassino bestial agradeceu com um gesto
solene as reverncias e procurou o escarpado caminho para a
torre.
  Mas na pequena baa que forma a gua antes de se abrir
generosa para o Adritico, um vozeiro alcanou-o justamente
quando empreendia a subida do monte.
  - Esteban Coppeta!
  Fez que no ouvia e continuou destro a trepar por entre os
calhaus do declive, quando outro grito o deteve com uma
expresso que o incomodava pela sua mistura de ironia,
adivinhao e autoridade.
  - Poeta Esteban Coppeta!
  Vermelho como um sol de crepsculo, o jovem no pde deixar
de se voltar e reconhecer o homem que o saudava agitando os
braos como aspas de moinho. Era o jornalista Pavlovic, que o
intimou com um amplo gesto a descer para compartilhar da sua
mesa. quela distncia j se podia cheirar o aroma dos
cepavici, os pequenos pedaos de fgado de vaca, a assar nas
brasas, e reconhecendo-se lrico, mas mortal, Esteban fez com
certa indiferena o percurso para o almoo.
  - Rapaz - abraou-o Pavlovic -, donde vens e para onde vais?
  -  mais fcil responder  primeira parte que  segunda.
  O correspondente dA Repblica fez-lhe sinal para que se
sentasse e com um dedo enrgico mandou o empregado pr mais um
prato sobre a toalha.
  - Como jornalista no me conformo com isso.
  - Do inferno, senhor. Venho de um inferno exterior e
interior.
  - Como  isso?
  - Costas de Malcia est fora de si e eu estou fora de  mim.
  O empregado trouxe-Lhe um copo de vinho gelado, o jovem
humedeceu nele a lngua, e depois bebeu-o de um gole fitando
os entalhes de pedra da mnima torre do poeta Nazar.
  - Na verdade gostaria de me inteirar dos pormenores.
  - No, senhor. J aprendi que nunca mais devo falar com um
jornalista. O seu artigo de hoje destruiu a minha vida.
  - No o escrevi com essa inteno. O teu irmo contou-me e
eu tomei nota como um modesto escrivo de provncia. Sinto que
tenho o pleno direito de te convidar para um cepavici sem que
me desprezes.
  - Na verdade tenho fome, doutor, e pouco dinheiro.
  - Em contrapartida eu ando com muita massa e pouco apetite.
O que se passa em Gema?
  O rapaz partiu um pedao de po e untou-o no molho de
pimentos.
  - Pelo seu artigo, supus que iria assistir  boda. Agora que
o vejo aqui faz-me pena que o magno acontecimento caia na
merda da anonmia.
  - Faz-te pena a srio?
  Esteban pegou noutro copo de vinho e limpou uma brutalmente
inoportuna e destemperada lgrima que lhe correu pela face.
  - No, doutor. Na verdade d-me prazer. Um prazer s
comparvel ao dio que sinto por Reino. O facto de voc no
narrar a boda far que esta no exista.

                         134 - 135


  - Gosta da maneira como escrevo?
  - Sim, senhor. Voc sabe encher um balo. As suas coisas
lem-se com tenso.
  -  um grande elogio ao vir de um poeta.
  - No faa troa de mim, senhor Pavlovic. S uma vez na
minha vida pari duas miserveis estrofes e s por amor, sem
tino nem talento.
  - E sem efeito, a julgar pela iminncia do casrio.
  - Sem efeito, doutor.
  O empregado trouxe os cepavici servidos numa grelha animada
por brasas de carvo, e Esteban de imediato mastigou um pedao
de fgado. Pavlovic observou-o divertido declinando meio copo
de vinho.
  - O que achar a noiva no austraco?
  - Difcil sab-lo. O mais bvio  o dinheiro. O resto, a
cultura.
  Esteban nesse instante hesitou entre cuspir a comida para o
cho de terra ou engoli-la. Amassou-a na boca durante um longo
minuto e depois deglutiu-a sem que Pavlovic desse pelo seu
dilema.
  - A torre do poeta Nazar - disse.
  O jornalista assentiu com sincera nfase. De repente a
meno do lrico feria-o. Habituara-se a estes isolados
arrabaldes e agora tinha de fugir para a incerteza numa idade
em que todos j estavam consolidados, com as suas razes
firmes em qualquer terrunho. Como o feliz austraco do armazm
O Europeu.
  Esperou que o rapaz acabasse o primeiro pedao de fgado e
depois indicou-lhe uma fatia de carne limpa. Esteban atacou-a
com melancolia e fome.
  - E agora para onde vais, rapaz?
  Tragou o bocado que mastigava, e para no ser descorts
respondeu depressa.
  - Para Nova Iorque.
  Pavlovic deitou-se teatralmente para trs na cadeira de
madeira de cnhamo. Fez como se se abanasse com um leque.
  - Ui, grandes palavras! Tens o visto?
  - O que  isso?
  - Uma licena que se carimba no teu passaporte e que te
permite entrar nos Estados Unidos.
  Esteban olhou para os pssaros que pousaram nos torrees do
poeta. O jornalista, tomado por uma suspeita urgente,
perguntou-lhe:
  - Tens passaporte?
  - No, senhor Pavlovic.
  - Ou seja, nem visto nem passaporte.
  - Assim parece.
  O homem extraiu o seu documento, limpou a mesa com a manga
da camisa, e depositou-o aberto nas pginas com a sua foto e
os selos do Imprio Austro-Hngaro.
  - Isto  um passaporte.
  - Onde o arranjou?
  - No servio do Ministrio das Relaes Exteriores.
  - E a mim dar-me-iam um?
  - A ti ter-te-iam dado um.
  - J no?
  - Ouve bem, mido. Para te darem um destes vo perguntar-te
o nome. E tu tens a puta sorte de te chamares Esteban Coppeta.
Talvez quando Costas de Malcia for independente haja uma rua
com o teu nome na capital, mas enquanto fores o irmo de Reino
Coppeta a nica coisa que vais conseguir  o n da corda do
verdugo no teu lrico pescoo.
  Por baixo da mesa o jovem descalou-se usando os ps e
esticou pensativo os dedos permitindo que a brisa circulasse
pelo meio deles.
  - Bem fodida a coisa - disse.
  - Fodidssima.
  - Ento o que posso fazer? D-me um conselho, doutor
Pavlovic.
  Serviram em silncio os copos de vinho, e depois o
jornalista tamborilou com os dedos no passaporte.
  - Vai para Itlia.
  - Com que passaporte?
  - Sem visto, sem passaporte, sem merda nenhuma.

                         136 - 137


  - No me deixam entrar.
  - H novidades, rapaz. Desde que Veneza perdeu Costas de
Malcia os italianos sonham anex-la outra vez ao seu
territrio. Para favorecer um clima grato a este propsito
actuam como se os maliciosos fizessem naturalmente parte
deles. Por consequncia, no te exigiro nada para entrares.
  - Voc sabe tantas coisas!
  -  o resultado de ter visitado pases com histria e no
simplesmente com paisagem, como esta ilha merdosa.
  O jovem ps-se de p e logo se agachou para pegar nos
sapatos. Descalo, deu uns passos em direco  torre,
deteve-se, virou-se para o jornalista, e coando a cabea
perguntou-lhe:
  - Se no for muito o incmodo, senhor Pavlovic, para que
lado hei-de andar para chegar a Itlia?

                              138


                              24.


     Paula encontrou a noiva soprando o dedo ferido: o sangue
tinha coagulado e j no flua com a ferocidade da manh. Em
cima da cama, o vestido de noiva, com a touca de brilhantes
simulando uma coroa, parecia uma pessoa real. Apesar do calor
obsessivo, soprava algo fresco neste quarto. Sempre a tinha
cativado que a gente rstica soubesse combinar as cortinas e
persianas para produzir correntes de ar que actuavam como uma
bno arrefecendo os seus sis primitivos. Sem baixar o dedo,
Alia Emar observou a mulher e a sua elegante farpela imersa
numa curiosidade quase infantil. Dobrou o pescoo e em
silncio esperou que ela falasse.
  - Sou a irm de Jernimo. - Avanou at  rapariga e
pegando-lhe nos braos perguntou: - Posso beijar a noiva?
  Alia Emar sorriu condescendente e ao untar os lbios naquela
bochecha de uma lisura infinita, Paula soube instantaneamente
a energia da excitao que aquele corpo produzira no seu
irmo. Veio-lhe outra vez  mente a frase que qual uma
cantilena, ou certa conjura, a tinha acompanhado durante o
trajecto desde Salzburgo: "Noutras circunstncias seria uma
princesa." S que princesa se nasce, no se faz, pensou
spera.
  - Bem-vinda, signora. Oxal goste disto aqui.
  - Decerto que gosto.  tudo muito... simples.
  - Oh, sim.
  - Como vai esse dedo?
  - Melhor. A ferida era pequena mas sangrava que nem lava de
um vulco.

                              139


  - Talvez tenhas um problema no sangue que no coagula bem.
  - Oh, no. J parou.
  - H regies do mundo onde s pessoas no coagula bem o
sangue. Especialmente stios com muita mistura. Tantas
invases, turcos, italianos, enfim.
  Aproximou-se da cama e rodeando-a pde apreciar todos os
pormenores do traje nupcial. A modista do irmo devia sem
dvida ter seguido os seus desatinados conselhos na rubrica
moda. Jernimo tentava sempre que as suas aparncias tivessem
o mesmo brilho que os seus estados de esprito. Se a rapariga
era luminosa via-se ento na obrigao de carreg-la com uma
bateria de lantejoulas encandeantes.
  - Gosta do vestido, madame?
  - Decerto - disse. - Parece desenhado pelo grande Edison. -
Tocou o cetim, os tules, os bordados em torno do peito, e
nesse mesmo momento espreitou pelo canto do olho os seios da
rapariga. - O meu irmo  louco, mas no parvo. No creio que
o sangue tenha manchado o traje, pois no?
  - Nem me ocorreu tocar-Lhe.
  - Na aldeia dizem que ser a boda do sculo. Haver cinema e
danar-se- a turumba.
  - Conhece a turumba, madame? - exclamou Alia Emar , de olhos
radiantes de esperana e de dvida.
  "Tambm o olhar, e a cintura, e a voz. E j imagino at como
ser o cu", pensou a forasteira.
  - Oh, sim! Em Salzburgo s se ouve Mozart e turumbas.
  - Agora est na moda a Turumba das Frutas.
  - Querida, posso sentar-me nesta ponta da cama?
  - Claro que sim.
  A rapariga levantou a ponta do traje e Paula deixou-se cair
nesse espao erguida qual guarda-chuva num cabide.
  - Queria que tu e eu falssemos com toda a franqueza.
  A rapariga ajoelhou-se diante do seu regao e pegou-lhe nas
mos.
  - Como deve ser entre familiares.
  Engolindo a saliva reflectiu sobre esta frase, e optou por
desenvolver a partir desse momento uma tctica piedosa que
combinasse o contacto fsico e a desvergonha verbal. Ao fim e
ao cabo, a noiva de livro de fadas tivera a discrio de no
lhe infligir nenhum verso da Turumba das Frutas.
  - Assim , meu amor.
  No havia uma gota de suspeita nem dupla inteno nos gestos
nem no olhar vistoso dessa ninfa que qualquer pintor teria
atacado para fazer uma dramatizao dO Almoo na Relva.
  - Pergunte  vontade, minha senhora.
  - Imagino que estars imensamente feliz com este casamento
to conveniente.
  - Oh, no, senhora Franck. Estou cheia de dvida e
angstias.
  - Que interessante! E o que  que te inquieta, pequena?
  - O amor! Quero dizer, como  que uma pessoa sabe quando ama
algum a srio.
  - No te percebo.
  - Quero dizer... No encontro as palavras para o exprimir.
  - No te rales. Este assunto interessa-me muito.
  - Pense na msica. Ao princpio ouve Mozart, e outra vez
Mozart, e mais Mozart. Ento a senhora  feliz. Quero dizer,
est cheia de Mozart.
  - Inevitavelmente.
  - Quero dizer...
  - Alia Emar, no  necessrio que a cada momento digas quero
dizer. s um pouco repetitiva, mas ests a fazer-te entender
s mil maravilhas.
  - Perdo, signora. Ento Mozart...
  ... e Mozart e Mozart. Est claro.
  - E um dia conhece a quinta sinfonia de Beethoven. E o que
era o amor a Mozart...
  - Transforma-se em amor  quinta sinfonia de Beethoven.
  - No, madame, porque depois ouve dez, vinte vezes, os
quartetos de Beethoven, e o amor por Beethoven meteu-se na
pessoa... Quero dizer, uma pessoa sai de si mesma...  o amor,
no ? Sair de si mesma, certo?

                         140 - 141


  Paula Franck soube que uma lenta palidez comeava a
invadi-la do rosto aos pulsos. De modo que o seu maninho tinha
domado a ferazinha? Como um vulgar doutor Higgins a sua mgica
varinha mudava a rstica alde numa princesa capaz de
diferenciar entre o espectculo da quinta sinfonia e a
dolorosa intimidade dos quartetos?
  - O que me diz de Schumann?
  - Schumann? Schumann di, minha senhora. Quero dizer... di,
minha senhora.
  - Diz-me uma coisa. Conheces um livrinho de Bernard Shaw
chamado Pigmalio?
  Alargando um sorriso que mostrou os dentes mais alegres que
a mulher tinha visto em todas as metrpoles, Alia Emar avanou
para o armrio e exibiu triunfal um fongrafo RCA Victor e uma
torre de discos de acetato. Do tecto at ao cho ordenavam-se
colunas de livros dispostos segundo o tamanho para cuidar da
estabilidade das torres. Os mais gordos e pesados na base, e
em cima as miniaturas. Dali tirou dois exemplares de Shaw, um
em alemo e outro em malicioso.
  - E estas leituras, lindeza, causam-te algum prazer ou so
pedradas para a tua cabecinha?
  - Quero dizer... Quero dizer,  maravilhoso, senhora. Nesta
ilha uma pessoa s se pode entreter com trs coisas: a
leitura, a msica, e procurar dentro de si.
  - Dentro de si?
  -  como outro pas. Muitas vezes sinto... No sei diz-lo,
madame.  que parece uma tolice. Muitas vezes sinto que tenho
uma coisa dentro de mim maior que o meu corpo.
  - Uma coisa que no te cabe no corpo.
  -  uma tolice. Uma coisa que est dentro do meu corpo mas
que no cabe nele.
  - J ouviste falar na alma?
  - Oh, sim. So beatices do padre.
  - O qu? No s catlica?
  - Decerto. Como todos nesta ilha. Eu falo-lhe... Quero
dizer, eu falo de Beethoven.
  - E imagino que de Mozart, e de Schubert e de Schuann e da
Turumba das Frutas. Aplicada esta melomania s artes do sexo
estaramos perante o caso de uma rapariguinha muito promscua.
  - No percebo.
  - Promscua  uma pessoa que vai com um e com outro, que
tanto Lhe d Mozart ou Schonberg.
  Alia Emar sentiu que a raiva lhe enrouquecia a voz.
  - Schonberg no, senhora. Odeio Schonberg.
  Agora  que a irm de Jernimo Franck se ps de p com o
corao agitado e agarrou fortemente o pulso da mo que
sustinha no ar o dedo ferido.
  - Cadela impostora! No h discos de Schonberg. Acabam de
pulveriz-lo os crticos de Viena!
  A mulher soltou a presso sobre a rapariga, e esta lambeu a
ndoa negra que se produziu no pulso. Cruzou os dedos sobre os
lbios, baixou a vista como numa orao, observou de soslaio
os guardanapos manchados que se usaram para deter a hemorragia
daquele ertico dedo indicador, e abriu as pernas pois teve o
pressentimento de que ia desmaiar.
  - O que veio c fazer, senhora?
  - Falar francamente e no ouvir um seminrio.
  - O que quer dizer-me?
  - Com toda a clareza, querida, preciso de ter contigo uma
conversa de puta para puta!
  Alia Emar esgrimiu o dedo ferido e p-lo na bochecha de
Paula ameaando rasg-la de alto a baixo.
  - Quando falar de puta, fale por si. Eu sou virgem.
  - Mais se fornica com a cabea que com a racha. Que to tirem
ou to metam  s um pormenor. O que conta  a vocao de
promiscuidade... colega.
  - O seu irmo sabe que est aqui?
  - Ele  um pssimo negociador e eu venho fazer um negcio
contigo.
  A rapariga foi at  janela e endireitou a cortina. Com o
livrinho de Shaw abanou o queixo.
  - De que se trata?
  - Podes confiar totalmente em mim, porque h mais coisas que
nos unem alm do meu irmo.

                         142 - 143


  - O qu?
  - Eu tambm me casei por convenincia. A nossa famlia em
Salzburgo, graas aos esforos do meu pai, consolidou uma
posio econmica muito forte. Mas no somos gente de
linhagem. Felizmente a monarquia e os nobres puseram-se a
dormir em cima dos louros e a ustria est paralisada. E
quando h estas crises, pensa-se em duas coisas: pedir
dinheiro emprestado ao banco e fazer uma guerra. No h-de
passar muito tempo antes que os nossos soldadinhos de chumbo
se metam em Costas de Malcia. E vocs tero de actuar.
  - O que tem essa histria a ver comigo?
  - Muitssimo. Graas  enorme dvida que o baro von Auertal
tem com o meu banco, procurou uma aliana que o aliviasse das
suas angstias. Pediu a minha mo, e como me convinha, eu
dei-lha. H uma negociao tcita entre ns os dois que
implica no compartilharmos o leito conjugal. Mas tratando-se
de uma beleza como tu e do cobridor do meu irmo, duvido muito
que passe uma noite sem te infligir uns hectolitros de
esperma.
  - Jernimo  muito atraente. H muitas mulheres, at mesmo
turistas e clientes do armazm, a fazer-lhe olhinhos.
  - Mas ele ps os seus olhinhos em ti. E a partir desta noite
por outra coisa em ti que talvez no te agrade.
  Alia Emar deixou-se cair a todo o comprimento da cama
cobrindo o vestido de noiva. Pegou num ramo de flores de
laranjeira, p-lo entre os lbios, e levantando o vestido
acariciou a coxa direita, considerando uma ideia. Sentia um
desmaio que animicamente identificou com o andante de um
quarteto de Schubert.
  - Eu amo-o - disse suave.
  O movimento de Paula at junto dela foi to leve como o
estilo com que se sentou num dos bordos da cama
acariciando-Lhe a face.
  - Como  que uma pessoa sabe se o que sente  amor
realmente?
  A rapariga ouviu-a reconhecendo as palavras e no conteve as
lentas lgrimas que comearam a surgir nos seus olhos.
  A senhora dona Paula Franck, baronesa de Auertal, ainda
accionando a palma da sua mo sobre o pmulo da rapariga,
perguntou-lhe num sussurro:
  - H outro homem?
  Viu as pupilas dela inundadas de uma intensa sombra aquosa,
e no fez nada para impedir que Alia Emar levasse as unhas aos
lbios e inclinasse a fronte em submissa derrota. Surpreendida
com uma reaco to sentimental numa rapariguinha que at esse
momento Lhe tinha parecido muito altaneira e senhora de si,
decidiu assestar sem mais prembulos a grande estocada.
  - Quero dizer - acrescentou com fingida cumplicidade -, alm
de Mozart, Beethoven e Schumann, h outro homem?

                         144


                                25.


     A insnia e a disciplina necessria para promover a sua
virilidade fizeram que Jernimo se entregasse  sesta com uma
fluidez insuspeitada. Os anos haviam mitigado a lascvia
juvenil e o seu sexo sabia atender muito melhor aos desejos
pausados das damas do que s urgncias desse ntimo
desenfreamento. Dormiu triunfal aps as magnficas sombras dos
grossos cortinados, que por sua vez recebiam a luz amansada j
pela enorme cerejeira de que os midos roubavam alguns frutos
a caminho da escola, apontando aos mais altos com a sua fisga,
e temerosos de que o dono dO Europeu os descobrisse e os
transportasse at aos seus pais puxando-os pelas orelhas.
  Tinha plantado a rvore imediatamente aps ler a morte de
Marta Matarasso segundo Stamos Marinakis, possudo pela mais
emptica piedade. Pde sentir naquele desditoso relato a
sensao fsica do nada, essa negao absoluta do ser que
animava as discusses dos filsofos, mas que s sabiam sofrer
os poetas e os amantes que combinavam imagens destrudas pelo
assdio da desgraa.
  Meses depois procurou nos livros a relao entre Eros e
Tanatos e pretendeu convencer-se de que a tragdia de Stamos
era porventura um episdio mnimo dentro dos outros ciclos
fatais que j tinham cantado e entendido os seus antepassados
gregos. Passou noites inteiras a pensar naqueles minutos
ferozes quando o vivo teve de enterrar o corpo dessa rapariga
que havia recebido com um agnico espasmo a morte do seu
explosivo smen. Mas no foi um ritual livresco nem religioso
o que levou Jernimo a pegar numa p e cavar toda a noite at
derramar as profundas sementes da cerejeira nesses arrabaldes
primitivos, mas sim o douto instinto de criar memria e
razes. E eventualmente esconjuros.
  A partir dessa rvore, cultura e cultivo tinham refundido na
sua prtica diria uma trama indescritvel. Jernimo quis
compreender e no lhe bastou procurar no diminuto espectculo
da fosca natureza de Costas de Malcia os sinais de um
sentido, mas procurou a companhia de toda a arte que se
tivesse confrontado com a dor, o mistrio, a morte. Na parte
da frente da loja os seus empregados vendiam panos e miudezas,
licores ou tabacos, peas sobresselentes para automveis ou
bombas para bicicletas, mas na sala junto da ansiosa cerejeira
crescia tambm a biblioteca e a coleco de discos, os quadros
e as partituras, os velhos instrumentos adquiridos em saldo
que de vez em quando oferecia aos turistas e comerciantes que
fundeavam na sua casa, para ter o prazer de ouvir msica ao
vivo, no Lhe importando quo diletantes fossem os
instrumentistas.
  Quando Marta Matarasso morrera, Alia Emar era recm-nascida.
A sua futura esposa tinha sido tratada de uma febril faringite
na pequena clnica que ele ajudou a fundar, pagando dos seus
lucros um mdico e uma matrona trazidos de Curica, o que
permitia aos ilhus atender aos seus partos e enfartes
rapidamente e dentro de normas higinicas e profissionais.
  A inexistncia desta infra-estrutura foi o estpido motivo
que aperfeioara a agonia de Marta Matarasso. A equipa mdica
chegou no primeiro barco da madrugada seguinte. S serviram
para pr na campa da noiva anmonas frescas extradas da
estufa do navio.
  Voltaram no mesmo navio de preto rigoroso, culos e
monculos, bastes e equipas cirrgicas. Antes de
desembarcarem no continente as flores tornaram-se p no meio
do vento e das pedradas do sol, informou o padre Franz Fregel
a dom Jernimo.

                         146 - 147


Antes da sesta, o dono do armazm visitara a clnica e com uma
imprudente ternura reviu as actas dos nascimentos procurando a
data do aniversrio de Alia Emar, enquanto o doutor e a
enfermeira abriam caixas com medicamentos europeus com que se
tinham guarnecido para a festa da noite: reanimadores
cardacos, medidores de presso, lquido antivmitos,
analgsicos, ligaduras e desinfectantes expeditos para tratar
as picadas de punhais rivais, quer por cimes ou contas
pendentes, quer por saudvel esprito desportivo, e sobretudo
coagulantes de moderna qumica. A enfermeira perguntara porqu
tanto destas ltimas doses e o mdico respondera com um
enigmtico "por causa das moscas". Jernimo deixou transbordar
um sorriso ao ler os dados clnicos dos primeiros minutos de
vida da sua amada: trs quilos e duzentos gramas, trinta e
oito centmetros, parto normal.
  Durante muitos anos, Alia Emar para ele foi s a pequena de
cabelo desalinhado e sobrancelhas duras que costumava vir 
loja com a me comprar bagatelas. Nos primeiros encontros
disse para consigo mesmo que era uma rapariguinha belssima,
mas uma criana, e no h ningum de oito ou nove anos que no
tenha a alma inteira a sair pelos olhos. Depois a vida vai-se
complicando, e s vezes extinguindo. Ento ela era bonita como
tantas, ou linda como todas.
  O que marcou a diferena e iniciou a sua obsesso, teve
lugar no dia em que Alia Emar veio com a me adquirir algumas
vitualhas com que celebraria os seus treze anos. Era uma manh
de tremenda agitao porque os contrabandistas tinham
conseguido uma aliana to estratgica como corrupta com a
alfndega que Lhes permitia tirar dos pores dos barcos peas
de grande tamanho: frigorficos ou automveis no eram
impossveis para as modernas lanchas adquiridas graas 
prosperidade que Franck estabeleceu no porto.
  Inclusivamente, um dos importadores ilegais, que se fazia
chamar Smuggler, disse a Jernimo que perguntasse a Reino
Coppeta se no estaria interessado em adquirir um tanque de
ltima tecnologia. Destro o austraco em detectar
temperamentos excitveis, decidiu esquecer-se de transmitir o
recado. No havia nada no mundo que fizesse Costas de Malcia
cobivel para ningum, tirando a captura de corpos jovens
para os arregimentar no exrcito do imprio. "Debulham-nos
como maarocas", tinha ele lido nas engraadas aventuras do
bom soldado Schweik. A presena de um tanque no meio de
pssaros, sardinhas e burros, chamaria a ateno dos espies,
que amavam o odor da guerra como os amantes franceses umas
gotas de perfume nas ndegas das suas fmeas. Sigmund Freud
acabava de dizer em Viena: Wir sind die Nachkommen einer
unendlichen Anzahl von Mdern. Die Mordlust steckt uns im
Blute. Nun im Krieg werden die Kulturauflagen abgestreift und
die uralten Bestien treten hervor. (Somos os sucessores de um
nmero interminvel de assassinos. Temos a nsia de matar no
sangue. S por meio da guerra deixamos cair as mscaras
culturais e permitimos que as feras primitivas mostrem as suas
caras.)
  Informado o dono do armazm que dona Magdalena e Alia Emar
queriam adquirir fermento para o bolo, treze velas de cores, e
um pote de compota inglesa de laranja, suplicou-lhes que
esperassem enquanto ele traficava peas de automveis que iria
revender na Grcia. Para lhes tornar mais agradvel a espera
sentou-as  mesinha do recanto onde havia revistas e ps no
fongrafo o allegro do Concerto n.o 22 para Piano e Orquestra
de Mozart. Fez as suas transaces habituais com tal talento
para o regateio que sorriu ao pensar que a sua irm o tinha
por pouco menos que um bomio toxicodependente, e ao abrir as
caixas com velinhas de aniversrio o acaso f-lo dirigir a
vista para a rapariga. Alia Emar estava magnetizada ao
altifalante da grafonola quase como uma exaltao ao vivo do
cachorro enfeitiado da RCA Victor que reconhecia na
reproduo A Voz do Dono.
  A exmia digitao do concertista nos seus felizes
arrebatamentos causavam  rapariga sem dvida um prurido que a
fazia estremecer at s pontas dos cabelos. Quando Jernimo
Lhe perguntou se gostava da msica, ela disse a frase a partir
da qual datava o incio do seu amor. - Assim sou eu.

                         148 - 149


O homem julgou perder o equilbrio, a caixa de velas e
candelabros entornou-se pelo cho fora fazendo o barulho de
uma matilha de animais, e a garganta ficou-Lhe dura como se
lha tivessem tapado com cimento. A partir dessa precisa
perturbao soube ele que a sua vida adquiria finalmente um
sentido: esperar que as velas se consumissem de ano em ano
insufladas pelo mistral e que a pequena chegasse ofegante aos
dezasseis anos para a pedir  me em casamento. Ele prprio
embrulhou as vitualhas de aniversrio, e sem que lhes fossem
pedidas nem pagas acrescentou ao pacote serpentinas, cornetas
de carto envolvidas em cartolina dourada com estrelas azuis,
cartas com mnimos unicrnios verdes, guloseimas irlandesas, e
para finalizar tirando da seco livraria a recente traduo
para malicioso de A Cabana do Pai Toms.
  - Este  o nico livro escrito por uma mulher que tenho.
  Sem o embrulhar cruzou-o de ponta a ponta com uma fita cor
de rosa, e aplicando a esta o fio da tesoura, fez uma rosca
festiva que deu ao volume o aspecto de presente. P-lo nas
mos da rapariga, e quando a me pagava na caixa a sua parte
da transaco Jernimo oleou as suas cordas vocais com um
pouco de saliva, e num murmrio, aproximou os lbios dos
lbulos da donzela:
  - Quando tiveres lido, passa por c para o discutirmos.
  O allegro terminou nesse momento e com os acordes levitantes
tambm se calou o fongrafo. A pesada agulha manteve-se a
riscar o crculo de acetato em volta da etiqueta, e a rapariga
pareceu confundida por Mozart e os chios sarem do mesmo
artefacto.
  Agora, muitos anos depois, antes de se deixar sucumbir na
sesta prvia  sua boda, deitou sonmbulo um ltimo olhar ao
relgio que marcava as duas e onze minutos, e no pde deixar
de sorrir perante os caprichos do padre, que da torre da
igreja deixava escapar quatro contundentes e inslitas
badaladas.

                              150


                              26.


     Na biblioteca municipal de Gema havia cerca de cem
livros, a maioria em alemo, cinco ou seis em italiano, e uns
vinte em malicioso. O recinto era uma sala ao fundo da cmara,
de porta sempre aberta, e nenhum funcionrio que se
encarregasse dela. Certa vez que o jovem Esteban Coppeta
sugeriu ao carrancudo presidente que o nomeasse
bibliotecrio-chefe para cuidar desses volumes, este
replicara: "No se preocupe, amigo, nesta ilha os livros
cuidam-se sozinhos."
  A salomnica frase pde testemunh-la o irmo do rejeitado
eventual funcionrio pblico quando ao folhear os volumes
notou que as suas pginas estavam religiosamente pegadas. O
nico livro que parecia manuseado, e inclusivamente privado de
algumas folhas orgsmicas era As Memrias de Uma Princesa
Russa. O resto mostrava-se perfeitamente inclume, salvo o
Grande Dicionrio Alemo-Malicioso, a Enciclopdia
Italiano-Maliciosa, e os manuais Italiano Veloce e Deutsch
Jawohl que tinham sofrido os desvelos intelectuais dos alunos
da primria, pois no havia entrada que no estivesse manchada
com marmelada, manteiga, sumo de cereja, bolinhas de massa
petrificadas, ou mucos j marmreos.
  Reino procurou no compndio alemo o nome do seu pai, e
encontrou-o com a sentena: "Jos Coppeta: aventureiro
malicioso que tentou sem xito desanexar Gema do continente".
  Se tivesse fsforos naquele momento deitaria fogo no s a
essa pgina mas tambm ao total da desinspirada enciclopdia.

                              151


  Nervoso, procurou ento as folhas do dicionrio italiano at
dar com o pai:
  Jos Coppeta, heri italiano que pretendeu declarar guerra
ao Imprio Austro-Hngaro para libertar Costas de Malcia e
estabelecer uma revalidao do pacto comunitrio com o
principado de Veneza. Contribuiu grandemente para desenvolver
a estratgia do Peloto Coppeta, base de grupos guerreiros
informais que vieram a constituir mais tarde os partisans.
Carinhosamente apodado de Louco Coppeta, foi decapitado numa
emboscada a bordo de um navio austro-hngaro.
  Destas animadoras linhas, reino saltou para o P para ver se
as tcticas blicas do Peloto Coppeta postas em circulao
pelo seu antepassado podiam ajud-lo na batalha frontal que se
avizinhava contra uma armada de luxo a cargo nada menos que de
um almirante. O seu af levou-o com efeito ao Peloto Cucu que
aparecia definido como modalidade informal de grupos de
combate. Ver Coppeta, Jos.
  A volumosa biblioteca estava ordenada alfabeticamente
segundo os ttulos. Comeava na prateleira superior com o A e
o texto As Aranhas Africanas, onde as ilustraes superavam em
horror as descries e cujo momento mais mrbido inclua o
esqueleto de uma girafa depois de ter sido exposta ao ataque
de um batalho de himenpteros formicdeos carnvoros.
  S por curiosidade viu que o ltimo texto representava a
letra Y Era um manual sobre as ervas mediterrnicas, com o
ttulo Las Yerbas del Mediterrneo e onde se recomendavam
entre outras o rosmaninho para condimentar o borrego e o
gergelim como aliciante da mesa no tradicional frango na
pcara.
  Entre os dois extremos encontrava-se a sua letra, o G de
guerra. Aqui  que a variedade era enorme. A ponto de se poder
escolher entre dois ttulos: A Guerra dos Sexos e Contra a
Guerra, colectnea de poesias pacifistas em malicioso da
poetisa Maya Goi, cujo primeiro verso era: "A ferida sob o
corao de Cristo tem a forma das Costas de Malcia"; aqui
entrou a lana do guardio insensvel." Sendo o resultado da
sua pesquisa igual a zero (porra, zero sobreviventes, Reino) e
considerando que tirando os dicionrios, os livros no serviam
nem de escudo para os meter debaixo da camisa, decidiu sair
para a plena luz do Sol, onde j as famlias mais excitadas se
dirigiam a ocupar os primeiros bancos da igreja para a troca
de alianas do sculo.
  Nesse preciso instante ouviu soarem quatro badaladas, e
calculou que da a cerca de trinta horas os austracos
entrariam na sua ptria voando  vela solta.
  Estas badaladas recordaram-lhe que o padre, por mais
remendada e lustrosa que estivesse a sua sotaina e por mais
desdentados que sorrissem os seus caninos, era o representante
do Vaticano em Costas de Malcia.
  Na vazia praa em frente da igreja, Torrentes observava com
um culo a torre, deslocando-se com atitude criminalstica e
contorses excntricas. Ao baixar a lente sobre o seu casaco
cinzento coou a cabea, meio calva no centro e hirsuta nas
tmporas, com o frenesi de um colegial. Deteve Reino por um
brao e a custo desenhou um sorriso:
  - Voc  daqui, jovem?
  - Aqui somos todos daqui, cavalheiro. Porqu?
  - J se deu conta de que este sino no  possvel?
  - O que tem de especial o sino?
  - No se atm s leis da fsica.
  - Se no se atm s leis da fsica, deve ater-se a outras
leis.
  Sem se despedir, o jovem iniciou a sua marcha para a
sacristia. O padre tinha fechado a igreja ordenando que
decorassem o seu interior como um bolo de noiva. Para isso,
Jernimo soube perder uma partida de panos destinados a um
sulto turco.
  Dirigiu-se ao gabinete do padre e foi dar com ele a untar o
cabelo com uma massa de goma gelatinosa. Vestia uma sotaina de
impecvel branco bordada com filigranas a fio de ouro, e ao
descobrir Reino, pegou num trapo azul, esfregou as pegajosas
mos, e ps-se a ordenar o seu cabelo cor de mel com vigorosos
movimentos de pente.
  - O que te traz por aqui, rapaz?
  - Falar consigo, padre.

                         152 - 153


  - No  o dia indicado. Com o casamento do senhor Franck a
nossa igreja est a abarrotar pelas costuras. Ou h alguma
extrema-uno em vista?
  - No. Por enquanto no - disse Reino fnebre.
  - Volta na segunda, filho, e leva uma estampa de So Roque.
  - Segunda-feira ser demasiado tarde.
  - Ui, mais parece uma balada napolitana.
  - Leu A Repblica, padre?
  O padre pegou numa fina tesoura e aproximando-se do espelho
foi cortando um pouco da frondosa patilha de bispo grego que
no condizia com o formal rigor do seu novo penteado.
  - Homem, armaste uma das boas. Os austracos devem andar 
tua procura para te caparem  unha - disse com um sorriso.
  - A nica coisa que fiz foi defender a ptria de uma invaso
estrangeira.
  - Tempo perdido! Por Costas de Malcia passaram todas as
raas e tribos do universo desde que o homem foi criado e no
meio desta mistura ningum pode dizer quem  ou quem no 
estrangeiro. Ptria  o que permanece, o que  eterno. E o que
permanece  o cu.
  - Voc diz isso porque  estrangeiro.
  - Filho, eu sou um padre. Um homem de Deus na terra.
  - Ou seja,  o representante do Papa em Costas de Malcia.
  - Guardando as devidas distncias, sim. Pio X come
codornizes e eu minhocas, mas nutrimo-nos ambos de criaturas
do Senhor.
  O jovem ps-se de joelhos, pegou na ponta da flamante tnica
confeccionada pelas estilistas de Alia Emar e paga com os
fundos de Jernimo Franck e, beijando-a com uno, refugiou o
seu rosto no pano.
  - O que ests a fazer, rapaz? Vamos, vamos. Levanta-te.
  Mas Reino manteve a face envolta na tnica e falou com voz
to afogada que o padre mal conseguiu ouvi-lo.
  - Ajude-me, padre. A realidade pesa horrorosamente.
  - Claro que sim. Um vale de lgrimas. Faz parte do nosso
negcio, filho. Mas de vez em quando temos de esquecer-nos. 
para isso que existem as festas, os carnavais. No podemos
rebolar-nos todos os dias em lodo e cinzas. Kopf hoch, Reino
Coppeta.
  O jovem puxou para trs o cabelo rebelde, ps-se de p e
segurou nas mos o crucifixo pendurado sobre o peito do
sacerdote, e deteve muito tempo os lbios sobre a sua humilde
madeira.
  - Ajuda-me, Deus meu.
  O sacerdote retraiu-se hesitante.
  - O que queres concretamente de mim, meu pequeno?
  - Que fale com o Papa e Lhe pea que detenha a armada do
imprio.
  - Que eu fale com o Papa? Se nem sequer sabe que eu existo!
Para Sua Santidade valho tanto como a ltima pulga no rabo de
um co.
  - Vo matar-nos a todos, padre. No pode permitir que os
seus cordeiros sejam devorados pelo lobo. Voc disse que era
nosso pastor.
  - Mas no vosso encobridor! Reino, degolaste um pobre
soldado de dezasseis anos totalmente inocente.
  - No h soldado inocente, padre.
  - Obedecem a ordens!
  - Mas Deus deu-nos uma cabea para discriminar entre as
ordens justas e as perversas. Se no, para que  que Deus
criou o homem livre?
  - Ouve, Reino, no  hora de discutir teologia.
  - Se Lho pedi de joelhos, padre.
  - De joelhos rezarei por ti.
  - No sou eu que conto. Vo matar todos os homens da ilha. A
glria da sua maldita boda ser apagada por um ciclone de
sangue.
  - Rezarei por todos eles. Agora vai-te embora.
  - No quero que reze merdice nenhuma. Voc viu morrer a
minha me. Voc jurou-lhe que cuidaria de ns.

                         154 - 155


  - Que merda queres que faa?
  - Fale com o Papa!
  O sacerdote caminhou de volta ao espelho: mirou a sua imagem
grave. A excitao de h uns minutos tinha emigrado das suas
feies. O cabelo fixado com goma nas tmporas, que antes lhe
parecera uma venial coqueteria, agora impressionava-o como a
maquilhagem de um bartono de pera. Porque era assim a vida?
H dcadas que no acontecia nada nestes confins do universo,
se no fosse o austraco com a sua loja e o seu ramal de
contrabando para a Grcia, e de repente num s dia todo o
mundo se punha histrico.
  O jovem Reino, doido varrido, cabecilha de malucos,
tambor-mor de dementes, um lobo parido pela lua sem outra
inteligncia alm do instinto e a sua insofrida piedade e amor
a Cristo, acorria arrepelando os cabelos qual um sarnoso Job e
pedia-lhe que interviesse perante o Papa.
  Uma hora antes, a belssima Alia Emar, uma mulher em que as
virtudes do Criador gritavam a beleza do universo, a noiva do
sculo, acorria ao seu confessionrio no meio de um fervedouro
de sombras, para Lhe perguntar quatro horas antes da sua boda,
se era verdade que o suicdio seria castigado com o inferno,
no importava quo justas e piedosas fossem as razes.
  - Est bem, falarei com o Papa.
  - Quando?
  - Amanh.
  - Amanh estaremos todos mortos. Tem de ser agora.
  - E como fao? Julgas que o Papa d o seu nmero a toda a
gente?
  - No sei. Mas eu tenho-o.
  - O nmero de telefone de Pio X?
  Reino estendeu-Lhe o papel e manteve-se a olh-lo com a
gravidade de um defunto. O padre apalpou a folha de papel como
se duvidasse da sua materialidade e a seguir, pensativo,
retocou com a mo livre o novo penteado.
  - A sade do Santo Padre est deteriorada. Ele profetizou
que em 1914 rebentar um grande conflito. Odeia tanto a guerra
como o modernismo, compreendes?
 - No.
  -  esse o problema, ento.
  - No percebo, padre.
  - Talvez este ataque a Costas de Malcia seja o comeo da
grande guerra que o Papa anunciou.
  - Maior razo para que queira evit-la.
  - E contradizer a sua profecia?
  Reino agarrou o fino pano do flamante traje do sacerdote e
abanou-o com tal fria que, ao solt-lo, o padre perdeu o
equilbrio e caiu ao cho.
  - Voc no  um homem de Deus. Voc  um fodido cara de
caralho posto aqui pelo diabo!
  - Estas heresias ditas dentro do templo garantem-te uma
dupla eternidade no inferno - exclamou o padre, levantando-se,
com um punho fechado.
  - Voc julga que o Santo Padre no vai deter uma guerra
porque fez uma aposta que quer ganhar! Nem sequer a uma
ratazana ocorreria semelhante desgraa.
  O padre humedeceu os lbios e sacudindo o peitilho da sua
tnica verificou se os dedos blasfemos do rapaz no teriam
ficado impregnados nela.
  - Est bem. Vamos ligar-Lhe.
  Tirou com gestos rpidos o novo traje e arrastou Reino pelo
cotovelo para a sada.  porta estava ainda o velho Torrentes
atento ao campanrio e refugiado na sombra de uma cornija como
um gato que se prepara para saltar sobre um pssaro distrado.
  No cais encontraram o telegrafista abrigado da cancula pela
vertigem de uma pequena ventoinha que lhe fazia voar o cabelo
contra a parede. Solene, limpava com um trapo atado a um arame
o cano de uma carabina. Ao ver Reino e o padre juntos cuspiu
com cortesia para o cho e tornou  sua faina sem os
cumprimentar.
  - Quero fazer uma chamada internacional - disse o padre.
  O homem indicou o telefone com o queixo e a seguir levantou
o cano da espingarda para espreitar o seu interior fechando um
olho.

                         156 - 157


  - Marque o nmero da telefonista em Agram, e ela
transfere-Lhe a comunicao.
  - Que nmero?
  - Um.
  O padre pensou fazer uma piada sobre a complexidade desse
nmero, mas lembrou-se logo de que tinha lido a anedota noutro
romance e reprimiu-o. Marcou rotundo e encarou a dura
expresso de Reino sem um sorriso.
  - Menina: d-me o cinco-cinco-cinco-zero, na Cidade do
Vaticano.
  -  uma chamada pessoal?
  - Pessoal, menina.
  - E com quem deseja falar l?
  O padre inchou o peito e conseguiu enrouquecer a voz como se
a investisse de gala.
  - Com o Papa - disse.

                              158



                              27.


     Esteban ouviu as quatro badaladas quando exausto pelo
caminho percorrido se detivera para beber a gua morna do seu
cantil. No quis reflectir nem um segundo sobre este
inconveniente que se cruzava na sua rota. Apenas soube que
empreendeu o caminho de volta  aldeia trotando com a
elasticidade de um maratonista e deitando suor pelas tmporas,
fronte, nuca, pulmes e ps. Correu mais rpido que as raposas
e os coelhos que se lhe atravessavam  frente nos matagais,
espantou com alaridos um rebanho de cabras que cruzou eterno e
indiferente o carreiro de calhaus, esmagou uma lagartixa
aturdida pela densidade da luz que caa feita uma massa de
diamantes, e moLhou as rochas ao limpar com a mo a
transpirao da fronte.
  Teve uma alucinao no momento em que um bando de corvos o
precedeu no caminho como o guia de um cego cor de azeviche que
o incitava a correr mais veloz: das traves que sustinham o
sino do templo, pendia Alia Emar moribunda e a sua lngua
balouava como o badalo oxidado do sino.
  Imaginou-se a seu lado desatando com os dentes a corda que
lhe oprimia o pescoo, diminuindo com os dedos febris as
plpebras sobre esses olhos ausentes e ignorantes do mundo.
  A angstia da corrida fez que a distncia lhe parecesse
infinita, mas as suas pernas iam mais rpidas que as suas
apreenses e ao cabo de duas horas conseguiu ouvir as ondas
intermitentes das primeiras turumbas por entre a rebentao do
mar sobre os recifes. Com o declinar da tarde fez-se uma brisa
forte e remontou a energia no seu corao desbocado.

                              159


Quis enfrentar o pior agora mesmo e depois prosseguir com esse
impulso que ao mesmo tempo odiava e admirava em Reino: a
aco.
  Seria essa a chave para entender a vida? Treinar o corpo
para que fosse sempre adiante dos seus pensamentos? Porqu se
provinham da mesma me e da sua nutrcia ternura, ele se
afundava nas encruzilhadas sem definir rumos, enquanto Reino
s tinha de ocupar a sua mente para esconder as marcas das
suas aces ilcitas?
  No tinha resolvido nada amando Alia Emar com a montona
disciplina do tmido. Durante anos andou tecendo um enredo de
sonhos onde ela era sensualmente sua com a perfeio das
quimeras, mas ao mesmo tempo esquivando-se  angstia que Lhe
oferecia a triste realidade.
  Outros abordavam-na no cais e beijavam-Lhe os joelhos,
propunham-lhe jogos e brincadeiras com os olhos fechados para
Lhe roubarem um beijo, apertavam-na pela cintura nos bailes, e
com os dedos erectos apalpavam-Lhe os bicos dos seios,
oprimiam-Lhe as frgeis costelas em abraos de rudeza viril,
com os dentes brilhantes de luxria.
  Na praa teve uma vez mais o testemunho da sua
insignificncia. Partira da aldeia para Nova Iorque e ningum
parecia sab-lo. Os moos passavam-se as garrafas de slivovitz
com a destreza de corretores de apostas, e aludiam com piadas
de duplo sentido aos elegantes trajes que tinham pedido
emprestados aos parentes de Agram para estarem  altura da
cerimnia. E, sobretudo, inventavam possveis desenlaces para
a noite nupcial de Franck e Alia Emar como se os vinte anos de
mexericos e mitos do himeneu da Matarasso comeassem nestas
vsperas uma alvoroada ressurreio.
  Esteban dirigiu-se para a parquia alde e fez girar sem
rudo o manpulo de bronze. O sacerdote estava de joelhos, a
cabea cada sobre o peito, diante de um rstico crucifixo de
artesanato local. No meio dos barulhos que misturavam
brincadeiras de crianas com cantares de bbedos e sereias de
vapores que atraam os curiosos de Curica, as costas do
religioso luziam macias na sua solido e silncio. Dali
deslizou at  escada em espiral que conduzia  torre para
evitar que o descobrissem os encarregados que j tinham
transformado a mnima igreja numa catedral de luz.
  Esteban foi trepando pelos degraus at que a escada se
enroscou na escurido, e ento apalpou os muros como se os
conhecesse de memria. Num momento deteve-se, e pensou que
talvez fosse melhor no continuar. Desde o falecimento da me
que no se tinha passado nada de importante na sua vida, e
agora tinha o amor e a morte a rugirem-Lhe com a mesma
autoridade. Se a sua fantasmagoria de Alia Emar se
demonstrasse certa, e a imagem da morte se transformasse em
matria de morte, estes seriam tambm os ltimos instantes da
sua vida. J sabia de uma rocha pontiaguda onde desfazer a
cabea para ser logo anonimamente tragado pelo mar. Um ms
depois, alguma noite na taberna, algum perguntaria tedioso
pelos Coppeta e o taberneiro diria que o jovem Esteban andava
a hipnotizar as moas nova-iorquinas com os seus olhos azuis.
Mas na verdade, os seus olhos teriam sido picados pelos corvos
marinhos e o seu esqueleto jazeria junto dos recifes,
desnudado e definitivo.
  Faltava um ltimo bocado para a temeridade e para a
esperana. Acometer a escada de mo, quase clandestina, que
levava ao compartimento onde a tinha encontrado pela ltima
vez. Esse espao que ningum ousava profanar temeroso dos
morcegos e dos mistrios fsicos e metafsicos que sustinham o
campanrio no improvvel e inexplicvel. L em cima sabiam
esperar o sol as salamandras, e os grilos pareciam congelados
num silncio impenetrvel. O lugar mais alto da povoao, que
deslumbrava os navegantes com o seu equilbrio de fantasma,
era ao mesmo tempo o mais ntimo, o sto elevado dos coraes
audaciosos. Ao avanar pelos degraus de ripas soube que estava
a invadir um recinto em que a sua intimidade era destronada.
Algo de indefinvel e turbulento mandava nesse espao.
  Quando vislumbrou Alia Emar no canto que formavam as paredes
de barro e cal, nua, com as mos segurando na cabea o cabelo
para evitar que lhe casse sobre os seios, aguou o ouvido
implorando que respirasse.

                         160 - 161


Real ou mentira, mesmo que a sua vida no durasse mais que um
minuto, Esteban admitiu para consigo mesmo que este era o
coroar da sua vida. Um Deus confuso e errtico oferecia-lhe a
carncia e a plenitude num nico gesto.
  - Porque tardaste tanto, Tebi?
  O rapaz encolheu os ombros, e depois esfregou fortemente as
plpebras com os polegares. Avanou at  rapariga e ps-lhe
uma mo no ombro direito, gelado.
  - Estava longe.
  - Porqu?
  - Fugia.
  Engolindo a saliva, Esteban abraou-se a si mesmo
protegendo-se de um sbito estremecimento.
  - A que horas  o casamento? - perguntou sentindo-se o tolo
maior do universo.
  Alia Emar afastou os joelhos. A seguir ps a mo direita no
ventre, e trouxe o seu hmido perfume at ao pmulo do rapaz,
marcando-Lhe uma cicatriz com o seu lquido.
  - Olha para mim, Esteban.
  Na incerta penumbra, a rapariga pegou-lhe pelo queixo e
obrigou os seus olhos azuis a enfrentarem o leve reflexo que
vinha das tochas.
  - A que horas  o casamento? - insistiu o jovem.
  A noiva enterrou as mos no cabelo do rapaz, revolveu-Lhe as
razes, e depois beijou-lhe a ma de Ado que saltava fora de
controlo.
  Afastou-o um pouco, untou agora a testa com a secreo da
sua vagina e desenhou um crculo sobre as sobrancelhas
marinheiras que emolduravam os olhos como que a dar-lhe uma
ordem escrita que o rapaz no atinava a compreender. Ento
entreabriu um bocado mais as coxas, tirou outra gota do seu
fluxo, e com a deciso altiva do seu queixo desafiando as
estrelas, puxou sem resistncia o queixo de Esteban para o seu
cltoris, bastou o roar de um beijo, para Alia Emar sentir
que cada nervo estava ligado a esses especficos lbios.
  Esteban soube at ao mais recndito pedao do seu corpo  que
no percebia. Que era tudo feito de uma complexidade
inabordvel para a qual a sua inteligncia ou vontade no Lhe
dava acesso. Agora Alia Emar punha-lhe as mos no rosto e por
entre as falanges esticadas espreitava com um sorriso o fundo
dos seus olhos. Duvidou do seu instinto que Lhe exigia a
violncia, atirar sem mais demora o seu membro por entre as
coxas regadas de quentura, e manteve-se rgido, confuso na sua
hesitao.
  Por ela se fora embora da ilha, por ela voltara. Por ela
tinha considerado a morte como uma companheira desejvel, por
ela continha agora o feroz esperma e a dorida lgrima.
  - Explica-me - disse rouco.
  - Agora! - sussurrou Alia Emar.

                         162 - 163


                              28.


     Passou revista aos canhes confirmando que os projcteis
estavam ao alcance dos marinheiros no caso de ser necessria a
manobra a que ele chamava noite de carnaval, ou seja, disparar
toda a bateria ao mesmo tempo, at sem fazer pontaria, com o
propsito de que o pavor pulverizasse qualquer assomo de
resistncia.
  Como almirante fraternal e democrata falou com todos os
membros da tripulao, inquiriu do jantar que haviam deglutido
nessa tarde s seis, hora austraca, e quis saber se o
cepavici de borrego estava cozinhado tal qual o faziam nas
suas casas maternas.
  Embora a batalha fosse ignominiosamente fcil, reuniu sob a
argntea e cortada lua o total do contingente e arengou-Lhes a
combater em Costas de Malcia, evocando com a voz aquosa as
mes desconsoladas que haviam ficado rfs dos seus filhos, ou
vivas dos seus rebentos, ou sozinhas como uma bandeira
espezinhada no bordel da vida.
  Resolvido a elevar o nimo da tropa mandara imprimir em
Curica duzentos exemplares do artigo de Pavlovic para
condimentar deste modo a ira dos grumetes que s passariam a
desejar devolver a mo aos sequazes do tal Reino Coppeta,
verdugo de inocentes, delirante xenfobo, ratazana dos cais,
co sarnoso e pulguento, que com as suas palavras de ordem
primitivas sublevava os maliciosos contra o progresso, a
cultura e a espiritualidade que com to boa vontade lhes
oferecia o imprio.
  Terminada a prdica, recolhera-se ao seu camarote.
Descalando as botas, desabotoou a braguilha, despiu-se, e fez
subir at ao topo do copo cristalino uma dose de conhaque
francs. Era a hora de visualizar no horizonte a sua reforma:
repartir a sua virilidade entre as ndegas da esposa e a racha
da amante com paritria concupiscncia.
  Foi nesse momento que na ombreira da porta do aposento fez a
sua apario o seu imediato, maricas designado pelo Ministrio
das Relaes Exteriores; Relaes Posteriores, segundo a
penetrante metfora com que a imprensa troava dos decadentes
nobres nulos em poltica internacional, que com pedanteria
legal disparavam ofensas ao mundo que a armada e o exrcito
tinham de regularizar depois com balas reais.
  - Entra, lindo - grunhiu-lhe sem rodeios.
  Hesitando entre tom-lo como um galanteio ou uma
desconsiderao, o imediato abanou-se com um leno. Numa
viragem prodigiosa transformou o sorriso em rubor e, depois de
engolir uma bocada de saliva, em palidez. A presena das
contundentes bolas do almirante com os seus negros pentelhos
ondulados, tinha-o primeiro seduzido, e depois servilmente
desalentado.
  - Perdo, almirante - disse. - Interrompi o seu merecido
repouso.
  - No se preocupe, estava s a coar os tomates.
  - Se me permite o elogio, almirante, so uns tomates
magnficos.
  - Vindo de si, aprecio o elogio. O que o traz a esta humilde
barraca, imediato?
  O homem tocou o boto do colarinho sem pontas como se
estivesse aberto e quisesse fech-lo para dar mais peso s
suas palavras, e disse num sibilino sussurro:
  - Na sala do telgrafo h uma certa pessoazinha que quer
falar consigo.
  Mollenhauer apreciou o gesto feminino com que o seu
subalterno metia as mos entre as coxas como uma rapariguinha
prestes a urinar-se de emoo.
  - Quem ? - rugiu.

                         164 - 165


  - O Papa, meu almirante.
  - Est doido, reverendo maricas?
  - Juro-o por Deus. Ao telgrafo tenho o Santo Padre.
  Mollenhauer abotoou a braguilha e liquidou de um s trago o
dourado conhaque que havia decidido beber gota a gota, de
ndega a ndega onricas.
  - Se  uma partida, pode ir dizendo adeus ao seu posto e aos
seus tomatinhos.
  -  o Papa, monsieur! Fala o doce Pio X.
  Na sala, o telegrafista observava lvido o seu teclado, de
mos cruzadas e fazendo ranger sem cessar as falanges.
  Perfilou-se diante de Mollenhauer e indicou o seu artefacto
morse.
  - O Papa espera-o, senhor.
  - Diga-Lhe que j estou aqui.
  O oficial ponteou a informao e prontamente recebeu a
resposta.
  - O Papa diz que pede a Deus que o abenoe a si e  sua
tripulao.
  - Diga ao Papa que o abenoo a ele e a todos os seus
paroquianos.
  - O Papa roga-lhe que o desculpe por interferir em assuntos
humanos, mas que no esquea que Jesus foi um Deus que se fez
homem.
  - Diga ao Papa que tire as papas da lngua.
  - Senhor?
  - Diga ao Papa que s espero as suas ordens para poder
servi-lo.
  - Diz o Papa que sabe que o senhor avana sobre Costas de
Malcia em ar de guerra.
  - Diga ao Papa que vejo que a ustria mantm a sua confiana
nele para lhe revelar um segredo de Estado desta envergadura.
Graas a Deus e aos austracos que o apoiaram no conclave de
mil novecentos e trs hoje  ele o Santo Padre e no o seu
rival da altura, o cardeal Rampolla.
  - Diz o Papa que no esquece esse enorme favor que ele nunca
pediu. Diz o Papa que vendo como vo as coisas no  mundo,
desejaria nunca ter sado de Riese, sua terra natal, e ter
sido carteiro como o pai.
  - Diz ao Papa que tem sido um grande Papa e que nesta altura
j  muito tarde para se despapar. Diga ao Papa que esta
ltima  uma piada.
  - Diz o Papa que riu de boa vontade e recorda-lhe que nos
Evangelhos So Mateus diz que se deve dar com alegria porque
Deus ama o dador alegre.
  - Diga ao Papa que diga j o que tem para dizer.
  - Diz o Papa que detenha a sua armada e volte  sua base.
Diz o Papa que os islenhos de Costas de Malcia so bons
catlicos e que no merecem ser vtimas de um massacre.
  - Diga-Lhe que os bons catlicos maliciosos degolaram dez
rapazes meus, excelentes catlicos, como cruis carniceiros
que so.
  - Diz o Papa que no o fizeram com m inteno.
  - Diga ao Papa que ento os meus mortos gozam de excelente
sade.
  - Diz o Papa que o patriotismo leva os rapazes a excessos
que ele por nenhum motivo justifica.
  - Diga ao Papa que  ao imperador que cabe julgar quem 
patriota e quem no .
  - Diz o Papa que ele  um humilde servidor de um nico
imperador, Nosso Senhor Jesus Cristo.
  - Diga ao Papa que desculpe este lugar-comum, mas que a
Csar o que  de Csar.
  - Diz o Papa que ir rezar para que Deus abrande o seu
corao.
  - Diga ao Papa que aprecio muito o seu conselho que no Lhe
pedi.
  - Diz o Papa que compreende a ironia. Diz o Papa que o
senhor talvez pudesse substituir o castigo fsico a infligir
aos maliciosos por alguma aco de carcter simblico. Um
castigo moral.
  - Diga ao Papa se conhece alguma guerra que se tenha ganho
com moral. Nem as Cruzadas.
  - Diz o Papa que sabe que Deus o inspirar.

                         166 - 167


  - Diga-Lhe que foi uma honra...
  Mollenhauer ia a dizer ter ouvido a sua voz, mas ao ver como
o telegrafista teclava o seu sistema morse, ficou calado.
Rodando sobre os calcanhares dedicou um grunhido ao imediato e
de pssimo humor estendeu-se no beliche sem tirar as botas.
Ento bebeu aptico um novo copo de conhaque, e apanhando um
longo capilar que lhe saa pelo nariz foi-o acariciando
enquanto juntava umas impresses soltas.
  Nunca tinha arrancado esse descarado plo porque o
considerava seu assessor em matrias de meditao
transcendente. Conforme estavam a correr as coisas, mais tarde
ou mais cedo as Costas de Malcia acabariam por ser anexadas
pela Itlia, e o que o conservador Papa tentava fazer no fundo
era salvar da morte futuros italianos. Um gesto como o que lhe
propunha, bem publicitado, valeria ouro para a poltica do
Vaticano nas conjunturas vindouras.
  "Uma aco de carcter simblico", disse para consigo.

                              168


                              29.


     Embora ainda no dia anterior Jernimo tivesse desviado do
seu prprio negcio um pacote de lminas de barbear Gillette
Azul e procedido de manh a escanhoar-se minuciosamente, ao
chegar a hora de sair para a igreja, apalpou pensativo os
queixos, verificando que a barba enegrecia outra vez de rijos
plos. Decidiu inaugurar uma nova lmina, apesar de a
publicidade que tinha pendurado emoldurada nO Europeu afirmar
rotunda que uma mesma Gillette havia podado com total
eficincia vinte barbeiros. Os fgaros apareciam de faces
polidas e luminosas qual ampulhetas. Cheio de espuma em frente
do espelho foi tomado por dois sentimentos contraditrios: o
feliz anunciava-Lhe que a sesta havia sido to cabal que nesse
bocado surgiu toda uma agricultura no seu rosto; assim se dava
por cumprido o propsito desse descanso. Como proclamava o seu
pai: cada hora de sesta tira de cima cinco anos. Ter-se
livrado em sessenta minutos de uma dcada no era performance
menor em vsperas de uma noite nupcial.
  Apalpou o queixo duplamente escanhoado, ps o casaco do
fraque, verificou se as ostentosas alianas estavam no bolso
interior, e inseriu na lapela a rosa amarela que esconjuraria
a presena de qualquer mal. De passagem pelo quarto tocou uma
vez mais o requintado balde de prata que mantinha enfiada em
barras de gelo a garrafa de champanhe, e apalpou tambm as
brunidas taas altas venezianas com que faria o brinde que
iria desembocar na luxria do amor.

                              169


A irm aguardava-o  porta da rua e segurou-lhe o chapu alto
enquanto ele procedia a fechar indefinidamente a sua loja.
  - H uma coisa que no me disseste - exclamou Paula sem
olhar para ele enquanto caminhavam para o templo por entre os
curiosos que Jernimo cumprimentava tocando a aba do seu
Stetson.
  - H muita coisa que tu no me disseste - replicou o homem,
sem se dirigir a ela.
  - Depois de todos os casamentos e suadas noites de amor, em
todo o mundo se usa uma lua-de-mel. Desta vez ter lugar?
  - Naturalmente.
  - E pode-se saber com que rumo?
  - Com que rumo? De tombo em tombo at Nova Iorque. Um lugar
um tanto mais hospitaleiro que estes areais.
  - E substancialmente mais povoado e longe da guerra mundial.
  - De que guerra me falas?
  - Da que profetizou o Papa para 1914. Recomendo-te que faas
mais cedo que tarde as tuas malas de crocodilo e saias da
Europa.
  - Oh, no! Tudo o que no  Europa  brbaro.
  - Alegro-me muito com essa frase to aristocrtica. Manda-a
gravar no teu epitfio.
  - Querido, se rebentasse a famosa guerra, a ustria lutaria
ao lado da Alemanha. O imprio estender-se-ia at aos pases
rabes.
  Jernimo sorriu.
  - Mais razo para fugir para o Oeste.
  - E quando pensas voltar?
  - Tenho uma dvida entre dois perodos, irmzinha.
  - Quais?
  - Nunca e jamais.
  Uma ovao saudou Jernimo quando atravessou a praa. Nas
suas costas acumulavam-se os mais impulsivos e impertinentes
que queriam estar nas primeiras filas do templo durante a
troca das alianas e, sobretudo, ver o beijo nupcial.

                              170



Tal como as faanhas desportivas dos seus atletas o povo
malicioso sentia agora que a boda de Alia Emar lhes pertencia.
  Havia algo de mgico nas grandes festas que criava, ou
actualizava, esta sensao de estarem todos unidos. Os rapazes
da emboscada, vestidos com calas pardas e camisas brancas,
pareciam intuir em altssimo grau este efeito. Ao princpio
andaram a namorar o bar aureolados pela cumplicidade e rancor
que d a morte, mais vidos de esquecer o sangue do que de
aceitar a glria com que os adornavam os sorrisos das
raparigas, mas quando viram aparecer Reino Coppeta, de pescoo
esticado de orgulho, de ponto em branco, o cabelo domado por
uma feroz brilhantina, e um ar alegre que Lhes sugeria uma
fuga ao massacre iminente, os improvisados guerreiros correram
a baldear-se nas suas casas, raparam as tenebrosas barbas com
as navalhas dos avs e, assim bonitos, aceitaram o convite de
Antonio e Magdalena para ocupar o stio de privilgio na porta
da igreja. Este gesto corts dos sogros assegurava-lhes uma
modesta e silenciosa glria mais uma tctica aprovao dos
seus actos.
  De repente Jernimo deteve a lenta marcha, tirou o chapu, e
limpou com a manga do fraque o sbito suor frio que Lhe feriu
a fronte. Os dez anos ganhos com a sesta pareciam diluir-se
naquele lquido salgado que rolou at  sua boca. Mesmo nesse
preciso e fatal momento, o velho Torrentes soltou toda a luz
do seu dispendioso invento para banhar a praa de um
efervescente nitrato de prata que se derramou qual escarcha
por sobre os convidados provocando-lhes primeiro consternao
e a seguir entusiasmo. No meio dos aplausos, Jernimo disse
com voz rouca:
  - Falta Alia Emar.
  A irm manteve-se rgida, e impediu que as suas palavras
apresentassem a mnima inteno.
  - E falta Esteban Coppeta.
  Mas a fingida neutralidade da irm no conteve a dor do
homem. Com a mesma mo que enxugava a fronte limpou tambm as
primeiras lgrimas.
  - O que fizeste, merda?

                              171


  - Nada - disse Paula.
  - Que merda fizeste, merda das merdas?
  Magdalena e Antonio separaram-se do grupo e beijaram as
faces do noivo. Sob aquela luz de mrmore j as cmaras tinham
comeado a filmar e Jernimo afugentou os vorazes operadores
de cinema, cobrindo o rosto com o chapu.
  - Perdemos Alia Emar - disse-lhe Antonio pegando-lhe nas
mos.
  Apalpando as ptalas da rosa amarela, Jernimo pretendeu
esconjurar a alucinao que agora o cegava: o traje nupcial da
sua amada boiando no mar azul, os seus seios mordidos pelos
caranguejos e os seus imensos olhos devorados pelos corvos
marinhos. Segundo a segundo, disse para consigo mesmo, "a vida
pende entre o engano e o sem-sentido. Mas fora s uma viso",
pensou. No iria deixar que a escurido lhe arrebatasse a sua
noite de felicidade.
  Os operadores deixaram de filmar e o padre ficou atnito ao
abrir a porta do templo e dar por esse silncio recolhido.
Torrentes fitou-o desconcertado e com o queixo o padre deu o
seu assentimento para que baixasse a luz.
  - Alia Emar?
  O silncio aprofundou-se outro grau. Algo de fluido e rpido
modelava de gravidade a atitude de toda a gente. S o mar
cumpria exacto a sua rotina.
  - Alia Emar? - disse novamente o noivo.
  A terra dividiu as suas expectativas entre o cepticismo e a
esperana. Se no houvesse resposta agora, o intercmbio de
olhares seria o augrio de uma lenta desero. Voltariam para
casa sem estridncias nem ralhos. O austraco e eles eram
diferentes, mas duas descargas de dor numa terra pequena
apagaria o diferente afundando a fraternidade. No haveria
manjares, nem turumba, nem champanhe, mas sim a rstica
solido de outro fracasso e o slivovitz artesanal na penumbra
das cozinhas.
  Mas nesse instante, quando a nimo se ajustava s minguadas
expectativas, pareceu acender-se um borro branco no
campanrio. Magdalena - intuio de me, repetiria a lenda -
foi a primeira a descobri-la, e compelidos pelo seu olhar
Jernimo e Antonio discerniram na bruma desse silncio a
presena real da rapariga.
  - Jernimo - disse a jovem, sem erguer a voz.
  Paula tapou os olhos com um leno e baixou a vista para o
cho. S havia trs rvores na praa, e as trs tinham o nome
de Jos Coppeta.
  - Que horror - exclamou. - Esta menina vai suicidar-se.
  O noivo avanou de braos abertos temendo que acontecesse o
pior. A sua irm tinha uma intuio para detectar a desgraa
que lhe servia de contrapeso a todas as suas outras carncias.
  Com a brisa da noite o tule que pendia da touca da noiva
agitava-se no campanrio a ponto de voar e parecia uma
bandeira branca desfraldada entre as estrelas.
  - Estamos  tua espera, pequenita. Estamos aqui todos  tua
espera.
  O noivo abraou os sogros e exibiu-os como uma prova
contundente. Pensara que se a ideia da rapariga fosse saltar e
partir o pescoo diante de toda a gente, os afectos filiais
lho impediriam. Alia Emar era possuidora de um sensvel
corao incapaz de enlutar assim os seus prprios pais.
  - Ol, pap - disse triste, do alto da torre.
  - Ol, pequena.
  - Ol, mam.
  - Ol, meu amor.
  - Est frio aqui em cima.
  - So os nervos, filha.
  - Como um frio que vem de dentro, no ?
  -  o que eu te digo. Os nervos.
  Jernimo ps o chapu alto nas mos de Magdalena, o casaco
do fraque nas de Antonio, e fez um gesto sustendo entre o
polegar e o indicador a rosa amarela.
  - Vou l acima buscar-te - gritou-lhe.
  O padre ampliou o vazio dessa porta que ocultava o segredo
da sua decorao ferica e fez o noivo avanar at  escada de
caracol.


                         172 - 173


A cada degrau, Jernimo temeu o uivo espantoso do suicdio
entre a gente do trio. Ps a flor amarela na boca para se
apoiar nos degraus dianteiros e trepar mais depressa.
  L no alto, viu Alia Emar, de p contra as pedras e a cabea
docemente posta sobre um ombro. Diante dela, de mos a pender
entre os joelhos, ausente, estava Esteban Coppeta.
  "Acontece-me tudo", disse-se Jernimo, sentindo o calafrio
dos cimes nessa fria com que se fechava a artria do seu
corao e na iracunda ereco do seu membro. Na noite da sua
boda, a senhorinha, a reverenda putinha, tinha-se deixado
apanhar at s orelhas por esse marrano que o fitava agora
qual um co rfo que espera o chicote de um verdugo.
  - Vem - disse a Alia Emar estendendo-lhe a mo, brio do que
primeiro definiu por humilhao, depois cinismo e por fim
maturidade.
  A rapariga deixou-se arrastar dcil at ao seu corpo.
Jernimo envolveu-a num abrao e com um beijo penetrou fundo
no seu cabelo at sentir o calor do seu crnio.
  - A sorte mudou - sussurrou-lhe ao ouvido. - Encontrei-te.
  Segurando-a com vigor, veio at ao espao entre os dois
torrees, e atirou a flor amarela para o vcuo.
  - De agora em diante s lidarei com realidades. Modestas e
acessveis. Nenhum feitio poder melhorar a minha sorte.
Tomarei o que a vida decidir dar-me como se a cada minuto
fosse cair morto.
  Antes de empreender a descida deteve-se para fisgar Esteban
tentando que o seu desprezo o afugentasse para sempre. O jovem
s reagiu afastando da testa uma madeixa rebelde e ps logo as
mos entre os joelhos com a inquietante passividade de um
homem em coma. Tanto assim que por um instante, no sem certa
complacncia, Jernimo sups que antes de chegar ao altar para
se vincular atravs das macias alianas de ouro com Alia
Emar, seria o guapo Esteban a quebrar a jugular saltando para
o abismo.
  Nas imediaes do templo fez-se a luz mgica do genial
Torrentes, reacenderam-se as tochas, lavou-se de emergncia a
noiva, esfregou-se com gua-de-colnia as ndoas na cauda do 
traje nupcial, afinou-se o rgo com o preldio da Ave-Maria
de Gounod, distribuiu-se um carto comemorativo com a data da
boda e a efgie de So Roque, abriram-se de par em par as
portas da igreja e antes de mais ningum entraram os noivos e
os seus parentes pela macia passadeira grenat, seguidos de
capites da marinha mercante, dos empregados dO Europeu, dos
portadores das chamas de magnsio para a filmagem, dos doze da
fama (a quem tacitamente a povoao concedeu este novo
privilgio), do sindicato de contrabandistas, e do cnsul da
Hungria em Curica e senhora esposa. Logo a seguir veio o total
dos islenhos com a nica ausncia do telegrafista, que tendo
tirado as suas prprias concluses da mediao entre
Mollenhauer e o Papa, optara por se alistar como fogueiro num
navio de bandeira inglesa que se dirigia para o porto de
Dacar.
  Enquanto avanavam at ao pdio onde se executaria a
cerimnia, os convidados mais prximos ouviram o seguinte
dilogo entre os noivos:
  - Trazes o teu isqueiro de ouro?
  - Tenho-o comigo, sim.
  - Podias emprestar-mo por um segundo?
  - Meu anjo. Em breve ters no teu maravilhoso anular um anel
de ouro que pesar muito mais que este isqueiro.
  - Por favor, Jernimo.
  Tinham chegado junto do padre, e numa manobra discreta que
s o aclito do padre surpreendeu, o noivo ps o artefacto
dentro do cinto de seda e lantejoulas que rodeava a cintura da
sua amada.
  O sermo conteve o desprezo da cidade e louvor da aldeia
invarivel em casamentos, baptizados e enterros, ps nos cus
os simples coraes rurais que mantinham intacta a pureza nas
suas almas, insistiu que Deus tinha escolhido Costas de
Malcia oferecendo-lhe o milagre desse campanrio que
assombrava os mais conotados cientistas (na altura cravou o
olhar no inventor Torrentes), e interpretou esse gesto do
Senhor como uma metfora de que o homem com f pode remover
montanhas. At aqui nada interrompeu o embutido de
lugares-comuns com que o padre condimentava todos os himeneus.

                         174 - 175


  Mas ao chegar ao par concreto que se ajoelhara para receber
a bno do Senhor, acrescentou que este sagrado vnculo era o
coroar de uma longa e subterrnea guerra contra o embuste
pago aliado  xenofobia. Jernimo teve de corar quando o
padre, com pausas calculadas, disse que o Filho de Deus tambm
tinha sido estrangeiro entre os homens, e que foi a sua
especificidade divina que os levou a crucific-lo. Mais doce
foi o martrio do Senhor (Jernimo prevendo a sentena
seguinte apertou o antebrao do padre com uma muda splica
para que no a dissesse) que o de Jernimo Franck, que durante
dez anos, pela simples desgraa de Marta Matarasso em que no
foi visto nem achado, carregou a cruz do celibato.
  - Hoje, o bondoso estrangeiro desposa a mais bela das nossas
filhas. Tal como ela te entregar a tua virtude, ciosamente
protegida por dom Antonio e dona Magdalena, os habitantes de
Costas de Malcia oferecem a Jernimo Franck os seus coraes,
agradecidos por nos ter trazido educao, piedosas ddivas,
msica, cinema, mercadorias, e cosmopolitismo.
  O rgo derramou-se num volume apropriado para a Notre-Dame
e aps uma Ave-Maria cantada em italiano com uma ciciante
pronncia local, o padre pediu a toda a gente que se pusesse
de p, e a seguir a uma pausa, em que o eco da msica ainda
continuava a retumbar pela abbada, chegou ao texto clssico:
  - Jernimo Franck, aceitas por esposa Alia Emar?
  - Imagine-se, padre!
  -  sim,, ento.
  - Sim.
  - Alia Emar, aceitas por marido Jernimo Franck?
  A rapariga fez sinal ao sacerdote para que se inclinasse e
falou-Lhe baixinho ao lbulo da orelha.
  Depois levantou-se sem que nada do seu vesturio lhe
travasse a flexibilidade dos msculos, e abrindo as pernas com
o ventre inclinado para diante, agressiva tirou do cinto o
isqueiro de ouro. Da outra ponta da mesma franja extraiu um
papel que  simples vista no se podia identificar, mas que ao
avanar com ele pelo meio do pblico esgrimindo-o como o facho 
e uma maratonista, at da ltima fila se pde ver que era um
cheque.
  Ento alcanou o preciso ponto da plateia onde estava de p
Paula Franck, fez estalar o isqueiro produzindo uma magnfica
chama, e elevou-a at  altura da mo esquerda que segurava o
documento. O cheque comeou a arder e a noiva manteve erguido
o queixo e os olhos ferozes perscrutando a expresso da
cunhada. A mulher soube sem que mediassem maiores precises
que estava a enfrentar a maior vergonha da sua vida e o seu
instinto aconselhou-a a manter-se impvida. Sem alarmes nem
sorrisos viu-a actuar com a distncia de uma esttua marmrea,
como se esse gesto pirmano no lhe dissesse respeito. Esperou
que cassem sobre os ombros e peito da noiva os fragmentos
chamuscados, mostrou coragem retendo a respirao no momento
em que a rapariga Lhe ps o isqueiro junto do nariz, e olhou
para a abbada como que medindo a espessura do silncio
estagnado.
  - Com licena, menina - disse ento.
  Alia Emar retrocedeu um passo no corredor e por esse espao
se filtrou a mulher, altiva e soberba, enchapelada e plida,
rotunda e agra, mas com a cor de um ferido baleado.
Ultrapassou os olhares dos ilhus aguilhoando-lhe a nuca, e
procurou um equilbrio anmico, imaginando-os como um rebanho
de cabras selvagens que derramam as suas caganitas na casa do
Senhor. Obteve coragem dizendo-se que agora ia direita  sua
liberdade altiva como uma guia, desprezando a tenra carne
dessa manada sem tempo nem espao, sem energia para mudar
nada, sem talento para os negcios e sem graa para as letras
das suas canes.

                         176 - 177


                              30.


     O seguinte foi o texto do novo correspondente dA
Repblica em Costas de Malcia no publicado pelo jornal e que
valeu o sobrescrito azul do despedimento ao seu autor. Ambos
os documentos podem ser consultados com maior mincia no Museu
Histrico de Aspalathon, visto que o que se oferece aqui est
ligeiramente escarmentado por razes literrias.


  Gema de noite  hoje uma pantera acaapada. Os seus olhos em
chamas iluminam a aldeia e as flexiveis ancas das raparigas
insinuam a potncia ertica que poderiam desencadear na
intimidade. O cu e o mar juntam-se casados pelo anel
matrimonial da lua, e desta aliana brota a espuma, que como
uma flecha de prata, divide todas as tardes o mar misterioso e
eterno. Fervilha o corao dos islenhos ao ritmo de melodias a
que chamam carambas ou tarambas, composies que tal como as
coplas dos rimances do conta de incidentes mais que
contemporneos, imediatos. Repetiu-se uma tal tarumba das
frutas at fartar no grande salo Lucerna onde o sbio
Torrentes, pitoresca personagem que no se lembra do seu nome
prprio nem da idade, instalou um cintilante fogacho
artifcial que permitiu a dois operadores de cmara franceses
filmar em pormenor os arrebatos da boda.
  Ao princpio os festejos foram discretos, e os islenhos,
conscientes de que estavam a ser registados para a histria,
mostravam-se prudentes e, dentro da sua inegvel rusticidade,
elegantes. Mas  medida que progredia a noite e o lcool,
soltaram-se simultaneamente as lbidos e os corpetes num
espectculo que faria as delcias do luxurioso Freud.
  O par estelar foi constitudo pelo lado masculino por dom
Jernimo Franck, filho do defunto banqueiro Edward Franck de
Salzburgo, e irmo da condessa de Auertal, que teve a
delicadeza, e, como se ver, a m ideia de assistir s
longnquas npcias. A metade feminina foi fornecida por Alia
Emar, uma juvenil nativa de Costas de Malcia que animou com
um espectculo clownesco a sua prpria boda queimando um
cheque na casa de Deus, palhaada que motivou o
descontentamento da condessa de Auertal que embarcou nessa
mesma noite com rumo ao Norte.
  O estranho gesto resulta inslito nestes territrios
abandonados pela mo do Senhor, pois o rendimento per capita
dos maliciosos est calculado em vinte libras esterlinas por
ano, guase um quinto do que recebiam h uma dcada quando a
praga da filoxera ainda no tinha apodrecido as suas videiras.
  Entre os convidados destacou-se um grupo de milicianos,
vestidos com calas cinzentas e camisa branca, que aps uns
litros de slivovitz no hesitaram em contar a este cronista
que foram eles que assassinaram um grupo de soldados
austracos que tinham desembarcado a semana passada nesta ilha
cumprindo uma misso rigorosamente burocrtica para o Servio
de Registo Civil do Imprio. Estes jovens despojaram-se das
suas camisas e depois de danarem vrias carambas com os
narizes enfiados nas ndegas das raparigas, se precipitaram
com os seus pares direitos  praia para se desafogarem
sexualmente, ao que parece alheios a todo o remorso ou pesar.
  Conduzia a orquestra o maestro hngaro Adam Policzer, que h
uns anos alegrava as noites de Viena e Linz dedilhando
virtuoso o seu piano, mas que aps uma delicada operao aos
pulsos, teve de procurar o seu caminho perante pblicos menos
exigentes. Tem de se admitir que embora j no possa
deleitar-nos com sonatas ou concertos de Mozart, o simptico
maestro bate o teclado com um entusiasmo que condiz s mil
maravilhas com a dana local.
   intil dizer que a festa roou os limites da indecncia.
Mulheres de todas as idades provocam os vares pondo-lhes as
mos entre os fundilhos das calas e inclusivamente
beijam-lhes os membros por cima do pano.

                         178 - 179


O padre local, consultado por este cronista, diz que nos
pases mais catlicos de frica ou da Amrica do Sul, se
costuma dar estes dias de expanso, a que se segue uma
fervorosa contrio que afirma a f.
  Veja-se por exemplo o carnaval do Rio, uma cidade do Brasil,
onde h capelas at nos bordis.
  Animado pelo propsito de informar o pblico do continente
sobre a lrica deste confuso territrio, anotei alguns versos
das carimbas mais repetidas nesta noite.
  Morra de cu parado, a velha pituca, a velha pituca.
  Veio a dar ao rabo, atrs da passaruca, atrs da passaruca.
  Quis pagar com um cheque, uma grande treta, uma grande
treta, Queimaram-lhe o tefe-tefe, ficou sem chupeta, ficou sem
chupeta.
  Neste relativamente sbrio texto alude-se  condessa de
Auertal, que, segundo declarou a noiva depois de dar um
hesitante sim ao seu esposo, levou as mos untadas por ela com
uma cifra considervel para no se apresentar ao altar.
Deve-se acrescentar que o afortunado noivo danava e entoava
esta estrofe imitando na perfeio o desafogar dos nativos.
Embora nada tenha alegrado tanto os coraes e os sexos dos
bacantes maliciosos como certa tarumba das Frutas que numa das
suas estrofes assim reza:
  Esta  a tarumba das frutas, das frutas, das frutas. Para
dan-la com a noiva, e com as putas, com as putas.
  E a noiva?
  Sente-se sempre a tentao de descrever as raparigas belas
como seres alados, cisnes ruborosos, especialmente se se
vestem de gala, despojando-se por uma noite das humildes saias
com que trabalham no dia-a-dia. Contudo a palavra anjo
desvirtuaria a carnalidade de Alia Emar, os seus lbios
robustos e hmidos abertos para que lhe roubem um beijo, a
lngua procace que sabe assomar nas pontas dessas fileiras de
dentes direitos e inspiradores, o nariz que lateja com mais
espontaneidade que tcnica como se estivesse a diferenciar
cada aroma em qualquer momento da noite, o cabelo que com
fria autnoma transborda da touca nupcial e dos seus tules de
mistrio para se sacudir com loucura de ninfa durante as
danas, e os punhos que se ansiaria por beijar durante lustros
que atingem os mocetes na queixada quando no meio da dana da
tarumba lhe apertam os seios ou lhe molham com a sua saliva
vincola o arisco nariz.
  A dana em Gema pode ser expresso de alegria ou de fria.
Embora ao incio da noite tudo haja sido jogo de saltimbancos,
pela meia-noite algo de turvo e malvolo andou a contagiar o
salo. Os olhares para a noiva declinaram o seu tom fraternal
e uma sombra de rancor turvou os olhos dos jovens. Do meu
lugar na plataforma sentado aos ps do pianista julguei
adivinhar as suas emoes: uma ira inegocivel em relao ao
austraco que no s provava que era possvel fazer fortuna
nas suas estepes brbaras, mas tambm que tinha utilizado todo
o seu arsenal de cultura, dinheiro, influncias e loquacidade,
para lhes roubar Alia Emar, que desejavam nesse momento com
perigoso frenesi.
  Quando o sbio Torrentes esgotou as foras dos seus pistes
a gs e tudo se reduziu s melanclicas lamparinas e aos
candelabros de velas florentinas, a propcia obscuridade
tornou os mocetes mais temerrios. Com um bom tino,
aproveitando uma oportuna valsa o senhor Franck rodou com a
sua esposa abrindo caminho por todo o salo como se essa
msica feita de compassos regulares e nostalgias fosse um
paliativo, certo blsamo para se despedir das ereces dos
ressentidos. Na vertigem de Strauss sairam para a rua onde se
desenlaaram e se puseram a correr para a felicidade conjugal.
  Foi o momento propcio, porque dez minutos mais tarde o
grupo de jovens patriotas se reuniu no centro do salo e
abraados como uma equipa de basquetebol durante a pausa, se
mantiveram muito tempo assim, estorvando o trnsito dos
danarinos. Ao fim de um bocado desfizeram o peculiar
conclio, foram at ao bar, encheram na ordem que lhes
permitia a sua embriaguez um copinho de slivovitz, e brindaram
por ns mesmos. Puseram civilizadamente os copos numa mesa
prxima, qual tributo floral, e retiraram-se de mos nos
bolsos, tal como meninos traquinas que tivessem sido expulsos
de uma festa de anos.
  A sua sada veio descarregar consideravelmente a atmosfera
belicosa, mas no a minha curiosidade. Fui ter com eles  rua,

                         180 - 181


e apesar de ter seguido at ao cais junto deles, dedicaram-me
uma perfeita indiferena.  beira do mar foram observando por
turnos o horizonte valendo-se de um culo e aps este acto
sentaram-se a meditar, com os ps dentro de gua, alguns
fumando, outros atirando ao mar caroos de azeitona que tinham
guardado nos bolsos das calas. Aproveitando-me do cordial
anonimato que me tributavam, pedi cortesmente que me passassem
o artefacto, e ajustei a focagem s possibilidades da minha
viso.
  A umas trs horas de navegao estava expectante a armada
imperial aguardando que amanhecesse para atacar.
  - O que vo fazer, pequenos? - perguntei-lhes com voz
animosa.
  Um deles aspirou profundamente o canudo do seu charuto, ps
nessa brasa um novo tabaco, e respondeu-me tentando fazer uns
anis de fumo que a brisa dissolveu sem considerao:
  - Acabar esta fumaa e depois cavar as nossas prprias
sepulturas.


          De Costas de Malcia informou para A Repblica
          o seu novo correspondente, Andrs Gmez Stalker.

                              182


                              31.


     Especula-se que poder ter havido pelo menos trs razes
por que A Repblica no publicou a crnica de Gmez Stalker:
literrias, polticas e monstruosas.
  Entre as primeiras a evidente efuso lrica que leva o
jornalista a inferir ao texto uma imagem do tipo o cu e o mar
juntam-se unidos pelo anel nupcial da lua, furnculo capaz de
deitar abaixo a placa dentria de qualquer editor europeu.
  Entre as segundas, a ridicularizao da condessa de Auertal,
directora do Banco de Salzburgo de que A Repblica recebe
anncios publicitrios. Ela poderia desviar o seu subsdio
para o rival Comrcio do Danbio se se tivesse revelado que a
sua passeata a Costas de Malcia no tivera outro propsito
seno emitir um cheque armada em bom pacote, coloquialismo com
que os maliciosos aludem ao volume proeminente que se adivinha
sob a braguilha dos homens.
  Embora a maioria se tenha inclinado a explicar o sobrescrito
azul para o artigo pela monstruosa impreciso de Gmez Stalker
que chama  dana original de Costas de Malcia
indiferentemente caramba ou carumba ou carimba ou tarambas e
at mesmo carambras, nunca acertando que se trata da
mundialmente afamada turumba.
  Mas quem teve tempo de seguir objectivamente a sequncia dos
factos sabe muito bem que na madrugada desse dia no havia
ningum que pudesse enviar o telegrama, e que portanto o
editor dA Repblica porventura nem chegou a ler a estreia de
Gmez Stalker.

                              183


Ofuncionrio do correio tinha desertado e ia rumo a frica e a
sua assistente Alexandra Catalina Bneto propunha-se
reabilitar uma vez mais o seu noivo entre as dunas com o
objectivo de superar a marca de quatro orgasmos. Quando o
homem confessou que o lcool e o esforo amatrio o haviam
consumido, ela disse-Lhe: "Descanse um pouco, queridinho. Que
eu tenho metas, e no prazos."
  Assim, o artigo do correspondente ficou em cima da
secretria ao lado do telgrafo, e s foi notado por Alexandra
Catalina quando j na posse do score desejado foi ao
escritrio sob o fundo de turumbas ao longe para ver se havia
mensagens urgentes. A que trinava na mquina era fervorosa.
Assinava-a o Papa, e dizia: "Negociao fracassada. Deus tenha
piedade das vossas almas." Espevitada pelo terror, meteu na
pasta do despacho a crnica social da boda, e precipitou-se
para o Lucerna a fim de espantar os ltimos danarinos. Ali
ficaram essas esforadas linhas, por muitos anos, at que a
dedicao do conservador Lausic fez que ficassem arquivadas no
Museu Histrico de Aspalathon.
  Embora os factos fossem levemente assincrnicos, mais ou
menos ao mesmo tempo o par danante Alia Emar e Jernimo
desembocou na porta dO Europeu dispostos a libar pelo
champanhe, pelo amor e pela ausncia por tempo indefinido e
infinito de Paula Franck. Na escadaria de pedra que antecedia
a casa, estavam sentados, com a mesma careta velhaca nos
lbios, os irmos Reino e Esteban Coppeta. O segundo, embora
na depravao da noite, mostrava-se nervoso e espiritual, como
se o seu olhar azul o refrescasse permanentemente. Reino, em
contrapartida, deixava ver os estragos da jornada: smen e
vinho nas calas mais um rasgo em forma de ziguezague que
ainda Lhe sangrava na bochecha. A desenfreada alegria de Alia
Emar transformou-se numa paralisia.
  - A festa  noutro stio - disse Jernimo, hostil.
  Reino coou eternamente uma comicho no queixo.
  - Temos de falar consigo.
  - Amanh, homem, amanh.
  O filho mais velho de Coppeta ps-se de p abatido.
  - No haver amanh nem para si nem para ns, senhor.
  - Porqu?
  - Porque voc partir em lua-de-mel e ns estaremos a ver
crescer as margaridas debaixo da terra.
  O austraco sorriu apertando o corpo da esposa e alternando
o olhar entre os dois irmos. Por um momento sentiu a subtil
corrente que ia dos olhos azuis de Esteban ao olhar inquieto
de Alia Emar, e quis quebrar o feitio interpondo-se entre
ambos.
  - Que destino to desigual. Lamento no ter o menor
interesse a esta hora da noite, e no dia do meu casamento, em
que me contem as peripcias que levaro a este duplo
desenlace.
  - Vou contar-Lhas seja como for.
  - Eu abrirei a porta, fecho-a  chave, ponho a minha msica
predilecta e um volume infernal, e desvincular-me-ei do mundo.
  - Mas no da sua conscincia, senhor Franck. Nem da dela.
  Esteban Coppeta levantou-se por sua vez, de olhos humilhados
no cho. Querendo humildemente desaparecer, tirou do bolso do
seu antepassado um culo, e estendeu-o sem palavras ao
austraco. O homem pegou-lhe hesitante, e Reino induziu-o a
olhar para o mar. Havia essa lua larga a que os nativos chamam
rebentona. No meio dessa luz, to bem sucedida como a
artifcial de Torrentes, Jernimo discerniu os barcos da
armada imperial um a um.
  - No  nada comigo - disse, devolvendo o culo a Esteban, e
procurando num dos bolsos a chave de bronze do porto. Em vez
dela, tirou o isqueiro, e o jovem Esteban, numa inspirao,
tirou o cigarro da orelha, aproximou-o do objecto, e quando
irrompeu a chama teve a ousadia de olhar mais uma vez
directamente para os olhos da mulher. Esta fez um esforo para
no Lhe tocar a face. Desviou a mo para a frente e atirou
para trs o cabelo com um gesto altivo.
  - Ouve-os - pediu.

                         184 - 185


  Submisso, Jernimo tirou por sua vez um havano, estendeu
outro a Reino, e os quatro acomodaram-se no degrau da entrada.
Deitaram simultneos uma marulhada de fumo, e o austraco fez
um gesto a Reino para que falasse.
  - H s uma soluo para evitar o massacre - disse, batendo
o charuto inutilmente pois ainda no se tinha produzido cinza.
- Que voc nos empreste o seu barco para chegarmos a Itlia.
  O marido de Alia Emar no pde acreditar no que ouvia.
Lamentou com minucioso rigor ter menosprezado os conselhos da
irm. Tinha cado no meio de facnoras fanticos que como
sanguessugas chupariam uma a uma todas as gotas do seu sangue.
Era a infinita chantagem pela morte de Marta Matarasso? Ou a
sequncia de jogadas tcticas para que nunca se consumassem as
suas npcias com Alia Emar? O desavergonhado mocoso dos olhos
quentes talvez j tivesse experimentado com o seu membro as
rotas desse ventre e neste instante dilatava a sua intimidade
com Alia Emar para retardar a vergonha da sua esposa. Por que
raio de merda decidira viver nesta ilha sem relevncia nem nos
mapas nem na histria que a brutal rotina tinha transformado
em todos os seus horizontes? "Por amor", disse para consigo.
"Por estpido, nscio, molesto e obsessivo amor." No olhou
para os rapazes, a quem a insolncia assentava com graa
natural, mas sim para a sua amada. A rapariga aguentou o olhar
e ao mesmo tempo arrebatou das mos de Esteban o culo e
intimou o marido a que tornasse a pegar-Lhe.
  O homem espiou outra vez a fronteira da noite e teve a
palpitao do amanhecer.
  - Esse barco, amigo, foi o meu sonho durante anos. Quando
nasceu o meu amor por Alia Emar, Bizzarro e os seus homens
inciaram a sua construo. Tudo foi planeado para que no
mesmo dia em que contrassemos matrimnio pudssemos zarpar. 
a altura de escapar deste horizonte e desta histria. Nada nos
prende agora. Respeitem a nossa liberdade.
  Esteban aspirou fundo o seu tabaco, e simulou que um resto
de fumo Lhe irritava a pupila. Limpou os olhos com as palmas
das mos, e voltou a fumar com uma vontade profunda.

                              186


"Desesperada", pensou Jernimo. Num instante soube at ao
ltimo nervo que a subtileza da sua conquista nada podia
perante a aliana natural, perante esse estremecimento que
fazia vibrar o espao de cada vez que Esteban e Alia Emar se
olhavam de soslaio.
  - Tratava-se s de chegar a Itlia, senhor. Depois o seu
barco voltaria.
  - Lamento, meu rapaz. Esta noite o champanhe nupcial e
amanh o pequeno-almoo a bordo.
  Os irmos trocaram um olhar, e Reino mandou Esteban falar. O
jovem cobriu as plpebras, e apertando fortemente o septo
nasal, pretendeu extrair um argumento convincente. Intuiu que
tapando os olhos se anulava, que se expunha a uma fragilidade
mais persuasiva.
  - Tem razo, senhor Franck. Perdoe o incmodo.  s que...
  ...  s que os rapazes j raptaram o seu navio.
  O austraco fez soar as chaves na mo.
  - Jernimo.
  O homem quis no ter ouvido a voz da sua amada. Era tudo to
horrorosamente previsvel. Os factos encadeavam-se de tal
maneira para precipitar no vcuo as suas utopias de vinte anos
que no encontrou outra resposta seno o silncio. Ps-se a
caminho do cais, as costas encurvadas sob o peso da lua, o
brao assertivo da mulher no seu cotovelo.
  Nem sequer alterou a sua atitude quando o insofrvel Reino
Coppeta disse nas suas costas com um tom que acertava em cheio
no melodrama:
  -  um verdadeiro patriota, senhor.
  Por um momento deixou que a pacincia e o azedume se lhe
enconchassem nos lbios e s ento, sem se virar, disse:
  - Sou austraco, cabro. Um miservel traidor  minha
ptria.
  Quando Esteban apontou para o cais, Jernimo reparou que
percorrera o trajecto de nuca abatida no cho. Agora, ao
erguer os olhos, viu que a esquadrilha de patriotas esperava
fumando que eles viessem.
  - Nunca teramos zarpado sem a sua licena, senhor. A
violncia  s para o inimigo. O senhor...

                              187


  - No digas mais nada, Reino Coppeta. Em nome de Deus,
cala-te.
  Ao ver o grupo chegar  doca onde amarrava as cordas do
barco, o capito Bizzarro saltou para terra firme.
  -  uma desgraa, senhor Franck. Estes facnoras querem
sequestrar o nosso barco.
  - E este cheiro a caf?
  - Uma amabilidade da casa. Talvez com caf forte Lhes passe
de cima a bebedeira. Quer dizer, esto armados, patro.
  - Quanto demora at  costa italiana?
  - Quatro, cinco horas.
  - Podes levar todos estes brbaros?
  - Nicht gerne, senhor Franck - disse em alemo temendo que
algum desaforado o ouvisse. - Alm disso amanh  o grande
dia, a frota nupcial cruza o Adritico. Tenho surpresas que o
faro feliz, dom Jernimo. Voc e a sua noiva num oceano de
mel, de doce lua-de-mel. Com msica celestial. O senhor
Torrentes esteve c e fez uma instalao...
  - Agora cale-se.
  - O senhor Torrentes  um homem agradecido.
  Jernimo pediu o culo a Esteban e p-lo nas mos do capito
Bizzarro. Agarrou-Lhe o rosto firmemente por ambas as
bochechas, apontou-Lhe a direco, e segurando-o com fora
pelo pescoo obrigou-o a fixar a baa.
  - O que est a ver, capito?
  - Ondas, ondas e mais ondas.
  - E mais para l?
  - Sombras.
  O capito ajustou a lente de aumento, e de repente o dono dO
Europeu apercebeu-se de que o regulava de modo profissional.
  - Patro,  uma armada de guerra!
  - O que est a fazer ali?
  - Pois... Espera.
  - Espera o qu?
  - Talvez que amanhea. No so fceis estas costas.
  - E qual  a sua opinio?
 -  uma manobra de grande envergadura.
  - De grande envergadura para atacar uma ilha to
insignificante.
  - Qual ilha, chefe?
  - Esta.
  Ento o capito baixou o objecto com lentido sombria.
Debaixo do correcto colarinho branco, a ma-de-ado pulou-lhe
como um animal.
  - Alzare tacchi! Dom Jernimo, creio que se partirmos de
imediato, poderei alcanar a costa italiana em coisa de trs
horas e meia.
  O austraco fez uma reverncia perante o mais velho dos
Coppeta, e este acenou ao seu grupo para que saltassem para o
navio. A seguir, estendendo a mo, exigiu-lhe os rifles.
Depois de recolh-los todos, lanou-os  gua e manteve-se a
fitar com certa melancolia onde tinham desaparecido. Antes de
trepar ao flamante navio, deteve-se comovido diante de
Jernimo e com toda a dignidade anunciou que queria abra-lo.
Mas o homem olhou primeiro para a Lua, depois para a sua
esposa, e finalmente concentrou-se a levantar terra com o
sapato direito. Reino engoliu as suas intenes e saltou para
o convs.
  Esteban perfilou-se perante eles e desnudou histrionicamente
toda a bateria das suas pupilas azuis. Como se Jernimo no
existisse, procurou os olhos de Alia Emar, e insistiu intenso
at que a rapariga, levantando a cabea, de queixo rebelde, o
enfrentou.
  - Para onde vais, Tebi?
  - Para Itlia. E depois dizem que para o Chile.
  - Onde fica isso?
  - Por a.
  Alia Emar agarrou os antebraos protegendo-se de um frio
inexistente.
  - Vejo que fizeste as pazes com o teu irmo.
  - No. Desprezo-o.
  - Como  que ests com ele?
  Esteban apontou com um gesto para o barco.
  -  a guerra, no?

                         188 - 189


  Com um puxo, Jernimo tirou a gravata de veludo grenat e
desabotoou o colarinho arrancando o boto.
  - Alia Emar - disse -, se queres partir com ele, ainda ests
a tempo.
  A rapariga estendeu a mo, e compulsivamente com o olhar
obrigou Esteban a pegar-lha. Sussurrou-Lhe ao ouvido, e
sacudiu-a sem ternura, com rigor militar. O jovem adivinhou
que as suas cordas vocais estavam afnicas, e no soube outra
estupidez seno bater os taces, inclinar-se, e roar os dedos
da sua amada com os lbios. Depois saltou para o navio e as
ordens de desatracar do italiano cobriram todos os rudos da
noite.
  Jernimo e Alia Emar seguiram sem palavras pelo cais. Do
Lucerna chegava ntido o piano do maestro Policzer tentando
com mesurado sucesso uma valsa de Chopin. A mulher ps uma mo
na nuca do homem e deu-Lhe uma breve massagem enquanto
avanavam a caminho de casa.
  - Explica-me - suplicou ele.
  Alia Emar enrolou voluptuosa a mo direita no seu cabelo
alvoroado de dana e de fria e varreu a base da sua cabea
sentindo a vibrao de cada nervo.
  - Sou a tua mulher.
  - Por agora!
  - Para toda a vida, Jernimo.
  O homem continuou a andar, cptico quanto a estas palavras.
" o trauma dos cinquenta anos", pensou. "J no se 
inocente."
  - Podias ter ido no barco, pequena. Nada to impedia.
  - No - disse Alia Emar, limpando a face com o antebrao.

                              190


                              32.


     s sete da manh, o sol de Costas de Malcia brilhava
desproporcionadamente num cu tisnado. O seu tamanho e
irradiao pareciam concebidos por uma criana. A mesma
inocncia abrangia a aldeia, ainda mais insignificante com as
suas ruas vazias, as garrafas partidas no cais, as partituras
de turumbas no meio das copas das rvores, mais os gatos,
cabras, burros e galinhas disciplinados num silncio
minucioso.
  Mollenhauer mandou retirar primeiro as tbuas corrodas do
cais temendo que uma bomba o expandisse at ao infinito, mas
depois disse para com os seus botes que dessa insignificncia
de terra no podia sair nem um soldado de chumbo, quanto mais
um barrote de madeira. Com a armada imperial a aquecer-lhe as
costas, sentiu-se como o seu colega Gulliver em Lilliput. S
para cumprir o rigoroso cdigo militar, ordenou s suas tropas
que avanassem em leque at aos confins da povoao e
acumulassem na praa com as pernas abertas e os braos no ar
quantos homens encontrassem de idade entre os doze e os cem
anos.
  De repente a sua vista captou a torre da igreja, e deu uma
cotovelada no brao do seu assistente, que franzia o nariz
perante um gato morto a flutuar na espuma.
  - Est a ver o que eu vejo, imediato?
  Orientou-o com o indicador esticado para o templo, e depois
ficou um momento a acariciar o queixo.
  - Vejo um sino, senhor.

                              191


  - Tal como eu. E no h nada que o espante nesse sino?
  - Pois, parece maior que outros sinos.
  - Acha essa apreciao objectiva?
  - Pois sim, capito.
   um sino relativamente grande.
  - Relativamente a qu?
  -  igreja.
  - Imediato, diria que o sino  do mesmo tamanho que a
igreja?
  - De modo nenhum, capito Mollenhauer.
  -  um sino suficientemente grande para me autorizar a
diz-lo.
  Mollenhauer ps o chapu de plumas no dedo indicador e f-lo
girar. Virou-se para os seus barcos e confirmou com satisfao
que todos os seus canhes apontavam para os edifcios
principais. Num minuto de artilharia contnua o covil de
terroristas ficaria abolido da geografia e da histria.
  - E como explica voc que este templo raqutico aguente essa
massa de bronze por cima da cabea?
  O imediato ps um p  frente e o outro na perpendicular,
como uma bailarina que vem saudar o pblico, e dobrando o
brao sobre a sua delgada cintura, disse:
  - Sabe que eu sou o mais herege que pode haver. Mas um sino
to bestialmente grande, s o explico por milagre.
  - Acha que Deus seria to parvo que fosse pr-se a fazer
milagres nestes arrabaldes abandonados pela mo de Deus?
  Descruzando os ps, s para os colocar na mesma figura, mas
desta vez o esquerdo  frente do direito, o assistente coou
demoradamente a orelha, ao replicar:
  - Seno, porque  que o Santo Padre teria tanto interesse
nesta terra to merdosa que at tentou deter a armada?
  Os soldados comearam a despejar no centro da praa o fruto
da caada: dois midos de onze e treze anos, um bbedo de uns
trinta, que no conseguiram despertar, e sete velhos entre os
oitenta e os noventa. Todos, salvo o moceto brio, no
pareciam achar dificuldade em manter os braos no ar e as
pernas separadas. O capito avanou decidido para um dos
velhos e levantou-lhe o queixo com um polegar.
  - O teu nome, velho?
  - Torrentes, senhor.
  - Profisso?
  - Difcil de dizer. Amador de electricidade.
  - Cientista?
  - Oh, no, capito. Desonraria a palavra se ma aplicasse.
  - Desde quando vive nesta terra?
  - Desde anteontem, senhor.
  - De modo que  turista?
  - Justamente, senhor. Turista.
  - E o que lhe pareceria se o fuzilssemos agora mesmo por
cobarde e impostor?
  Torrentes baixou um brao e coou a calva sem que ningum o
impedisse. Em vista deste frugal sucesso, fez descer o outro
membro e cruzou ambos no peito.
  - Seria muito desagradvel, capito. Sempre sonhei morrer na
minha terra natal.
  - A saber?
  - Logroo, Espanha. Mas a minha nsia cientfica levou-me a
Salzburgo. Em Espanha era muito difcil com a cincia. Com a
teologia, bestial. Mas a cincia e a religio so como o co e
o gato.
  Com um estalido dos dedos, Mollenhauer chamou a ateno do
assistente.
  - Faa-me outra das suas piruetas culturais e conte-me se
sabe alguma coisa de Logroo, imediato.
  O marinheiro ps-se nas pontas dos ps apoiado no viril
ombro do seu chefe e durante dois minutos segredou-lhe
informao num lbulo. Depois Mollenhauer esfregou as mos e
meteu os polegares debaixo da estridente fivela do seu
cinturo militar.
  - Senhor Torrentes, a cidade de Logroo est situada na
confluncia de dois grandes rios. Quer ter a amabilidade de
nome-los?
  O velho alisou a cabea como que ordenando os cabelos que
no tinha. Olhou para o cu, e pde verificar que a sua cabea
estava to vazia de contedos como o espao de nuvens.

                         192 - 193


  - Pois saiba que a geografia no  o meu forte. Os rios s
me interessam como fontes de energia.
  - Seria muito interessante demorar-me numa conversa consigo
sobre esse tema, mas agora s me interessa, bom, s lhe
interessa, os dois rios que confluem em Logroo.
  - Homem, que so dois no tenho nenhuma dvida.
  -  muito suspeito, doutor, que queira morrer numa terra
natal de que no recorda nada.
  - Oh, sim, recordo. Lembro-me de uma coisa. O nome da praa,
pois, j est!
  - Diga-a ento.
  - Praa de Armas de Logroo.
  Mollenhauer olhou para o imediato, que se empinou sobre os
ps alcanando os seus lbios a orelha do chefe; sussurrou-Lhe
algo lento, movendo as sobrancelhas, e sem deixar de fitar os
ps descalos de Torrentes. No fim cruzou os braos numa
atitude matreira.
  - Meu querido ancio. Vou ter de fuzil-lo.
  - Agora mesmo?
  - Exactamente. No alegar depois que no Lhe fizemos um
julgamento justo.
  - Oh, no. Por nenhum motivo. E de que me acusa, senhor?
  - De ter participado no assassnio de onze soldados do
exrcito austro-hngaro.
  - Quando?
  - H uma semana, senhor.
  - Onde?
  - Aqui, nesta ilha.
  - E porque fiz eu tamanha barbaridade, capito?
  - Voc teria de sab-lo.
  - Com a minha m memria! No me lembro dos rios de Logroo,
e como vou lembrar-me voluntariamente de uma coisa to
terrvel, sobretudo se h uma semana eu no estava aqui, mas
s cheguei anteontem com os meus equipamentos elctricos para
iluminar a boda.
  - Acredite que lamento, amigo espanhol, pois sou um grande
admirador de dom Quixote.

                              194


  Com um estalar dos dedos convocou a sua equipa de
fuzileiros, que se colocaram diante do muro mais prximo a uma
distncia de onze metros, formaram-se batendo as botas, e
puseram as espingardas com as culatras no cho  espera de
ordens. O prprio Mollenhauer conduziu fraternalmente
Torrentes at  parede e colocou-o na sombra que a rvore
projectava.
  - Isto  a srio, almirante?
  - Perdoe-me a oportunidade do advrbio, mas isto 
mortalmente srio.
  O inventor observou a forma de tartaruga de uma nuvem que se
deslocava para as colinas, juntou ambas as palmas estendidas e
colocando os polegares debaixo do queixo ps os indicadores
nos lbios.
  - Que estranho! - disse. - Passa-se a santa vida a reflectir
sobre a morte, e quando ela chega  uma banalidade destas.
Concedia-me um ltimo favor?
  - Naturalmente.
  Soltando os dedos entrecruzados, o velho tirou do fundo
bolso das calas cinzentas de riscas pretas uma folha
manuscrita e agitou-a arejando-a. Depois fez uma tentativa de
estir-la sobre a perna com o antebrao, e finalmente
estendeu-a ao militar.
  - Se quisesse ter a amabilidade, almirante, podia fazer
chegar esta carta ao senhor Marconi que reside em Londres?
  - Marconi! O gnio?
  - Oh, sim! Gosta de msica?
  - Apaixonadamente.
  - O que acha da Filarmnica de Salzburgo?
  - Medocre.
  - Alegro-me por coincidir neste aspecto consigo, que  uma
pessoa to importante na minha vida. A verdade  que farto do
ultraje a Mozart que faz a nossa orquestra, pus-me a conceber
um mtodo para ouvir em Salzburgo os concertos da Orquestra
Sinfnica Real de Londres.
  - Um propsito um pouco delirante, senhor.

                              195


  - Exacto. Concebido por mim  um disparate do tamanho de um
burro. Mas semeado na mente de Marconi pode chegar a ser
realidade. Esta carta contm a via hipottica que imagino para
concluir esse invento.
  - Permite-me que a leia em voz alta?
  -  um rascunho, mas como no haver uma verso a limpo,
agradar-me- ouvi-la, a modo de testamento.
  Mollenhauer abanou-se com o chapu e melhorando ainda mais a
sua excelente dico com uma boa postura da caixa torcica,
exps a missiva:


  Querido e admirado maestro. Muito me alegrei com o xito das
suas investigaes que tm a maravilhosa vantagem de no ficar
no domnio do possvel, do futuro, do terico,, mas antes
contribuem para o progresso da humanidade pelo carcter
prtico da sua implementao. Teve a amabilidade de ler as
minhas asneiras e de me animar com a generosidade do gnio
para com o bobo. Consegui de facto uma luz potentssima
seguindo alguns dos seus conselhos, que se poderia usar na
indstria cinematogrfica, pois graas a ela  possvel filmar
com um material mais sensvel aos matizes do set, o que
permitiria uma crescente expressividade nesta arte.
  Lamentavelmente os seus custos so to excessivos que s se
pode chegar a usar o equipamento com a ajuda de um mecenas.
Agora preocupa-me inform-lo de que concebi a transmisso de
ondas acsticas sem cabo fazendo uso de detectores de cristal.
Calculo pelo lento ritmo dos meus desinspirados avanos que a
por 1925 poder ser possvel trazer a msica de Londres 
ustria, visto que se prepara para daqui a um ano a emisso de
uma conversa telefnica entre Washington e o Havai, sem cabos!
Estarei atento ao desenvolvimento destes feitos e imagino que
o senhor avanar anos na realizao da minha utopia. Dizem
que em Itlia h a ideia de nome-lo senador vitalcio.
Felicito-o, desde que a poltica no o afaste da cincia.
  O seu humilde e impertinente admirador, com mltiplas
reverncias, Torrentes.

                              196


  O almirante, pensativo, ps-se a endireitar a carta no
peitiLho do seu uniforme e depois dedicou um compungido olhar
a um co de cenho cado.
  Foi at ao velho e disse-lhe confidencial:
  - A sua carta comoveu-me, homem. D-me um desgosto horrvel
ter de fuzil-lo.
  - Ento no o faa, almirante.
  - O problema  que j anunciei diante de todos estes
soldados e ndios que ia justi-lo. Vo achar-me um gabarola.
  - Oh, no! T-lo-iam por uma pessoa bondosa.
  - Mas o meu imperador mandou-me executar uma aco
horrorosa. Operao Tbua Rasa. Fuzil-lo a si, que 
inteligente, torna-se muito mais valioso do ponto de vista
estratgico do que atirar-me a qualquer destas bestas a quem a
cabea s serve para pr o chapu. Porque sorri, homem?
  Torrentes baixou humildemente a vista e levantou um pouco de
poeira raspando um sapato entre as pedras. Apesar de ocultar
as suas feies, no pde dissimular o sorriso.
  -  estranho, senhor - disse com o ar de um menino
castigado. - Mas ao ver to longe e inocente o seu peloto de
fuzileiros, pela primeira vez compreendo o efeito que
pretendeu Goya quando atirou com os soldados a centmetros da
vtima.
  O militar retrocedeu uns passos, e antes que a voz se Lhe
apagasse, murmurou  sua tropa:
  - Fuzilem-no.

                              197


                              33.


     O iate de Jernimo sob a sensvel conduo do capito
atracou em Pescara pela meia-noite. As autoridades italianas,
deslumbradas acorreram ao cais para aperfeioar o seu espanto.
Era uma jia digna de sultes e o corao latejou-lhes sob as
suas camisas brancas com gales dourados. Mas ao verem
desembarcar uma dzia de rapazolas descompostos pelo lcool e
pelo enjoo, pediram explicaes ao capito.
  - Que carga  esta, almirante?
  O italiano, sentindo-se a salvo no seu terrunho, tapou o
nariz com um leno rendado, e informou:
  - Krukis. Uma dzia de krukis.
  - E de quem  o barco?
  - De um austraco que ficou em Gema a comer a rainha da
beleza. No se preocupe com os rapazes. Passam por Itlia para
arranjarem uns documentos que lhes daro em Rapallo para
poderem embarcar para o Chile.
  Os guardas alfandegrios consideraram arrogantes o grupo de
imigrantes, e com desconfiana o compatriota:
  - No compreendo porque tem de ir a Rapallo se todos os
consulados esto em Roma.  para isso que servem as capitais.
  - No  o caso do Chile.
  - Explique-me, capito.
  - O Chile  um pas pequeno, e no se sente  vontade em
cidades grandes. Londres e Madrid incomodam-no. EscoLheram
Rapallo.
  - Custa a crer. E como chegaro a Rapallo?
  - Pergunte-lhes a eles.
  Reino Coppeta acorreu  chamada do patro do porto.
  - Falas italiano?
  - Uns dez por cento.
  - Como vo chegar a Gnova?
  - Rapallo.
  - A Rapallo. Como vo chegar a Rapallo?
  - Eco. Rapallo, Gnova, Chile.
  O patro dirigiu-se ao comandante.
  - Este rapaz parece falar s uns cinco por cento de
italiano.
  Tal como se espanta uma manada de ovelhas ablicas, os
guardas-fiscais gritaram via, via aos maliciosos, conseguiram
espalh-los com esse gesto pela cidade, e voltaram 
contemplao do iate.
  Depois de deterem os pacficos transeuntes de Pescara, os
imigrantes, movendo os braos como pistes e emitindo um
chucu-chucu-chucu de salivao ferrosa, unida a um talan-talan
de aromticos soluos nupciais, l conseguiram chegar 
estao.
  Na gare, aps uma aula magistral de quarenta e cinco minutos
a cargo do chefe ferrovirio, descobriram o conceito de
transbordo, pois para chegar a Rapallo teriam de mudar de
comboio em quatro pontos geogrficos milimetricamente
impronunciveis. A seguir a essa rdua jornada que todos
entenderam com plena satisfao tentaram pagar a passagem com
dinheiro malicioso, totalmente inconvertvel em liras. Com um
pstumo esforo mmico o bondoso inspector explicou-Lhes os
critrios do trfico monetrio internacional e com uma certa
compaixo soube explicar que o malicioso se cotava no mercado
negro zero a zero, quer dizer, ningum comprava e ningum
vendia. Esta parte da lio no desanimou os heris de Gema,
visto que, como murmuraram entre eles, no tinham percebido
papa.

                         198 - 199


  A seguir a este acto de perplexidade, sob a chefia implcita
de Reino Coppeta o grupo procedeu a ocupar a ltima carruagem
do comboio local rumo a Rimini, onde teriam de sair e na
plataforma oposta apanhar o tranvia para Bolonha, ramal que
dava ligao por sua vez ao rpido para Piacenza, de cujos
carris partiria o expresso para Gnova, e uma vez ali, no
porto, Deus tenha piedade de vocs rapazes, apostilhou o
inspector, porque h cerca de duzentas gares, e  volta de
dois mil eficientes ladres, a quem vocs, carecendo de tudo,
por sorte no tm que temer. E quanto a Rapallo, estava a tiro
de pedra de Gnova.
  O chucu-chucu, o talan-talan, o fumo bu-bu, a sensao de
movimento e de verde, os cavalos nos campos, as torres de
templos e nuvens que pareciam voar juntamente com o comboio,
incendiaram os foragidos. Bastou que um comeasse o estribiLho
da Turumba das Frutas para que o resto se lhe juntasse num
coro estridente que afugentou uma me camponesa e o filho para
a carruagem seguinte. Donos do espao, os jovens, apanhados
entre a nostalgia de terem abandonado os lares e a alegria de
terem a salvo a cabea riram e choraram enquanto vociferavam
sem tino a cano.
  S Reino e Esteban, sentados frente a frente, evitavam olhar
um para o outro prestando ateno  harmoniosa campina.
Esteban, com a testa apoiada no vidro, soprava o seu hlito
contra a janela para esfregar depois a mancha de vapor com
montona insistncia. Quilmetros mais tarde, Reino optou por
cravar-lhe a vista na fronte, incomodando-o a tal ponto que o
irmo teve de Lhe devolver o olhar levantando desafiadoramente
o queixo.
  - O que ?
  - Ests a sofrer, Tebi.
  - Gillette Azul - murmurou incoerente.
  - Tebi?
  -  como se uma navalha me rasgasse as veias. Porque me vim
embora, Reino?
  - Tens de salvar a tua vida.
  - Preferia ter morrido.
  - Hs-de crescer e vais rir-te de tudo isto. Agora tens
estes ridculos vinte anos, a idade com que se anda de verga
tesa  e a mente cheia de fumaas. Simplesmente no soubeste o
que fazer e provavelmente os factos arrastaram-te. Fostes
nobre, Tebi. Respeitaste Jernimo.
  - Fui um nabo, Reino.
  - Isso h-de resolv-lo o tempo. Quem te diz que daqui a um
ms a tua musa no estar a rebolar-se numa cama de bronze
contigo nalgum hotel do Chile?
  - Porque tem de ser o Chile?
  - Porque fica suficientemente longe para que os militares
nos apanhem.
  - Longe quanto?
  - Tem de se atravessar vrios oceanos.
  - No estou assim to seguro de que no Chile no haja
militares.
  - Tens razo.
  - Eu nunca peguei numa arma. O que se fala no Chile?
  - Asneiras, como em toda a parte.
  - Mas em que idioma?
  - Espanhol.
  - No vamos perceber nada, ningum nos dar trabalho.
  -Arranjamos alguma coisa em que no seja preciso o idioma.
  - Varrer o lixo!
  - s jovem e bonito, Tebi. No te faltar uma chilena que te
oferea os seus lenis e a passarinha.
  - S amo Alia Emar.
  - Por agora, porque viveste fechado numa ilha do tamanho de
uma noz. Mas no Chile ters cidades fabulosas. Arranha-cus,
automveis, rdios, mulheres com ligas pretas nas coxas
brancas. Vais enamorar-te de uma actriz com uns bicos dos
seios do porte de uma cereja e uma lngua que te lamber a
orelha como um cachorro. Quando desembarcares, antes sequer de
pensares em Alia Emar j o tens l dentro.
  - Diz-me qualquer coisa em espanhol.
  - La Cruz del Sur. So quatro estrelas que esto sempre 
juntas.
  - Todas as estrelas esto sempre juntas.

                         200 - 201


Mas espalhadas ao acaso, atiradas como os dados na mesa.
  - O que fazem as estrelas todas, Reino?
  - Torrentes disse-me que todas se movem juntas.
  - Para onde?
  - Se todas as estrelas correm para um ponto, chegar um
momento em que tero de chocar contra alguma coisa porque o
espao no pode ser eterno. E a as estrelas todas fazem-se em
merda.
  - Para o espanhol as estrelas nunca chocaro porque o espao
 infinito.
  - Nada  infinito.
  - Ouve, se o espao  redondo tudo d voltas e nunca mais
acaba.
  - Se desenhares um crculo num papel e o percorreres com o
dedo at que a linha termine, quando acabar?
  - Que pergunta mais estpida: nunca.
  - Bom. Assim  o universo.
  - Ento o universo  uma asneira redonda que se move por
puras asneiradas.
  -  uma boa definio.
  Esteban tirou do seu bornal uma ma e mordeu-a
arrancando-lhe metade. O resto p-lo nas mos de Reino, que o
fez desaparecer na boca com pevides e tudo. Enquanto a
mastigava, levantou o dedo e pediu a ateno do irmo.
  - S vamos para o Chile porque l nos deixam entrar.
Dar-nos-o um passaporte e vamos esquecer-nos de tudo.
Precisam de gente como ns, Tebi.
  - O que queres fazer l?
  - Um filme. Vou exibi-lo nos grandes cinemas de Antofagasta,
e depois serei famoso. Fumarei havanos como o austraco.
  A meno de Jernimo mergulhou Esteban numa instantnea
melancolia. Assim, contra o vidro batido pelo sol, o irmo
achou-o subitamente plido. Os olhos azuis encapotaram-se-Lhe
de uma feroz ausncia.
  - Que mais sabes dizer em espanhol? - murmurou  olhando os
fogachos das rvores que cortavam o vento  medida que o
comboio avanava.
  - Nada - disse Reino, abatido.
  - Pois eu sei mais uma coisa, maninho.
  - Gostaria de ouvi-la.
  O jovem humedeceu cerimoniosamente os lbios e depois
suavizou sobre eles as slabas:
  - "Slvame."
  - O que  isso?
  - Disse-mo Alia Emar ao despedir-se.  a primeira coisa que
tens de aprender em espanhol, disse-me.
  - Mas que merda significa?
  - No fao ideia, irmo. Tens de me arranjar um dicionrio.
  Reino bateu nos joelhos e depois arrepelou os cabelos
desesperado.
  - Um dicionrio de espanhol-malicioso em Itlia?
  Esteban engoliu abundante saliva, e olhou para o bafiento
ventilador que pendia inactivo sobre o corredor.
  - Devamos ter trazido Torrentes - disse.
  - Estava a pensar nisso.
  Horas mais tarde o comboio diminuiu a marcha, fez soar a
sereia, e os jovens leram um letreiro que dizia Rimini. Meio
minuto depois parou, e os rapazes maliciosos desceram fnebres
tentando lembrar-se das instrues do chefe de estao.

                         202 - 203


                              34.


     Na alcova nupcial a noite foi lenta e imprecisa. A
trabalhosa intimidade revelou que a histria da ilha tinha
deixado marcas. Alia Emar soube aceitar um beijo de Jernimo,
que estendeu a lngua partindo do ombro nu, trepando pelo
pescoo, e detendo-se na fossa axilar da noiva. Juntamente com
o estremecimento, sobreveio-Lhe uma rigidez que a fez
afastar-se e encher outra taa de champanhe. Depois mitigou a
febre dos seus pmulos contra o vidro gelado da garrafa.
  Teve a sensao de que Marta Matarasso estava ali no quarto
oferecendo-lhe a colcha dilacerada de sangue. Nas difusas
nuvens sobre o mar, projectou a imagem do fumo do cigarro que
fumava Esteban no dia em que veio  loja e a agulha da modista
francesa Lhe fez brotar esse mnimo sangue no seio. Aquele
retrato na sombra eram os rostos de Antonio e Magdalena que
esperavam dela o rendimento de uma fmea eficaz. As sereias
dos navios austracos e os gritos de comando tinham
desabrigado a povoao. S um bulcio de tropas onde antes o
vento raspava as amendoeiras.
  O marido despojou-se dos sapatos de verniz e colocando os
ps no bordo da cama, p-los a respirar, mantendo-se alerta.
Nada devia intervir para ocasionar o fracasso da sua pequena
glria. Uma histria de cinco dcadas tinha-lhe ensinado que
os ritmos afectivos das pessoas nem sempre andam ao compasso
dos nossos impulsos. Havia vinte anos nesse mesmo quarto
Stamos Marinakis pretendeu assumir o papel de uma besta no
cio; soltou o grito que havia no seu corpo, e a amada teve de
conciliar o prazer com a morte. O pairar dessa fatalidade
punha-o cauto, quase cobarde.
  - Quantas garrafas de champanhe temos, Jernimo?
  - Muitssimas. Mas s esta  que est gelada. O que tens,
Alia Emar?
  - Pressgios.
  - Quais?
  A rapariga abriu a janela e agradeceu a brisa fria que lhe
acalmava as orelhas fogosas. Um dos cavalos do marido dormia
amarrado ao palanque de madeira.
  - Tens medo.
  - No. Porque havia de ter?
  - As sereias, os gritos na noite. O que as pessoas falaram
durante tantos anos.
  - Marta Matarasso tinha as veias transparentes. Dizem que
quando bebeu vinho na boda, todos viram o lquido correr-Lhe
pela garganta.
  - Coisas que a gente conta. Quando passa um ano de alguma
coisa, tudo se transforma em lenda. Esta mesma dilao em que
estamos embatucados ser amanh motivo de troa na terra.
  - Lamento.
  - Porque no vens para o p de mim?
  - Estou a beber champanhe.
  Foi at ela e chocaram os copos. A rapariga pegou-lhe na
nuca e f-lo depositar a fronte no seu ombro nu.
  - Amas-me? - perguntou Jernimo, rouco.
  - Sou tua mulher.
  - No era essa a pergunta. - Afastou-se, ferido. - Amo... -
Di-lo de uma vez, por piedade!
  - Amo algo incerto.
  - No compreendo, Alia Emar. Diz um nome!
  - No h nome.
  - Ento ests bbeda.
  - Se agora estou bbeda, estive sempre bbeda.

                         204 - 205


  - Bbeda de qu, parvinha? Se a nica coisa que se bebe na
tua choa  leite de cabra.
  - H uma coisa por que morro e vivo, Jernimo. No tem nome
porque  um mistrio.
  O austraco tirou a garrafa do balde de prata e bebeu pelo
gargalo encharcando o queixo e o peito nu.
  - O teu mistrio. Odeio o teu mistrio porque no entro
nele. Quanto mais no me teria valido ser um desses machos
nscios da tua aldeia que no aspiram seno a jogar a pelota e
beber slivovitz. De que valeu Mozart? Para que servem as
estrelas, pelo divino caralho?
  - So um sinal de qualquer coisa. Guiam os navegantes.
  - Alia Emar, aqui me tens.
  - A confuso  o meu modo de pensar.
  O homem foi at  porta e abriu-a empurrando-a com o ombro.
Levava nas mos a garrafa de champanhe e o copo. Subiu at ao
terrao dO Europeu, ps a vista nas nuvens e bebeu com a
cabea encostada  parede.
  - Que boda de merda! - gritou para que toda a terra o
ouvisse.
  Mas a terra tinha-se esparramado para outras vizinhanas,
dissolvida em praias remotas, afastando-se em barcaas,
revolvendo-se nos recifes e nas montanhas, fugindo sem
qualquer rumo pelos carreiros rurais.
  S Mollenhauer, perfeitamente barbeado a essa hora, de olho
alerta sobre o exilado silncio do povoado, ouviu o grito,
perguntando a si mesmo quem seria o critiqueiro mal agradecido
que menosprezava aquela orgia, cujos fabulosos detritos
empedravam as ruas de copzios, garrafas, bbedos e partituras
de valsas e de turumbas.
  s sete da manh entrou solene no salo dO Europeu e foi dar
com os noivos suspensos no tempo como numa pintura holandesa.
Desprendia-se um nimbo de ausncia e queda angstia desse
silncio e pareceu-Lhe perceber algo de srdido na tela das
sombras nocturnas retirando-se do violento sol.
  Jernimo levantou a vista para Mollenhauer e o seu peloto
de soldados como se eles tambm estivessem fora do mundo. No
lhe fizeram sentido dentro daquela manh em que um meteoro
poderia pulverizar a terra que no o inquietaria sab-lo.
"Tanto melhor", pensou, enquanto os soldados se espalhavam
pelos quartos em busca de mais nativos, suspeitosos de que a
festa teria continuado no tlamo dos cnjuges. Um dia antes
desta derrota, ter-se-ia erguido com um vozeiro gutural e
poria a rolar os militares pelo declive da rua poeirenta pelos
fundilhos das calas. Mas o fracasso nupcial tinha-o posto
numa abulia apta para baldear Mollenhauer com uma dose de
indiferena; voltaram ao salo onde a noiva com todas as suas
galas fazia girar um dedo no bordo da taa de champanhe. Esse
dedo que rodava era uma perfeita analogia com a cilada que
tinha apanhado os noivos. Assim havia passado a noite, no meio
de lgrimas, silncios e injrias que surgiam mordazes e se
retiravam com vergonha antes que a ira os desequilibrasse.
  Mollenhauer bateu as palmas para reclamar ateno. Jernimo
rodou o pescoo para ele e considerou-o aptico desde o chapu
de opereta at s botas lustrosas, passando pela bochecha
escanhoada  lixa, e aquele aroma de gua fria e colnia
barata. Embora o militar no tivesse falado, Jernimo sentiu-o
como um grito estridente nos seus aposentos.
  - Creio que voc e eu temos algo em comum, senhor Franck.
  Apertando a cana do nariz, o dono da casa disse:
  - Duvido. Nunca tive nada em comum com os militares, e
certamente jamais tive nada em comum com os grosseires que
entram numa casa sem se anunciarem.
  - No obstante as suas veladas ironias, cavalheiro, devo
inform-lo de que voc e eu servimos o mesmo imperador.
  - No conheo a palavra servir e no tenho outro imperador
seno a minha prpria vontade de fazer o que quiser e quando
quiser.
  - No quando a nossa ptria est em guerra, senhor Franck.
  - Contra quem?
  - Implicitamente contra vrias naes; explicitamente agora,
contra os maliciosos.

                         206 - 207


  - Que guerra to herica! Uma esquadra que mais parece a
Armada Invencvel para atacar um povo indefeso e pacfico cujo
nico entretenimento  contar quantas ondas por dia atira o
mar sobre a terra.
  Mollenhauer viu um plcido cadeiro a meio metro inserido
numa grata sombra. Teria gostado de se sentar ali, de pr a
conversa num tom de compinchas, de compatriotas, e depois
colocar o seu vistoso chapu entre os joelhos, e pedir
desculpas pela entrada to abrupta dele e dos seus rapazes.
  - Permite-me que me sente?
  - No tenho nada a favor, soldado.
  - Sou capito, senhor!
  - Felicito-o. V-se que a grosseria fez carreira na nossa
ptria.
  Disfarou o seu desconcerto e humilhao fitando cauteloso
Alia Emar, como se dela tambm fosse sair uma surriada. A
rapariga tinha-se despojado da touca nupcial e cheirava um
pacote de caf acabado de abrir. Subtraiu-se ao assdio do
militar indo para o fogo onde ps gua a aquecer e meteu a
infuso em duas chvenas para o preparar  grega. A tropa dos
rapages que voltavam de revistar as dependncias comeou a
apinhar-se em torno do seu chefe.
  - Senhor Franck - soou melodramaticamente grave a voz do
capito -, voc est metido num problema de propores.
  - O que pode voc saber dos meus problemas, homenzinho!
  - Facilitou os meios para que um grupo de maliciosos,
assassinos dos nossos soldados, escapassem para Itlia.
  - Oh, no, capito. Tomaram o meu iate pela violncia e
fugiram.
  - Conduzido pelo seu prprio patro, um timoneiro italiano?
  - Bom, sabe como so os napolitanos. J deve ter vendido o
meu barco em Pescara a um ricao veneziano.
  - Querido compatriota: o que pesa contra si neste preciso
momento  uma acusao de traio  ptria.
  - Soa a texto de pera.
  - Mas o castigo no tem nada de sainete, Franck.
  - Senhor Franck, por favor.
  - Senhor Franck.
  - E qual  o castigo para tal crime?
  - Julgamento sumrio e fuzilamento.
  Jernimo endireitou-se no assento com um bocejo, foi at ao
fogo e deteve oportuno a mo de Alia Emar que pretendia pegar
na asa da chaleira com a mo desprotegida.
  - Ainda no conheces os utenslios da minha cozinha. A gua
ferve nesta chaleira duas vezes mais rpido do que em qualquer
outra, mas a asa aquece tanto como o fundo. Tens de pegar-lhe
sempre com um pano.
  O homem f-lo e deitou gota a gota a gua a ferver nas duas
pequenas chvenas.
  - Um presente do professor Torrentes, sem dvida.
  Mollenhauer voltou a bater as palmas reclamando que lhe
dessem ateno.
  - Conheceu o professor Torrentes?
  - Tenho a grande honra de conhecer o brilhantssimo
Professor Torrentes.
  - Originrio de Logroo.
  - O que  feito dele, homem?
  Mollenhauer pela primeira vez sentiu que voltava a pisar
terra firme. Com a ponta da bota raspou certa comicho na
barriga da outra perna.
  - Morreu, senhor Franck.
  Este avanou para a mesa, ps sobre a toalha a chvena de
caf fumegante, e levantou a colherinha.
  - No pode ser, capito. Ainda esta noite participou
alegremente na minha boda.
  - Agrada-me que volte a chamar-me capito. Recupera certa
formalidade prpria de cavalheiros. Interessa-Lhe ver o
cadver do seu amigo Torrentes?
  - Gostaria mais de v-lo vivo. No brinque com os meus
sentimentos.
  Os soldados evitaram um olhar de cumplicidade com o seu
capito e saram por um momento do quarto.

                         208 - 209


Jernimo avanou para Alia Emar e apertou-lhe a mo com fora.
A chaleira comeou a apitar, e foi o prprio Mollenhauer que
apagou o lume.
  Quatro homens da tropa trouxeram o corpo crivado de balas do
inventor, depositaram-no incomodados sobre o tapete, e
regressaram para junto do chefe, de olhos enfiados nas botas.
Jernimo ajoelhou-se junto do sbio e erguendo-lhe levemente a
cabea trouxe-a at s suas faces e manteve uns instantes os
lbios em contacto com a pele fria do ancio. Depois
afastou-se com suavidade, dirigiu-se at  esposa e disse-lhe
ao ouvido que se retirasse da sala.
  - Acontea o que acontecer quero correr a tua mesma sorte,
Jernimo - sussurrou-Lhe a rapariga.
  O marido afastou-Lhe uma madeixa de cabelos cados sobre a
fronte e ficou um minuto a contemplar essa indita beleza na
sua amada, a ternura do cansao, as marcas daquela insnia,
nutrida de avanos e retrocessos, o labirinto de um amor to
enredado.
  - Vai para o teu quarto, pequena. Isto pode pr-se muito
srio.
  - No te faro nada. Tu s austraco.
  - O problema  justamente esse. A acusao  traio 
ptria.
  Mollenhauer ento  que se sentou, ps o chapu nos joeLhos,
e desviou o rosto de uma linha de sol que lhe caa nas
sobrancelhas reclinando-se para trs nas costas da cadeira.
  - Voc leva-me a uma situao limite, senhor Franck.
Privou-me do objectivo da minha caa pondo o seu iate 
disposio do grupo de assassinos. Fere profundamente o meu
corao de austraco ter de executar um compatriota, porque
acredite que no serei dos que se alegram com a morte de um
patrcio. E por ltimo aumenta o meu desgosto ter de fuzil-lo
justamente nas horas das suas npcias, sem que a sua linda
noiva aparentemente tenha desfrutado dos benefcios do seu
amor.
  - Vai para o teu quarto, Alia Emar. Agora mesmo - apressou-a
Jernimo, passando-Lhe para a mo a chave dos seus aposentos.
  - Quer dizer - chacoteou o capito -, seria uma barbaridade
transformar sem soluo de continuidade a noiva em viva.
  - Peo que tenha respeito pelo meu pas e pelo meu marido,
capito - disse Alia Emar avanando de face altiva.
  - T-lo-ei, minha senhora. Palavra de militar que no
tocaremos no seu marido nem com a ptala de uma dama. Vamos
lev-lo para o nosso barco, oferecemos-lhe um camarote 
altura dos seus luxos, dar-lhe-emos de comer e de beber como a
um emir, e uma vez em Salzburgo o tribunal marcial decidir
sobre o seu destino, sentena essa que lhe ser evidentemente
favorvel graas aos contributos do Banco Franck para os
caudais da ptria.
  - Quanto tempo levar esse processo? - perguntou Alia Emar,
levando a chave de bronze aos dentes e mordendo-a.
  - A burocracia austraca no  mais veloz que a maliciosa.
Num par de anos t-lo- de volta a casa. Voc ter dezanove e
o noivo cinquenta e dois. Eine rosige Zukunft.
  Com um gesto que quebrava a sua moderao indicou aos seus
homens que apresassem Franck e o retivessem pela fora. Um
grupo de cinco soldados apontou os seus fuzis para Alia Emar,
a um s sinal do chefe.
  - Jernimo Franck, a tua vida est praticamente a salvo. Mas
a tua puta maliciosa vai ter de se mostrar generosa com os
meus rapazes.
  - Voc no vai fazer uma coisa dessas, capito - gritou
Jernimo tentando soltar-se da opresso dos soldados.
  - Eu no, patrcio. No gosto de ir com ndias. Mas estes
jovens no tero escrpulos.
  O peloto levou para a rua de terra batida o marido, e um
dos tripulantes deteve com um bofeto na cara a corrida da
rapariga para o seu esposo. Simulou levar a mo  face
atingida, e sem dar tempo ao soldado para se defender
enterrou-lhe a chave de bronze num olho. O moo uivou, e os
seus camaradas lanaram-se sobre Alia Emar rasgando o seu
vestido de noiva.

                         210 - 211


  Jernimo continuou a ouvir os gritos de Alia e as blasfmias
dos soldados at que um silncio cortante o separou da cena.
Agora s ouvia o bater das botas na calada, a respirao
ofegante de Mollenhauer que conduzia o grupo para o cais e o
vazio da aldeia, esse modesto ninho aonde o trouxe um dia o
acaso.
  Naquele lapso to tenso evocou a noite em que Alia Emar viu
girar um disco com selo vermelho no fongrafo e ele se ouviu
dizer em estado de graa "Mozart", tal como se esse
santo-e-senha fosse um abracadabra para compreender a vida na
recta dimenso com que Deus a concebeu. O Criador tinha
concebido o universo deixando aos homens e mulheres do planeta
uma obra inconcluda. Nada nem ningum podia afugentar da sua
mente esta cabal compreenso. "Ns procuramos os fundamentos
das nossas existncias para trs, fixamo-los em princpios, em
eternidades", disse para consigo, com os pmulos a arder em
lgrimas. "Mas no foi isso o que Deus quis, Alia Emar."
  Aspirou profundo o ar que chegava em rajadas vindo do mar.
  - Chegou a reparar no sino da torre da nossa igreja,
capito?
  Mollenhauer cerrou a mo no punho da sua espada, e deu uma
olhadela curta ao templo.
  -  milagroso que se sustenha nessa estrutura.
  -  milagroso - repetiu Jernimo. - Como gostaria que neste
momento o sino tocasse.
  - No tenha iluses. Da terra fugiram todos. At o padre que
fez intervir o Papa.
  - No h quem toque os sinos?
  - Garanto-Lho, senhor Franck.
  - s vezes, sem que ningum puxe a corda, soam quatro
badaladas.
  - Teramos de esperar at s quatro e tenho pressa de voltar
a casa.
  - Oh, no. A cantilena no  assim to lgica. Simplesmente
s vezes sucede. A qualquer hora pode suceder.
  Jernimo deixou que o vento salino Lhe secasse o pranto
sobre as faces. Mollenhauer adoptou um gesto grave e fez um
sinal ao peloto de marinheiros para que afrouxassem a rude
presso com que arrastavam o prisioneiro.
  - Devo-lhe uma explicao, senhor Franck. Quero dizer-Lhe
que tudo isto que aconteceu  um lamentvel encadeamento de
factos dos quais eu sou apenas um...
  ... soldado, Mollenhauer.
  - Um soldado! Ordenaram-me uma aco horripilante, algo que
nunca mais deixasse os maliciosos com vontade de se sublevarem
contra o imprio. Fuzilar os jovens do seu iate teria sido
canja para mim. Mas voc impediu-o, patrcio.
  - Compreendo.
  - O meu dever concebeu o mau bocado para a sua esposa. Ela
no  dos nossos, e o acontecimento, rodeado dos faustos da
cerimnia nupcial, da festa apocalptica, ser mito durante
sculos, ser histria, senhor Franck. Eu sou um soldado, um
soldado. O executante de um acto simblico.
  Chegaram  praia. A areia estava coberta de restos de
plantas profundas e conchas de moluscos arrojadas pelo mar
durante a noite. Estas dificultaram a marcha firme do peloto
para o bote que os levaria ao navio principal. Quando tocaram
a gua a patrulha deteve-se  espera de que o remador se
aproximasse.
  O prisioneiro lambeu as veias arroxeadas e depois levantou
os braos ao vento benfazejo. Ento chegou confidencial junto
do seu verdugo.
  - Patrcio, ser to patriota que me conceda um imenso
desejo?
  - Sim, se estiver na minha mo faz-lo.
  - Est justamente nas suas prprias mos o meu anseio. O seu
revlver, capito.
  - A minha arma de servio?
  - No suspeitar que com ela quero enfrentar toda a sua
Armada Invencvel.
  - Oh, no. Evidentemente que se for essa a sua deciso,
poder t-la. Tome.

                         212 - 213


  - E se pudesse pedir-Lhe um ltimo favor do fundo da minha
alma, deixar-me-ia remar eu sozinho no bote para o seu navio?
  -  uma coisa muito inslita. Mas por outro lado compreendo.
Estes rapazes so todos muito impressionveis.
  - Voc tem um corao de ouro, capito Mollenhauer - disse
Franck subindo para o bote e dando-lhe um empurro at s
guas profundas. Depois entrou nele, ps a arma em cima de uma
corda enrolada, e permaneceu um minuto segurando os remos nos
aros de bombordo e estibordo. Durante esta faina ouviu o
grosso vozeiro do capito que projectando a voz entre as suas
mos  maneira de altifalante, lhe gritou:
  - Lamento que nos tenhamos conhecido nestas circunstncias,
senhor Franck. Se tivssemos tido mais tempo para criarmos
intimidade teria percebido que no sou m pessoa.
  Franck assentiu com um sorriso, e quando ficou a uns poucos
metros da costa atacou os remos com a fria de um galeote
escravo e deixou que as lgrimas Lhe saltassem juntamente com
o suor, agora que no se expunha  vista dos seus verdugos.
Cuspiu para a espuma a saliva amarga que lhe bloqueava a boca,
tirou os sapatos de verniz e disparou com eficcia um tiro no
corao.  

                              214


                              35.


     - Uma vez amaram-me no Chile, e eu no amei - disse a
velha consulesa movendo-se como uma catedral de luto por entre
os mveis desbotados pelo sol. - E outra vez amei em Itlia e
no me amaram. Com que vara se pode medir a minha solido? As
pessoas recordam-me na minha ptria com um vestido campons e
a saia cheia de migas. H anos e anos que no volto l. O que
lhes posso contar do meu pas?  ligeiro, trnsfuga. Uma s
cicatriz delgada racha-o de ponta a ponta. Para qu voltar? No
primeiro dia as pessoas sairiam para a rua a gritar l vai a
divina. No segundo comentariam l vai ela. No terceiro
cuspiriam pelos colmilhos: Ali est outra vez essa veLha de
merda.
  Sentou-se rotunda qual um cardeal e fez rodar os seus olhos
pardos pelo grupo de maliciosos. O olfacto adiantou-Lhe que
no tinham outra roupa e que o nico capital que possuam eram
essas camisas transpiradas nos comboios rurais de Itlia. Mas
deu-lhe a curiosidade de saber o que trariam naqueles bornais.
Fez um gesto a Reino Coppeta para que abrisse a bolsa e
exibisse o seu contedo. Um rolo de cnhamo para pescar, uma
faca enferrujada, outra de bom fio, um retrato de uma mulher
jovem e com o olhar atnito de quem  namorada pela morte, um
par de sapatos novos, talvez uns nmeros demasiado pequenos
para esses ps nus vaporosos de calos.
  - Tenho um questionrio rigoroso antes de vos dar o visto
para a minha ptria. O que procurais nela?

                              215


  - Paz, madonna - disse Rolando, o Comprido. - Paz e um campo
de basquetebol.
  - E o que vos faz pensar que encontrareis paz no Chile?
  - A distncia.
  - H uma maldio que cai sobre todos os homens que querem
paz. Aqui est a comear uma guerra e os militares puseram
pedras na boca das pessoas. J esto mudas. J trazem o buraco
nas lnguas. No meu pobre pas desconhecem meia Europa e toda
a sia, mas opinam sobre elas com um descaramento
inqualificvel.
  - Muito trabalho, madame? - interessou-se Rolando , o
Comprido. - Quer que voltemos noutro dia?
  - Se voltassem noutro dia teria de descer do segundo andar
outra vez e as minhas pernas apodreceriam no trajecto.
  - Sente-se mal, senhora?
  - Sozinha.
  Concentrou-se logo na sua correspondncia oficial, e o grupo
conseguiu discernir que enchia uma folha com esmeradssimos
nmeros a tinta preta. Durante longo tempo abstraiu-se do
conjunto dos emigrantes e somou e diminuiu em voz baixa.
  - Devem-me trs meses de ordenado. A mala diplomtica do meu
governo tem uma frequncia sazonal: Primavera, Outono,
Inverno, e nunca. Never more! Algum me odeia no ministrio.
Talvez o prprio presidente. A quanto est o quilo do tomate?
  - No sabemos, excelncia. O nosso dinheiro no o aceitam em
parte nenhuma.
  - Tendes alguma nota aqui?
  Rolando indicou a Esteban que Lhe passasse dinheiro. A
consulesa observou-o e raspou com uma unha a cara austera de
um general carrancudo.
  - Quem ser este palerma? - perguntou. - Eu havia de me
revolver no tmulo se um dia a minha cara aparecesse numa
nota.
  Sacou de umas moedas grossas e pediu a Rolando, o Comprido,
que fosse ao mercado comprar trs quilos de tomate, duas
alfaces e um bocado de pesto.
  - Meus senhores, ides para o meu pas e portanto devo-vos um
jantar antecipado de desagravo. Enquanto deglutis tubrculos
napolitanos eu prepararei os vossos papis. J se v que
apesar dos doces olhos deste bambino - apontou acusadora para
Esteban - sois uns delinquentes.
  - Somos gente de trabalho, senhora. Honrados.
  - Sim, filho. To honrados como os elegantes espanhis que
fundaram o meu pas. Pegaram nas ndias e encheram o Chile de
enjeitados, mas casaram-se com as senhoritas que mandaram ir
de Madrid. A ltima vez que houve em Espanha um discurso em
minha homenagem, algum disse com orgulho que eu tinha
agradecido aos espanhis por terem entrado em contacto com as
ndias. E quando quis esclarecer os meus ditos, um palerma
qualquer ps-se de p com as bochechas insufladas de vinho e
disse: "O que esta senhora no sabe  que se os espanhis l
pegaram nas ndias foi porque no havia macacas."
  A dama levantou com dificuldade as ndegas, dando-se um
segundo de pausa para ordenar os ossos, e com passada
irregular caminhou para Esteban e ps os olhos pertssimo
daquelas pupilas azuis. Depois apoiou-se num dos ombros dele
ao assalt-la uma vertigem.
  - s muito reservado - disse-lhe. - Mas cheiras que nem um
co de curral. Vai para aquela diviso e espera l por mim. E
quanto a vocs, vo ajudar o dom Quixote a arranjar a salada.
  - Non capisco - disse Esteban Coppeta, fazendo brilhar os
cem por cento do seu italiano.
  Enquanto o grupo se dissolvia no povoado, fitando de lbios
cados os transatlnticos que entravam na baa de Gnova, a
mulher mandou Esteban entrar para a casa de banho e deitou a
correr para a banheira um jorro de gua candente que em pouco
tempo embaciou os vidros e os azulejos.
  O jovem assombrou-se com aquele lquido que parecia sair de
um forno subterrneo.
  Ento a mulher estendeu-Lhe uma bata de tecido espesso e
branco, ps sais sob a espuma que levantaram um jorro opalino,

                         216 - 217


e props-Lhe com sinais muito ilustrativos que se despisse e
entrasse na gua. Esteban corou e conseguiu demorar-se
fingindo interesse no vapor e nas fotos de um monte desrtico
na parede, at que a dama se foi embora do compartimento.
Nesse instante, o jovem despojou-se num segundo da bolsa de
couro do velho Coppeta, que ainda trazia pendurada ao ombro,
da camisa condecorada com odor a labrego, dos sapatos com as
biqueiras de cabedal abertas para permitir a livre expresso
do dedo gordo, e dos slips, que decidiu meter de imediato na
gua para evitar que o rubor Lhe aumentasse a tamanho grau que
a cara se Lhe chamuscasse.
  Tal como foi rpido o acto de desnudar-se, foi lenta a
entrada na banheira. A gua depenadora queimou-Lhe um p, que
ele viu adquirir a intensidade de um caranguejo, e com
prudncia muito maior introduziu o segundo como um alpinista 
procura de apoio numa rocha suspeita.
  Mas quando a consulesa entrou trazendo uma camisa
azul-turquesa na bandeja ele submergiu-se no inferno para
cobrir envergonhado os seus atributos. Fazendo uma concha com
as palmas das mos, a mulher tirou gua da banheira,
derramou-a sobre o cabelo hirsuto do rapaz, e aplicando champ
feito de gema de ovos comeou a esfregar-Lhe a cabea com
suaves vibraes que acabaram por descontra-lo.
  - Tu e eu temos de falar - disse a diplomata -, por isso
mandei os teus rufies todos ao mercado.
  - Non capisco, signora.
  - Tu e eu - prosseguiu ela indiferente - temos um peso
grande que nos angustia. A mim as desgraas velaram-me os
olhos, mal consigo distinguir os objectos entre as sombras.
Mas tu trazes o pranto como uma labareda nos teus olhos. Que
aflio te oprime, rapaz?
  - Signora, veramente, non parlo italiano.
  - Eu falo-te em espanhol, tonto. Assim te falaro no Chile.
  - Chile - sorriu Esteban.
  - Eu...
  - Madonna...?
  - Eu trago mortes s costas. Uma no Chile, outra no Brasil.
  - Chile, senhora.
  - E a solido. Uma morte que cresce cada dia que passa. Uma
planta voraz. Soledad. O inferno inteiro cabe nesta palavra.
  O rapaz desculpou-se da sua perplexidade sorrindo, e ela
tirou gua da banheira e deitou-Lha aos poucos sobre a cabea
com um jarro. A seguir ps-lhe a cabea no bordo da banheira e
indicou-Lhe com as suas mos lentas que se descontrasse.
  - Descansa, Esteban. Foi um prazer conversar contigo. No
discordaste nem de uma s palavra.
  Agora, na quietude desse quarto de uma vivenda antiga que
lhe pareceu pomposo e pleno de luxria, o jovem Coppeta
conseguiu respirar fundo, e por um momento pretendeu resumir
os trechos da sua vida que o tinham trazido at quele
instante. A concluso mais bvia foi a de que estava vivo.
Imediatamente relativizou a sua descoberta com um olhar
consequente para a camisa azul dizendo-se que isso no lhe
importava nada. Talvez a morte tivesse sido mais benigna que
esta falta de Alia Emar que o feria dia e noite sem que
nenhuma estocada fosse a final. Como se tinha produzido este
desenlace? Aos vinte anos a sua vida parecia ter tocado os
limites.
  Ouvia as palavras da dama, Chile, soledad, e um nada total
aperfeioava a sua dor. Claro que era repugnante morrer to
jovem, mas porque se agarrava a este pedao de existncia com
tanta abulia. Devia ter acompanhado Reino e os seus sequazes?
Ou porventura fugir de Costas de Malcia com Alia Emar no
primeiro dia em que a amou? Como tinha deixado que a timidez e
a cobardia amarrassem de tal maneira a sua lngua e os seus
actos? Como tinha chegado a mutilar o fervor por ela
permitindo que se infiltrasse Jernimo na sua vida? Jernimo e
Mozart. E os livros.
  Combinada a temperatura do seu corpo com o lquido que
declinava amavelmente a sua, sentiu que a descontraco e a
fome o punham  beira de um desmaio. Soube que poderia
resistir a essa tentao secando-se nessa toalha de brancura
boreal e depois estudando vaidoso como a seda azul-turquesa da
camisa combinaria com os seus olhos azul-cobalto.

                         218 - 219


No entanto a necessidade de uma trgua submeteu-lhe os
msculos com agressiva promiscuidade. O desmaio levou-lhe todo
o sangue aos ps, e perdeu a conscincia pensando que era bom
no sofrer.
  A consulesa entretanto leu numa pasta do Ministrio das
Relaes Externas que os vistos deviam ser carimbados em
passaportes, e que na falta do dito documento, em condies
excepcionais e com devida fundamentao poderia dar-se um
salvo-conduto provisrio que inclusse pelo menos uma foto do
postulante, a sua impresso digital, e as indicaes bsicas,
a saber, data e local de nascimento, ofcio ou profisso,
caractersticas fsicas especiais, e motivos por que desejava
emigrar para o Chile.
  Disposta a satisfazer o regulamento abriu a pasta etiquetada
Salvo-Condutos e ao encontr-la to vazia qual alforge de
mendigo, redigiu um recado para a prxima mala diplomtica
pedindo um bom arsenal dos referidos documentos, pois em vista
de uma guerra mais iminente que provvel suspeitava j que os
seus oficiosos e esgotantes dias em Rapallo iriam centuplicar
a sua dedicao  ptria pessimamente retribuda e desde h
trs meses nulamente remunerada. Centenas ou milhares de
exilados, fugitivos, ou refugiados, viriam bater  sua porta.
  Ento concentrou a sua ateno numa caixa forrada a vermelho
opaco com a inscrio Passaportes em abundante trao
autoritrio de cor preta.
  O carto continha s um documento, magnificamente
conservado, com o emblema do guemal e o condor sustendo-se
sobre o escudo ptrio. A viso desse smbolo convencional
produziu-lhe uma dbil ternura, e com iniciativa
antiburocrtica imprimiu o seu nome na folha de rosto e
escreveu com traos de tinta azul Passaporte Colectivo,
ignorando que ao faz-lo criava um certificado indito e
inslito no Chile.
  Por esta altura, enfastiada com o tempo consumido pelo
extenuante labor consular, lembrou-se de Esteban, o seu
marinheiro em terra, e sorrindo ao evocar a efusividade de um
poeta espanhol amigo que lhe tinha prescrito um volume com
esse ttulo, foi at  casa de banho resgat-lo com outra
toalha de tecido branco e spera textura. O jovem boiava
inconsciente no meio do vapor. Inventando uma fora que s
concedia aos momentos mais ntimos da sua lrica, a mulher ps
os seus braos debaixo das axilas do jovem, e, especialista
como um salva-vidas de San Remo, puxou-o nu para os azulejos
de cermica ornamentados com ramos de oliveira, e procedeu a
insuflar-Lhe ar, abrindo-lhe tenazmente a boca, ao mesmo tempo
que carregava nos seus pulmes fazendo-lhe fluir jorros de
gua pela boca.
  Quando Esteban saiu da modorra e abriu os olhos com a
viscosidade de um aturdido, abraou a mulher, que o levantou
despido e o levou para o quarto. Na ampla cama de casal os
lenis cheiravam frescos e vegetais, e Esteban reparou na
desadornada figura de um enorme Cristo de madeira quase caindo
da tosca cruz. Quando ela o ps no leito cobrindo-o com uma
colcha elementar o jovem apertou-lhe os pmulos e
aproximou-Lhe os lbios at os tocar com a lngua.
  A senhora consulesa afastou-se levemente e colocando-lhe
dois dedos na tmpora, sussurrou-Lhe:
  - No um amante. Um filho.

                         220 - 221


                              36.


     Nunca tinha compreendido cabalmente a frase de que os
escritores no procuram um assunto, mas antes  o assunto que
os encontra a eles. Foi aqui que ao encontrar-me por uns dias
em Gnova  espera do transatlntico Opera Prima em que
emigrarei para a Amrica farto da situao de despedimento
europeia que no nos permite sequer trabalhar para um msero
jornal de Costas de Malcia sem nos vermos encurralados pelos
insignificantes patres com exigncias de delicadeza,
exactido e estilo que levariam ao silncio o prprio Oscar
Wilde, foi aqui, digo, que um vendedor de amendoins me
recomendou com efervescncia que fustigasse a minha espera do
navio com uma visita a Rapallo para conhecer a Torre Cvica de
1400, uma construo greco-romana, e a Porta das Salinas, um
monumento barroco de 1700. Assim, animado tambm por
imprudentes perdas no Casino de San Remo, dediquei-me a trocar
o vivo tapete da roleta pelas incurses s peas
arquitectnicas nomeadas.
  Mandei um telegrama ao dirio A Lngua de Agram dizendo que
me ausentava de Gnova para seguir em Rapallo as fastidiosas
conversaes polticas das equipas de Sforza e Trumbic que
querem fixar limites com rigor para superar quanto antes os
litgios fronteirios entre Costas de Malcia e a Itlia, e
cujo acordo eventual, talvez daqui a uma dcada, consista em
declarar Fiume um Estado livre no Adritico.
  Como at os reprteres que parem prognsticos hpicos nos
dirios sabem que se vai ter uma temvel guerra e os bocados
fronteirios ficarem destroados qual castelo de cartas aps a
passagem do mistral, no escapar aos meus leitores que
desenhar limites com lpis que se apagaro com botas  uma
ociosidade destinada apenas a manter os excelentes viticos de
Sforza e Trumbic, os negociadores, que na costa do
Mediterrneo no encontram nada que lhes faa mal  sade.
  Pois bem, foi aqui que pelo Pomeriggio, j em Rapallo,
caminho at  Torre Cvica, e me encontrei de repente e de
sopeto com um grupo de esfarrapados e barbferos mocetes,
levitantes que nem basquetebolistas, a quem num segundo
pestanejar identifico com um esquadro de indmitos
anarquistas maliciosos sobre os quais tinha eu escrito uma
animada crnica para um pasquim pernicioso, que no vou
mencionar para no sujar os olhos dos meus leitores, que me
valeu a censura poltica, o no pagamento do ltimo ms, e o
remate da minha correspondncia nas ilhas da regio.
  O alvoroo de jovens vinha precedido por um a quem chamam
Rolando, o Comprido, uma espcie de caricatura de dom Quixote
que no usa os braos para investir contra moinhos e
malandrins mas sim velhacas bolas de basquetebol que as
encesta sem falhar at dez metros de distncia. Com esta
personagem simpatizo muito pois domina o espanhol e todo o seu
repertrio de zs que me fazem lembrar o meu av, um nativo de
Madrid, fabricante desses chourios chamados butifarras; esta
extensa personagem foi contratada por um clube de Sevilha
durante cinco anos e aborreceu-se de encestar perante os
minimos locais, com consecuncias contraditrias: por um lado
a sua equipa saiu minuciosamente campe, temporada a
temporada, e por outro a Associao de Basquetebol sugeriu s
Cortes que se pedisse visto de residncia para os maliciosos
que rompem o natural equilbrio nas competies locais.
Rejeitado este pedido, Rolando, o Comprido, transferiu os seus
zs e as suas bolas de volta para Gema onde se tornou fcil
presa do anarquismo reivindicador de minicausas provincianas e
de grandes utopias universais.
  Agora em Rapallo, o alegre malicioso vinha pelas ruelas
exibindo uns malabarismos com trs tomates do tamanho de
meles, enquanto os seus compinchas carregavam um canastro de
cebolas, uns cartuchos de limes e um ramalhete de alfaces
costeiras que faziam ranger os dentes s de olh-las.

                         222 - 223


Com semelhante carga poder-se-ia preparar uma salada digna de
mandarins, embora os futuros sacerdotes deste rito parecessem
copiados de franceses, doutores em burlas e mendicidades.
Talvez a fome lhes tivesse esculpido aquele rictus de gatos
pingados profissionais, e, em contraste com a sua aparncia,
os tomates pareciam globos em festa de anos.
  Numa terceira ofensiva identifiquei-os definitivamente; eram
o total do bando de sonmbulos que davam s pernas no cais de
Gema vidos por fugirem das tropas de um tal almirante
Mollenhauer que organizou uma sangrenta pera buffa com
violao de uma virgem e canhonadas ao clebre campanrio da
localidade, tudo s para meter nos habitantes the fear of God
como conta numa breve solta o London Time. O relatrio
consuma-o num horrorizado navegador que atracou na aldeia aps
os actos e que teve de arrastar at  capela morturia as
vtimas da vendetta para evitar que os ces lhes abrissem os
ventres com as suas garras.
  O instinto jornalstico disse-me: "Cuidado, Gmez Stalker!"
aqui foi o assunto que veio ter contigo e se o pusilnime Time
de Inglaterra havia erguido o sobrolho perante esta galeria de
pavores clamando por justia extraterritorial para esta
flagrante violao dos direitos humanos, nada de estranho que
se interessasse tambm por uma crnica escrita com a minha
metafrica pluma que contasse dos ps  cabea o destino dos
instigadores do drama.
  Com jbilo autntico abri os braos como se quisesse
abarc-los a todos e gritei-lhes em malicioso:
  - Salve, heris da ptria, belos querubins da liberdade.
  De certeza que ouvir o seu dialecto nestes balnerios to
alheios os excitou, pois aceitaram alegremente as palmadas nas
costas e os cigarros que por eles distribui e acendi com
generosidade de candidato. Depois de fumarem um mao em menos
do que demorou o relgio do castelo  beira-mar a bater as
duas, inquirindo-os eu com alguma agudeza filosfica sobre o
propsito essencial das suas vidas a partir deste momento,
confessaram que havia uma imensa salada no seu futuro prximo,
que colmatava quase todas as suas nsias de sentido.
  Com deliciosa solidariedade perguntaram se eu no
necessitava de um passaporte, pois eles tinham excelentes
contactos para o arranjar, e se, desculpando a diferena de
classe e de aparato, eu porventura no partilharia da salada
que prognosticavam preparar na banheira do Consulado do Chile,
desde que o jovem Esteban Coppeta j tivesse evacuado o
recinto. Disse-lhes que contassem comigo e calei-lhes com
entusiasmo o que acabava de ler no Time.
  Mercadores maliciosos ali estabelecidos desde o tempo em que
o principado de veneza cultivava o Oriente intercambiaram com
o grupo slabas do terrunho natal na feira de queijos de
Rapallo e misturaram-nas com ofertas de fatias de presunto de
Parma (inautntico), tomates, alfaces e limes, contingentes
de escarolas, pepinos, azeitonas pretas, neutras e amargas,
queijo de cabra fresco, dois litros de azeite ultravirgem, um
pacote de gergelim tostado, um utenslio para cortar a cebola
s rodelas em pluma, raminhos de salsa, uma sentenciosa
mostarda vinda de Frana, vinagre totmico da Toscnia, um
saco de lona branca repleto de cenouras ainda providas de rama
e com uma grossura apta para se cortar sem ferir os dedos,
mais orgos, charlotas, o seu qu de rabanetes com o alegre
penacho vermelho elevando-se sobre um arsenal de batatas, e um
barril de fugatas sujas com apetitosas marcas de farinha nas
cascas douradas.
  Os bons mercadores, deduzi, assumiram que os ancestrais
foragidos embarcavam para a Amrica num galeo genovs e
desprenderam-se dessa hortaliada toda para que aos rapazes
no faltasse que comer durante o ms da travessia. O objectivo
dos patriotas era contudo muito mais estico. agradecer com
hortalias  consulesa do Chile os incmodos que tinha em
arranjar-lhes um salvo-conduto para o fim do mundo. Esta frase
no  gratuita, como insinuam os meus crticos, pois para
sondar os seus talentos geogrficos perguntei ao jovem Reino
Coppeta onde imaginava que ficaria esse pas com nome de gato.
Coppeta ergueu o indicador e esticou-o para o horizonte com a
determinao de quem sabe que vai atravess-lo.
  Ao entrar no Consulado, uma modesta mas agradvel casinha
floral de dois pisos, a senhora consulesa no me prestou a
menor ateno.

                         224 - 225


Disse-nos em rouco e melanclico italiano que no tinha
lamentavelmente mais que um passaporte disponvel, porque a
outra bolsa com os livretes vermelhos a tinham devorado as
ratazanas durante a sua permanncia em Petrpolis, juntamente
com outros bens que preferia no pormenorizar porque lhe
causava ira de mais. "Muita ira", traduzi para os emigrantes.
  Disse-nos a seguir que num acto consular de prospia
extravagante ia praticar uma soluo heterodoxa para que
fssemos dar com os lombados na sua ptria quanto antes.
Dar-nos-ia, traduzi eu, um passaporte mltiplo, com doze
vistos carimbados nas suas pginas, situao que provavelmente
acarretaria uma carambolada de problemas: primeiro, a petio
de renncia ao cargo de consulesa ou a sua despromoo a adida
cultural na Blgica; segundo, a falta absoluta de documentos
vlidos no caso de rebentar a guerra e de algum potentado
monrquico ou republicano lhe pedir um salvo-conduto; e
terceiro, a circunstncia algo gregria de o grupo em si nunca
se poder dissolver, pois desprendidos do tronco (a foto
colectiva) as frutas apodreceriam num anonimato ilegal.
  "vocs de hoje em diante so mais ou menos doze",
determinou, "como os apstolos na Santa Ceia, como uma equipa
de futebol." Eu no tive coragem de lhe precisar o erro,
apoiado nesse carinhoso mais ou menos, com que nos entregava
um extenso e enredado cordo umbilical.
  Quando disse, citando Dumas, "todos por um e um por todos",
deu-se conta de que o meu vesturio, os meus modos, a minha
cultura, a minha ironia, a minha sntese, no condiziam de
modo nenhum com aqueles saloios abandonados pela mo de Deus,
e com um pestanejar dos seus olhos verde pardos, pareceu
compartilhar do meu sorriso, pensando provavelmente que era um
infiltrado do governo regional que os meteria a todos na
gaiola aps a ltima ceia. Tirou uns rigorosos sapates de
meio salto, ps os ps em cima de uma mesinha rococ, fez ar
para as pernas agitando um leque de varetas finssimas com o
desenho de uma maja engasgada de cravos nas orelhas e na boca,
e pediu aos compagni que procedessem a besuntar a salada a
piacere.
  Foi este o minuto em que os passares debandaram pela casa
em busca de ferramentas, servio, utenslios, e Rolando, o
Comprido foi dar com Esteban Coppeta no leito nico e
principal com uma ereco a meio do lenol e um termmetro
igualmente erguido a meio da boca, que marcava uns
confortveis trinta e oito graus.
  Deitou as batatas numa caldeira com casca e tudo e depois de
remolhar os vegetais frescos, mergulhou-os promiscuamente na
banheira, e ali mesmo, para evitar que se perdesse a
espontaneidade dos seus sucos, os espetou, cortou e
condimentou, com finssimo garbo.
  Procurando uma maneira de corresponder a tanta generosidade,
acorri  lojeca da esquina e mandei o taberneiro encher-me
dois barris de vinho rstico da regio, que segundo os
cientistas serve s mil maravilhas para conservar insectos em
tubos de laboratrio  falta de outro elemento. Trouxe-os com
a ajuda de Rolando, o Comprido, que confessou uma opressiva
sede que a gua potvel da consulesa no matava. J na taberna
no regatemos um chianti a preo de usurrio para aclarar
garganta e ideias, e juntmos-lhe um par de filosofas e
lembranas, com o esprito de iniciar uma amizade. O comprido
efebo no tinha outro horizonte para alm da pega da sua mala,
e supunha que semelhante dote o ajudaria tambm em sadas de
outra arte.
  Quando voltmos ao Consulado, o prprio Esteban Coppeta
repartia pores da hortalia com uma tenaz do tamanho de uma
forquilha camponesa e um colhero artesanal do sculo xv que
ainda trazia pendurado do cabo o preo em libras esterlinas. A
primeira tinha-a tirado do mvel da cozinha, o segundo de uma
vitrina de trofus. A mulher no parecia alterar-se com tanto
alvoroo, e j cuando corriam duas rodadas de tinto e uma de
salada, pediu ao punhado de flibusteiros alguma cantiga em
terrunho, para amenizar o sero com folclore. Muito temi que a
inocente barbrie das minhas personagens os levasse 
Carambamba das Frutas, mas j instalados na dignidade da
senhora consulesa, suavizaram-se com um melanclico texto do
poeta Nazar, cujo estribilho dizia:


Sobe, sobe, poeta Nazar
 tua torre de pedra.

                         226 - 227


Junta as palavras
como o pastor as ovelhas.
Nem uma queixa saia dos teus lbios
de ancio doce e sbio.


  A diplomata mastigou um sumarento tomate que encheu a sua
tez escura de um rouge estranhamente sexual, e, levantando-se
com a lentido de um bocejo, pegou num pano bordado que cobria
a escrivaninha de manhio, elevou-o no ar como uma generala que
se rende, e anunciou com uma voz profunda, quase de fumadora,
que retribuiria a arte dos seus maliciosos com uma dana e
canto nacional que apodou como cueca. Apesar de o sumo da
regio j me deixar os joelhos imprecisos e o pulso alegre,
peguei no meu livrinho de anotaes e tomei nota fontica do
seu canto. A dama emitiu-o com uma toada algo cansada, como se
estivesse dizendo adeus a algum com o pano que agitava na
mo, enquanto rodava pela sala, num mnimo crculo.
  O texto dizia:


Se no horto me roubassem a vida,
o teu jasmim,
eu a terra inteira seria
pra que nascesses em mim.
Anda ladra morte,
no tens sorte.


  Ao calar-se a mulher, o grupo de maliciosos, e eu mesmo,
ficmos absortos a olhar para o tecto, como se dessa nvoa
madre fosse cair um anjo que se encarregasse do nosso
problemtico destino. Eu tambm senti uma irmandade vincola
com estes rapazes que tinham matado por uma repentina
combusto libertria que os chamou a defender o seu terrunho.
Era paradoxalmente essa mesma luta que agora os atirava para
fora do seu modesto reino.
  - Quantos so? - perguntou a consulesa abrindo o passaporte.
  - Comigo doze, minha senhora.
  - Ento venham todos at  praa, e cuidado para que nenhum
se perca pelo caminho.
  Eram cinco da tarde em Rapallo e os turistas alemes e
suecos desciam dos seus hotis para o balnerio trazendo
guarda-sis com motivos sofisticados para se distinguirem das
lonas s riscas bicolores que povoavam a praia. Nenhum dos
membros desses plidos grupos pde deixar de se virar quando
viu semelhante locomotiva de homens desgrenhados, barbudos num
dia qual ermites num lustro, limpando as ndoas de maionese
com as mangas de camisas outrora brancas, e conduzidos para a
Torre Cvica por uma dama de preto que, qual um serafim, dava
aos braos tentando explicar a esse bando de homens com pouco
passado e incerto futuro a bela magnitude da paisagem que os
rodeava.
  Na praa, a consulesa fez posar todos sob o neutro espao da
muralha e pediu ao fotgrafo de caixote e canudo que se
pusesse ao trabalho, no importando desta vez tanto a sua
arte, mas que coubessem os doze no formato das suas pelculas.
  - Foto familiar custa o dobro, senhora.
  - Mas no  foto familiar.  foto de passaporte.
  - Passapor, de doze pessoas?
  - Doze, omenico.
  - No quer pr-se tambm? Fao-lho pelo mesmo preo.
  Detenho-me neste pormenor, pois uma vez que os maliciosos
posaram enfaticamente perante a lente sob esse sol de fritada,
travei conversao com o artista e fiz-lhe uma oferta pelo
negativo. vendeu-mo pelo dobro do fotograma depois de banh-lo
abundantemente nos seus lquidos secretos, revolv-lo na gua
santa da revelao e agit-lo qual elevador de tambores para o
secar nesse espao escaldante, sem brisa nem para arrastar um
bilhete de elctrico.
  Pus o retrato no meu livrinho de apontamentos com a vaga
intuio de que um dia me serviria para alguma coisa,
consciente no entanto de que estes modelos annimos no davam
nem para uma nota  margem do Grande Livro do Senhor. 
excepo da consulesa, que com o seu olhar de guia, a sua
energia imprevista e improvisadora, a sua linguagem fustigada
pela ironia, e certa tristeza que lhe vinha de uma viuvez de
menina, me impressionou como uma personagem capaz de
desembarcar na Lua ou de ganhar um Nobel.

                         228 - 229


  Os doze famosos couberam no papel brilhante, incendiados
pelo sol, embora a palidez dos rostos atenuasse de modo basto
cvico as suas barbas descaradas. Eu, como se compreender,
abstive-me de me implicar no retrato.
  No meio do grupo, srios como mortos, esto os dois irmos
Coppeta, segundo o meu prognstico, pela ltima vez em que se
vero juntos num documento, pois um tem o instinto da fera
para atacar por todos os lados, e o outro a mansido da ovelha
que s espera os colmilhos apocalpticos do lobo. Um escritor
destacaria num a sua rusticidade, e no outro a sua ternura.
Dois atributos com os quais imagino que no conquistaro a
Amrica.
  E com isto ponho fim  minha crnica, cujo tpico acabo de
revelar nesta apostilha final.  esta a estirpe, queridos
leitores, dos emigrantes que vo outra vez para o Novo Mundo.
Nos seus al forges no levam nada, que no seja a sua pobreza
e porventura um pronturio. No entanto, faro um bom vinho se
na terra se der a videira, um bom azeite se nas rvores
brotarem as azeitonas, so altos se no os humilharem, e at
cheiram bem, se os meterem numa tina de gua fervente que os
esfole.


          Para A Lngua por Andrs Gmez Stalker,
          correspondente em trnsito.

                              230


                              37.


     Paula Franck organizou o funeral do irmo com a eficcia
de uma governanta inglesa. Ningum soube que tinha chorado. O
corpo foi trazido para Salzburgo por uma empresa frigorfica
que o recolheu directamente do navio do almirante em Curica.
Este meteu-o num contentor, e pormenorizou no rtulo para a
alfndega Defunto Rico. Mollenhauer recebeu dois trofus, um
pela faanha de ter limpado o Sul do imprio de sediciosos
terroristas, consistindo na fita Princesa Amlia em memria da
infanta falecida em tenra idade, e um cheque de Madame Franck,
gesto simblico de retribuio pela ternura e valentia
expostas no resgate do meu pobre irmozinho s hostes inimigas
e  famlia de Alia Emar com as suas desbocadas pretenses.
  O Europeu foi submetido a um leilo que considerava dois
grandes itens.
  O prprio local, nico na sua espcie nessas atrabilirias
ilhas e ponto crucial no destino dos barcos que iam para a
Grcia ou para o oriente para descarregarem ou intercambiarem
mercadorias fugindo aos impostos, a que se podia dar o uso de
armazm, hotel de turismo de duas estrelas, salo de encontros
(frase com que o advogado da senhora Franck sugeriu a
possibilidade de ser um bordel no ultramar), estabelecimento
penal para reclusos polticos ou comuns que j atulhavam os
crceres de Agram, e at, se o imprio quisesse reedificar
moralmente a ilha, escola pblica para que os maliciosos dessa
ilhota e imediaes se formassem na grande cultura imperial.

                              231


  Na rubrica dois, tudo o que continha o imvel, incluindo
desde aparelhos piscatrios, resmas de tecido, estantes,
alimentos de conserva, catres e sofs, vitualhas
internacionais, artigos de higiene, peas sobresselentes de
grandes maquinarias, e at o balde de prata onde se pusera a
gelar o ltimo champanhe.
  A acta do casamento foi extrada sem violncia nem
testemunhas da municipalidade, de modo que se algum dia a
prostituda menina Alia Emar acorresse aos tribunais de
Salzburgo ou de Agram a reclamar a sua herana, no teria
papis nem para assoar as narinas. Quanto  nulidade da
cerimnia religiosa, o velho doutor Gesner esperou que o padre
reaparecesse na aldeia vindo das grutas no meio dos recifes
onde havia capeado o tufo Mollenhauer, e procedeu a rezar
longamente diante do altar, com tal convico que o prprio
sacerdote comovido pela f desse ancio de nariz aquilino e
culos de inquisidor, Lhe trouxe um almofado da sacristia
sobre o qual pudesse repousar os seus artrticos joelhos.
  O advogado agradeceu-Lhe estendendo-lhe um cheque destinado
s obras de reparao do campanrio equivalente ao oramento
de dez anos de soldo para que se procedesse a limpar com um
trapo e esfregar a ndoa de vinho que tinha vulnerado o bronze
milagroso durante as celebraes desse suposto casamento, que
graas a Deus no chegou a ter lugar, como o demonstra a
inexistncia no livro de capitulaes matrimoniais na cmara,
e o facto apercebido por toda a populao do templo durante a
cerimnia de que a noiva se negou rotundamente a dar o sim
quando Vossa Reverncia, santo padre, Lho ofereceu, e em vez
disso, como  de tradio na sua famlia de bruxas, hereges e
sulfurosas rameiras, havia abandonado o altar, para se dirigir
ao centro do templo queimando a acta do matrimnio e tentando
um embate pirmano maior que reduzisse a cinzas este templo,
glorioso pelo campanrio do equilbrio impossvel.
  Deus o abenoe por ter suspendido a cerimnia nupcial sem se
ter consumado o casamento diante dos olhos de Nosso  Senhor.
So Pedro receb-lo-, padre, ditoso de que tenha expulsado os
maliciosos do templo, obrigando-os a consumar os seus ritos
pagos nos cenrios da natureza bestial onde mulheres e homens
se deixam copular por animais e onde a prpria noiva, num acto
de soberba e impudor, decide entregar-se na prpria noite da
boda a qualquer bbedo que lhe aparea  frente. Este abuso
levou o pobre Jernimo Franck, ingnuo servo de Deus, branda
criatura que semeou doura e colheu fel, aos abismos do
suicdio, condenando o seu corpo ao inferno e a sua alma ao
limbo. Ajude-me, padre, a rezar por ele, por Jernimo Franck,
para que nada nem ningum o incomode, para que o seu fantasma
no ronde nas proximidades deste templo. Rezemos de modo que
as nossas splicas Lhe devolvam a mansido da sua alma, e se
prepare, limpo de concupiscncia, para entrar noutra
eternidade, nos jardins do Senhor.
  O padre Pregel engoliu o que tinha nas narinas e um arsenal
de lgrimas elevou-lhe a ma-de-ado, sobressalto que no
conseguiu passar despercebido ao olhar oblquo de Gesner que
perscrutava o efeito das suas palavras no tremor das falanges
do religioso. Entendeu atenuar o sofrimento do sacerdote
batendo-lhe com ternura no dorso da mo e reorientar, de
passagem, a posio do cheque de maneira que o padre
saboreasse a sua magnitude.
  Mas o padre, em vez de se concentrar nesses gestos, avanou
at ao altar com a autoridade que Lhe concedia o ser dono da
casa. Manteve-se de p diante de Cristo, e viu na sua imagem a
agonia da me dos irmos Coppeta quando essa fera do cancro
Lhe roa os ossos, quebrando-a de dor, mas deixando intacta a
sua f.
  E ouviu uma vez mais, afinada pela melancolia, a sua prpria
voz prometendo  defunta cuidar dos inquietos mancebos. E na
mesma nebulosa viu Alia Emar no dia da sua comunho: a
arrogante certeza da sua beleza aos sete anos, quando as
outras meninas, remexendo-se entre os catequistas pareciam
apenas o coro de uma prima ballerina.
  E recordou o sbio Torrentes calculando a distncia do
campanrio at ao solo, confirmando-lhe, sorriu,

                         232 - 233


de um ponto de vista relativamente cientfico, que o que
estamos a ver no  possvel. E limpando os olhos na manga da
batina, foi at  imagem de gesso da Virgem Maria com o menino
de bochechas robustas e coroa de rei, e no maior recolhimento,
pediu a ambas as celebridades perdo pela heresia.
  Ento levantou qual um gladiador na sua mo direita o cheque
do doutor Gesner e mantendo-o a essa altura para que o
advogado o tivesse plenamente presente, ps o documento sobre
uma das chamas que subia tnue dos candelabros em homenagem 
Me de Deus, e s o retirou quando a chama j queimava o meio
do papel. Depois fez que o resto se consumisse nos seus dedos
e pareceu-lhe um castigo mnimo imprescindvel que o fogo
ardesse to dolorosamente nas suas unhas e pontas dos dedos.
Depois pisou os restos carbonizados na tijoleira e de queixo
altivo fitando Gesner disse-lhe:
  - Perdoe a falta de originalidade.

                              234


                              38.


     Pouco acima da linha de flutuao, unidos que nem
estampilhas aos tubos que se elevavam das caldeiras, os
maliciosos compreenderam no segundo dia em frente da costa de
Barcelona que a familiaridade com o mar de que se gabavam,
seria apenas o incuo de um romance de terror. Uma coisa 
esbracejar desde os suaves recifes at ao farol, e outra,
segundo dizia o austraco Jernimo, rebentar ondas num mar de
plos no peito, como o Mediterrneo. Devolvido nalguns casos
por via oral, o jantar a bordo no entanto era contundente,
embora de quinta classe; esta tinha a desvantagem de ficar nas
fossas mas a grande virtude da sua vizinhana dos ninhos de
ratazanas: as primeiras alertas para a fuga em caso de
naufrgio.
  Ao pequeno-almoo conversava-se sobre o tema transatlntico,
ao almoo o assunto era a iminente guerra mundial, que sem
dvida a Alemanha ganharia, mas  noite as discusses foram
sobre bordis. Nesta rubrica, turcos e japoneses contaram
faanhas de beberragens, fumos, massagens, lavagens via rectal
com erotizantes, banho de imerso com haxixe,
multipenetraes, cunnilingus com serpentes amestradas, e
cerceaduras de mamilos a sultanas.
  Os simplrios maliciosos, cuja experincia ertica quando
muito consistia num solitrio no meio da espuma do mar
pensando nos seios da mestra Beatriz, foram engolindo as suas
gabarolices com a saliva.

                              235



  Assim as noites foram passando entre devolues, desmaios,
enjoos, ereces, lgrimas e desgostos pela ausncia da
ptria. Mas tambm comearam os sonhos de um Chile frutal,
onde os rios quais doces oceanos criavam parreiras de uvas
colossais, brilhos transparentes de sol e gua que explodiam
de plenitude ao olh-las, e de um Chile mineral coroado com
frteis cavernas mineiras que Lhes permitiriam encher as mos
de p de ouro e untar as narinas e os dentes para luzirem como
deuses fosforescentes num carnaval veneziano.
  S os irmos Coppeta, com o irascvel histrionismo dos seus,
se apartaram da norma socializante. Esteban viu-se retirado
para o frio do convs, inserido num tosco cobertor de feitura
militar, e borrando um caderno que Lhe deixara de herana a
consulesa do Chile. Ela sugerira-Lhe que escrevesse todas as
suas angstias e padeceres, pois s assim conseguiria uma
elasticidade mental que Lhe permitisse recuperar a
transparncia da sua bela alma, estragada pela timidez e
indeciso que o refervia em nsias insatisfeitas. A mulher
fornecera-Lhe tambm os lpis, a borracha de apagar, a
afiadeira, um mata-borro e a lapiseira cujo aparo agudo
costumava enterrar na lngua, causando-Lhe mais buracos e
chagas que ideias geniais.
  Desde a costa da Catalunha o barco vinha provisto de
bacalhau que o cozinheiro galego servia batido com ovos,
depois de remolh-lo em vinagre para Lhe tirar o sal. A gula
abria-se, e a sede no ficava para trs. Ao princpio at os
pores s deitavam gua turva e alguma cerveja morna, mas j 
altura de Gibraltar a irmandade democrtica de todos os que
queriam virar o cu  polvorosa da guerra suavizou as
fronteiras e dinamizou o fluxo de hectolitros de vinho tinto.
Tirando Esteban e Reino, ningum,  meia-noite estival do
navio ibrico, se podia declarar no seu perfeito juzo.
  Sem dvida que a melancolia no era o vcio de Reino
Coppeta. Desde muito cedo na rota atraiu a sua ateno um
robusto jovem com aspecto de domador de cavalos, que construa
na solido de um bar, a salvo do vento, pequenas figuras de um
material moldvel a que dava forma de pugilistas
enfrentando-se num combate. De certo em certo tempo mudava a
posio de um punho, introduzindo no maxilar a garra do 
atacante, e torcendo o pescoo da vtima como se Lhe tivesse
desconjuntado a mandbula.
  O homem punha-se a certa distncia das figuras, desenhava-as
em papel, media-as algumas vezes em cartolina, e em no poucas
ocasies mudou de posio a luz de uma vela para a colocar por
trs das omoplatas dos pugilistas. Ento agitava-os, ou
deslocava-os com milimtrica subtileza, e tirava apontamentos
sobre o efeito que produziam as suas sombras nas paredes.
  Sem saber o objectivo de semelhante exerccio, a
curiosidade, ou a intuio, levou Reino a interessar-se por
cada uma dessas morosas combinaes de golpes, e incapaz de
quebrar a barreira da linguagem com o robusto homem que falava
ingls, s o observou pela noite avanada, quando a propcia
escurido permitia que na parede com gretas de oxidaes as
fantasmagorias dos lutadores ganhassem uma negrura e um peso
parecidos com a realidade. Ao princpio o homem ignorou a
presena de Reino, que o contemplava com a clssica bocarra
aberta de um peixe que mordeu o anzol, mas  medida que
avanavam, as noites e as mars, o sujeito foi-lhe fazendo
comentrios breves, e ojovem malicioso sem compreender
inclinava afirmativo a cabea. At que numa ocasio,
ensombrecidos os lutadores contra o ecr, o homem acenou-lhe
que se pusesse diante deles e movesse os punhos lentamente
como quem puxa as rdeas de um cavalo.
  Esta colaborao ao que parece revelou ao arteso algo de
importncia, porque no dia seguinte ps uma garrafa de usque
na mesa, com dois copos, e convidou Reino a sentar-se junto
dele, enquanto compunha a resistncia e flexibilidade das suas
figuras com borracha, carto, arames e cera. Da sua boca no
saiu porm nenhuma teoria acerca dessas movimentaes
obsessivas, e Reino, menos pela curiosidade do que pelo
monolinguismo, no emitiu nenhuma pergunta sobre o destino
desses jogos.
  O nico dilogo inteligvel entre ambos foi quando por
altura da terceira garrafa, no quarto dia de navegao, o
imenso homem lhe estendeu a mo, sem olhar para ele, dizendo:
  - Willie.

                         236 - 237


  O rapaz malicioso viu essa palma oportuna e confivel, e
pela primeira vez sentiu at  prpria glande que a sua sada
da ptria fazia um esboo de sentido. Pegou na mo com
entusistica energia, e apertou-a dizendo:
  - Reino Coppeta.
  - Glad to meet you, Reino.
  - Glud to meet you, Willie.
  - I haven't realized you speak English so well.
  - Yes.
  - You seem very interested in my work.
  - Yes - acertou o jovem.
  - Why? - perguntou o homenzarro.
  - Yes - replicou Reino.
  Willie perscrutou-o com um ar mais divertido que irnico, e
voltando s suas figuras, aplicou-lhes lume com a agnica
mecha de um ltimo coto de vela para as tornar mais flexveis.
Depois comentou entre dentes:
  - You don't speak a shit of English - no preciso momento em
que a chama se extinguiu.
  - Yes - disse Reino Coppeta tirando do bolso uma nova vela,
branca, cvica e religiosa, porque a tinha roubado da capela
do navio, que ps em cima da mesa com fingida indiferena.
  - Boy, oh, boy - exclamou o gringo acendendo-a. - You're
really something Reino.
  - Yes - disse Reino Coppeta, entendendo pela primeira vez a
cem por cento a lngua de Shakespeare.
  Mais ou menos a meio da travessia do Atlntico, o jovem
malicioso tinha comeado a auxiliar Willie na construo de um
novo repertrio de gladiadores. No se tratava desta vez de
pugilistas, mas sim de uma espcie de animais com
protuberantes barrigas e pele de rptil, a que o
norte-americano chamou dinossauros, seres que habitaram o
planeta h milhes de anos, que foram aniquilados por meio do
p e da escurido que levantou o cometa ao chocar com a Terra,
e cuja presena ainda persiste nas nossas mentes graas ao
inconsciente mtico que implica que todos os seres humanos tm
no fundo de si um abismo com toda a histria da humanidade.
  Justamente viera  Europa para falar sobre tcnica de
animao com os irmos Lumire nos seus laboratrios de
Frana, e acerca da explorao do inconsciente com um "jovem
Jung" - yang yung - soltou morto de riso, que tirava fantasmas
da alma como um pescador sardinhas na poca da desova.
  Convm dizer que desta arenga tcnica e filosfica, Reino
Coppeta s percebeu a ltima metfora, e como  hora do almoo
com efeito serviram peixe frito, chegou  iluso de ser
praticamente bilingue.
  Assim os passatempos favoritos dos irmos Coppeta foram a
assistncia paga com usque na ctedra do doutor Willis
("chame-me OBie" sugeriu a dois dias da costa
norte-americana), e a escrita de um dirio de bordo a cargo de
Esteban, basicamente nutrido por imagens de Alia Emar. Em
todas elas a rapariga aparecia inalcanvel, distante,
obstinada numa tristeza superior, que no animava o rapaz a
abord-la. Esteban relia as suas pginas e no achava outra
razo alm do medo da rejeio para no ter feito dela sua
noiva desde os dias escolares. "Porque a perdi", perguntava-se
retrico, se aquela vez em que tinham rebolado pelo monte e os
joelhos da rapariga sangraram ele tinha lambido e sarado as
feridas com a sua prpria lngua? E depois, quando teve a
inspirao de continuar a beijar-Lhe as coxas at roar os
primeiros plos da sua pbis, no Lhe pusera ela a mo nos
pmulos quentes, dizendo-lhe basta, besta, num tom que,
amplificado agora pelo infinito oceano e pelo tempo perdido,
parecia gritar-lhe morde-ma, saliva-ma, abenoa-ma?
  - Rapaz - proclamou Willis OBie, quando se avistou com um
culo a Esttua da Liberdade, - o futuro do mundo est nos
dinossauros. Se conseguir algum produtor da minha ideia farei
tantos dlares que poderei realizar o meu sonho mais querido:
fabricar um filme com um gorila que trepe por um arranha-cus
de Nova Iorque e que aterrorize Manhattan e o mundo. Tudo
consiste em dar flexibilidade s figuras para que os
diferentes fotogramas no resultem quebrados e se aumente a
iluso de realidade. O resto  questo de propores, de
luzes, de truques. Lots of money in this business, young
Coppeta.

                         238 - 239


  - Many, OBie - repetiu Reino com os olhos cintilantes.
  Um moo ingls a quem tinham permutado uma sentena na
priso de Aberdeen pelo servio nas fossas no navio, fez de
tradutor:
  - OBie quer que trabalhes com ele em Nova Iorque.
Construindo dinossauros.
  - Diz-Lhe que tinha muito gosto em faz-lo.
  - Pergunta se tens passaporte e visto para entrar nos EUA.
  - Passaporte tenho.
  - Posso v-lo?
  Reino sacou da pardia da Santa Ceia e exp-la
endireitando-a com as palmas das mos sobre a mesa de
modelagem. Willis ficou to perplexo com aquela obra de arte
gregria que s foi capaz de abrir o seu garrafo de scotch
esquecendo-se de oferecer um gole ao seu squito, e depois de
engolir um bom trago esfregou os olhos temendo o incio de uma
sequncia de delrios tremebundos.
  - Diz que com esta merda no podes entrar nos EUA. Falta-te
o visto.
  O jovem apontou com um dedo o selo consular.
  - Isso - esclareceu o homem de Aberdeen -  uma licena para
entrares no Chile. Esta noite chegaremos aos Estados Unidos. A
cabea do mundo. O Chile fica l em baixo, no cu do mundo.
  -  o rabo do dinossauro - sorriu Reino.
  - O rabo do dinossauro - riu Willis, passando-lhe uma nota
de dez dlares juntamente com um sonoro beijo na testa.
  O malicioso guardou sem dramatizaes a nota e sentando
compulsivamente OBie junto do arsenal de fantoches,
cartolinas, restos de arame, madeira, aparas e esmaltes, pegou
numa esptula e apontando-a filialmente ao peito do seu tutor,
disse-Lhe:
  - Antes de nos separarmos, tio OBie, conte-me como  o filme
que far com os nossos dinossauros.
  O gringo olhou para a confuso no convs qual um estratego
que alinha as suas tropas dizimadas para uma herica ofensiva
final, e abraou Reino antes de pigarrear.
  -  um filme sobre o elo perdido, the missing link. O heri
ser um bicho pr-histrico que se vai chamar Tefilo
Cabea-de-Marfim. Este chega a um territrio onde habitam dois
perigosos rivais: o Duque e Mandbula-de-Pedra. Os dois vo
tentar conquistar uma dinossaura chamada Araminta
Cara-de-Rocha. A dama manda os dois brutos buscarem comida e
promete que se entregar a quem lhe trouxer a presa mais
suculenta e delicada para a sua ceia. Ests a seguir-me?
  - Yes.
  - Bem. As duas feras tentam caar alguma coisa com os seus
arcos e flechas, mas o nico que encontram  um enorme
passaro pr-histrico que sai do seu ninho e lhes d bicadas
nos calcanhares. E ento aparece Savage Bill, o Elo Perdido,
horroroso de peludo, que  beira do lago trava uma luta com um
brontossurio. Esta maqueta aqui  o brontossurio.
  - Yes.
  - O brontossurio faz em merda Savage Bill e deixa-o morto.
  - Deixa-o para a cagada - acrescentou academicamente Reino,
fazendo estalar um pedao de barro.
  - F-lo em merda. Ento mergulha no fundo do lago. Nesse
instante aparece Tefilo Cabea-de-Marfim, e como v vir os
rivais Duque e Mandbula-de-Pedra pe a sua pata em cima do
corpo de Savage Bill como se o tivesse liquidado. A herona
no pode resistir a tanta valentia, abandona os seus dois
gals, e fica com Tefilo.
  - E mais?
  - Fim.
  - No, fuck?
  - O pblico imagina-o, evidentemente.
  - Big fuck.
  - Dinosaure fuck.
  - Good film.
  - S preciso de um produtor que me passe uns cinco mil
dlares.
  - Quanta massa  isso?
  - Duas mil e quinhentas vezes os dez dedos das tuas mos.


                         240 - 241


  - Many fingers!
  - Quite a lot.
  - Good film. Excellent film.
  Reino olhou com tristeza o brontossurio. F-lo levantar uma
garra e foi-a baixando quadro a quadro, rodando ao mesmo tempo
o pescoo da maqueta, como deveria proceder se fosse o
assistente de OBie num laboratrio.
  - Quanto dura o filme, chefe?
  - Cinco minutos.
  - Pavlovic contou-me que viu num cinema uma pelcula de duas
horas: Quo vadis?
  - Quem  Pavlovic?
  - Um filho da puta.
  - Quando fizer a histria do macaco tambm durar duas
horas.
  O jovem pousou os olhos na garrafa de usque meio vazia e o
norte-americano serviu-lhe uma dose abundante.
  - O que ests pensando, Reino?
  O rapaz provou apenas com a ponta da lngua o lquido,
passeou-o pelos lbios gozando do grato sabor e quentura, e
suspirou:
  - Duas horas. Milho de dlares. Duzentos mil dedos.

                              242


                              39.


Cheguei mesmo a pensar que a distncia
me alterava o corpo, e esvaziaria a alma
que todas as sinetas pelos portos
me afastariam de ti e levavam para longe.


Lentos os dias tenazes e semelhantes
nada deixam pra trs nada pem adiante
o mar de espuma e gua indiferente
molha-me os olhos e no refresca a fronte.


Nas noites de vela caem-me nas pestanas
fantasmas de estrelas luzes da alvorada
os risos do capito na mesa do vinho
o meu presente incerto  meu nico destino.


  Dizem que esta noite chegaremos a Nova Iorque. Contam que o
capito vai fechar-nos no poro. Dar-nos- vassouras para
afugentarmos as ratazanas. Os guardas alfandegrios entraro
no navio com mscaras e regar-nos-o com gasolina para queimar
os piolhos. Dizem que so partidas que prega o capito. Eu a
nica coisa que tenho  dor e este caderno onde acumulo poesia
feita de nada, para o nada, palavras.



  Reino arrebatou as pginas a Esteban e com fria meteu-as
debaixo da enxerga.

                              243


  - No te metas nas minhas coisas.
  - Que mal tem, Tebi? Sou teu irmo.
  - Eras meu irmo. Agora no sou irmo de um assassino.
  - Fizemos histria, pequeno.
  - Tu meteste-nos a todos neste sarilho. Tens mau sangue,
Reino.
  - O que eu fiz feito est. No vamos andar sempre a revolver
no mesmo. Temos um futuro  nossa frente e um passado glorioso
atrs. Daqui a anos os midos lero a nossa vida na escola. Os
dignos herdeiros do velho Coppeta!
  - Comidos pelos piolhos, mordidos pelas ratazanas, a pele em
chaga pela maldita caldeira. Sem noiva, sem mulher, sem
ptria.
  - Ptria, Tebi? Isto  a ptria!
  - Esta merda?
  - Onde tu e eu estivermos estar a ptria. No precisas de
pensar toda a vida que os melhores talharins so os que
cozinhava a avozinha.
  - Vi num mapa onde ficava o Chile.
  - E ento?
  - Longe, Reino. Deve ser um lugar donde no se volta.
  - Dizem que se te agachares na rua e escavares a terra
encontras ouro. Pedaos de ouro grandes como os teus tomates.
Tm um hino ptrio sensacional. Dizem que o Chile  a cpia
feliz do paraso.  todo verde, est cheio de faises e de
aves, os rios nascem por toda a parte, os lagos so
transparentes e as raparigas lindssimas, altas, orgulhosas,
quentes e com boas mamas.
  - Diz isso o hino?
  - Juro-to. Desejo-te sorte no Chile, Tebi.
  - Como  isso?
  - Eu no vou para l, mano. Na verdade, vim despedir-me.
  - Para onde vais?
  - No vou, co. Fico.
  Reino ps-se de p e limpou a terra misturada com xido da
escotilha. L fora no havia seno a noite perfeita do oceano.
  - Reino?
  - Fico em Nova Iorque.
  - No tens passaporte, no tens visto, e ests cheio de
pulgas. No te deixam entrar.
  - D-me um abrao.
  - Mataste um pobre rapaz desarmado!
  - Era um inimigo, idiota. Se no o matares hoje, mata-te ele
amanh.
  - Era um pobre mido gorducho.
  Reino revistou os bolsos das calas e ps tudo em cima do
cobertor cor de caf, aperfeioado com picadas das traas e
rodo pelas ratazanas.
  - No h lua nem ondulao. Vou saltar pela proa
aproveitando o barco estar varado. Entrarei a nadar em Nova
Iorque, maninho.
  - Estamos a uma noite de navegao. Vais rebentar os pulmes
se nadares.
  - Trabalharei com OBie no seu estdio construindo
dinossauros. E quando tivermos dinheiro, faremos uma histria
espantosa. O conto de um gorila que come os arranha-cus de
Nova Iorque. Vamos ganhar um milho de dlares.
  Esteban foi at  porta e ps-lhe a aldraba.
  - Daqui no sais.
  - Safei-me toda a vida sem pai. No preciso de ningum que
cuide de mim.
  - No o fao por ti, imbecil. No te vou deixar saltar pela
mam.
  Reino considerou os seus pertences em cima da mesa e p-los
em dois grupos.  esquerda, a escova de dentes, a chave da
casa em Costas de Malcia, uma gravata de luto, um mao de
notas maliciosas e um sobrescrito que abriu para tirar a
pgina dA Repblica onde Pavlovic narrara a sua faanha. Do
outro lado, colocou uma nota de dez dlares, um corta-penas
com as suas pontas perfeitamente afiadas, um apito de rbitro
de basquetebol, e uma vela.
  - Com esta metade podes ficar tu. Guarda bem o jornal porque
te recordar que s de uma famlia patritica. No s nenhum
piolho annimo.

                         244 - 245


  - Vou atirar o teu pronturio para o lixo.
  - E a escova. Usa-a, esfrega bem os dentes. Cheiras a
enxofre e a girino podre. Fars vomitar as raparigas no Chile.
  - Vo comer-te os tubares, Reino.
  - So guas frias.
  - No aguentars at  costa. Os guardas-marinhas andam por
a com as suas lanchas. Vo meter-te uma bala na nuca.
  - Seja tudo pelo cinema.
  Abriu os braos e chamou-o com todos os seus dedos.
  Sacou de um sorriso que lhe vinha bem de dentro, e o irmo
no pde evitar reviver o rosto da me. Muito Lhe apetecia ir
at junto dele, mas uma coisa muda e teimosa impedia-o.
  - Que loucura te deu pelo cinema?
  -  o negcio do sculo. Dinossauros, gorilas, marcianos. 
a grande oportunidade. Estamos a duas braadas da glria.
  - Estamos?
  - Salta comigo, Tebi! Imagina! Nova Iorque, as raparigas com
trajes de vison, as negras a danar turumbas nos bares, os
comboios a zumbir, as ruas iluminadas numa festa permanente, e
tu e eu juntos: os Coppeta com a verga tesa e menores de vinte
anos! E qual  o preo desta glria toda? Um mergulho!
  - Baixa esses braos, homem: ests ridculo como um
espantalho.
  - Qual espantalho! Morres de vontade mas tens medo.
  - No tenho papis.
  - Fabricamo-los.
  - No sei ingls.
  - Aprendes. Dinheiro  money. Enfiar  fucking. Filme 
movie.
  - A ltima palavra que me disse Alia Emar foi Chile, talvez
algum dia...
  - Algum dia o qu? - gritou Reino desfazendo a pose e
batendo um punho contra a outra mo. - Vai-se meter na tua
cama de diamantes e rubis no Chile? Se a tiveste na ponta da
pia e no Lhe fizeste nada!
 - Por decncia, Reino.  uma palavra que no conheces.
  - Vais apodrecer vertiginosamente, Tebi. Aos vinte e um anos
cair-te-o os dentes e aos trinta ters a espinha curva de
tanto te humilhares. Se eu tivesse os teus olhos seria o rei
do mundo!
  - Alia Emar viu algo no fundo destes olhos. Era uma viagem
que empreenderamos juntos. Um trajecto muito mais enorme que
este. Tudo ia bem at que deitaste tudo a perder com a tua
merda de assassnios e o teu sangue quente.
  Reino ps a navalha no bolso e atou a gravata preta na
testa.
  - Esteban Coppeta, decide-te neste instante: Nova Iorque ou
a merda!
  Teve o sim nos lbios e cobriu-o passando-lhe saliva com a
lngua. Quis bater como os adolescentes a entusiasta palma de
Reino e escapulir-se com ele pelos corredores caldeados do
navio at  proa. Tentou que os nervos o impelissem a dizer as
slabas que estavam maduras entre os seus dentes: "Nova
Iorque". Mas calou-se, obstinado e confuso.
  Com o golpe de uma unha, Reino ergueu a aldraba e
desapareceu pelos corredores e pelos tubos sem se voltar. S
ento Esteban reagiu e foi at  proa. No salo da primeira
classe tocava-se jazz, um guarda viu-o passar indiferente, e
saudou-o bocejando.
  Chegou  proa do navio, justamente quando o irmo atirava
para a frente os braos, flectia os joelhos e se impulsionava
com as pontas dos ps tal como fazia nos recifes na ilha, com
um gancho de ferro entre os dentes para ir caar polvos no
meio das rochas. Ouviu o chapinhar do corpo, e pde ver que o
guarda continuava a bocejar enquanto olhava pelo postigo para
a orquestra vestida com coletes multicores.
  Assomou  amurada, e distinguiu, entre a solene e breve
claridade da espuma no alto mar, o corpo de Reino Coppeta
direito  costa, esbracejando com fora, com ferocidade, com
graa, com determinao, com o corta-penas preso na boca para
o caso de o atacar algum monstro desses que construa nos seus
sonhos, ou para cortar a jugular no caso de Lhe faltar o ar ou
de os guardas-costeiros lhe acertarem com uma bala.

                         246 - 247


                              40.


     Num dia 3 de Junho, o peloto de maliciosos apresentou as
suas credenciais s autoridades martimas do porto de
Antofagasta no Norte do Chile. No os tinham deixado
desembarcar em Buenos Aires, porque o chefe do Servio de
Imigrao no encontrou em nenhum tratado, nem nos
apontamentos das aulas da sua juventude, artigos excepcionais
que permitissem reconhecer um passaporte colectivo como
vlido. Este estava emitido num perfeito espanhol, e de acordo
com o seu catlogo, o carimbo da irm Repblica do Chile,
embora estampado em Itlia, era to legtimo como a impresso
do seu polegar.
  A figura colectiva estava autorizada para uma me que
viajasse com filhos de menor idade, e nenhum daqueles mocetes
de barba e sobrolhos ferozes, com as calas manchadas de
farinha ou de smen, podia passar por uma frtil madonna.
Descendente ele mesmo de italianos, convidou-os para a cerveja
nacional, pediu ao Flaco opinies sobre a eventualidade de
eclodir uma guerra mundial, mandou trazer-lhes uma assadeira
com bifes de chourio estaladios por fora e sumarentos por
dentro, e levou-os de volta ao barco com o sbio conselho de
que o nico pas que aceitaria um passaporte com essas
caractersticas to plurais, s poderia ser o Chile, porque se
tinha ousado emiti-lo, contraa um compromisso de reconhec-lo
no caso de apresentao perante as autoridades locais.
  Aps gelos de navegao, pois os maliciosos mediram o  tempo
em graus de frio patagnico e desfiles de icebergues, o navio
atracou na cidade de Punta Arenas sob tal temporal de neve,
com rajadas de cinquenta ns, que uma pattica manada de
ovelhas, apesar da sua espessa l, tiritava por baixo das
capas de plo.
  Nenhum dos imigrantes quis tirar a mo do bolso para exibir
o passaporte, e enfiados nos cobertores que arrancaram dos
seus leitos, limitaram-se a observar atnitos como os
porturios elevavam os animais com gruas e os metiam no poro
balindo de jbilo por escaparem dessas hostilidades.
  Apesar de entrarem em territrio chileno ningum lhes pediu
documentos, e nenhum tripulante, nem o suboficial, nem sequer
o capito, os obrigou a desalojar o navio. Dois soldados
percorreram o convs sem afs inquisitivos, e quando o capito
Lhes passou uma garrafa de White Horse e um pacote de tabaco,
desceram para o cais dando-se jubilosas palmadas nas costas.
  No trajecto para o Norte melhorou consideravelmente o
rancho. As lentilhas foram matizadas com linguia, o arroz
infiltrado com mariscos, o pur de batatas envergonhado com um
par de ovos fritos, e a sopa de verduras banhadas com um
delicioso peixe difcil de pronunciar que a longo prazo
resultou ser congro. Tambm apareceram machas e amijoas,
moluscos com capciosas conchas minerais, que os maliciosos
lamberam com avidez e a seguir morderam tentando, sem sorte,
parti-las e degluti-las, numa remota homenagem a Stamos
Marinakis. Depois do jantar, embalados pelo Pacfico, alguns
passageiros que se lhes tinham juntado em Punta Arenas
esgrimiram uma viola e maracas, e procederam a cantar, o
primeiro dia com ritmo de valsa, e o segundo com rufares de
turumba, o tema mais melanclico da navegao do mar alto:


Se uma estrela casse do cu
Meus olhos com a sua luz cegaria
E os meus ps solitrios sem guia
Punham-se a caminho do inferno.

                         248 - 249


Mas se numa curva da sorte
Surgisse teu rosto luzeiro,
De inveja morreria a dor,
Nos teus cabelos caa o meu beijo.


A navegar, a navegar,
Tanto faz para onde se v
O Cruzeiro do Sul, Cruzeiro do Sul
Sempre est onde ests tu.


  Quando Rolando, o Comprido marinado em gua fervente foi
surpreendido tentando baixar as ceroulas ao suboficial, os
maliciosos acantonaram-no e fizeram um juramento solene de que
o deixariam sair no prximo porto onde houvesse algo que
remotamente se parecesse com uma mulher.
  Essa baa, num dia 3 de Junho devolvido ao sol, parco de
nuvens, suave de brisa, e longe de olhares, foi a cidade de
Antofagasta. Embora aos maliciosos a aldeia parecesse to
simples como a sua ilha natal, a presena de uma fmea no
atracadouro com seios alvos e cabeleira azeviche, sugeriu-Lhes
que estavam nas ombreiras do paraso. "O Cruzeiro do Sul est
sempre onde ests tu". Saram com as suas mochilas
esfarrapadas, penteados ao aoite da gua salgada,
esmeradamente direitos numa camisa passada por goma, odorosos
a algas e cochayuyos.
  Altivos e inocentes, agruparam-se na mesma figura que
compunha a foto do passaporte, s que em verso melhorada pela
comida, pelos anseios e pelas alvssaras de terem uma terra
que se chamava Antofagasta ou algo do gnero. Nunca mais
podiam dizer essa palavra de montculos e de pedras, de
saponcea saliva que Lhes fazia bater os dentes como
castanholas: Antofagasta foi para noventa por cento deles o
comeo e o final do hieroglfico labirinto: Antofogosto.
  O inspector da alfndega considerou a assinatura sobre o
selo consular, e no obstante a terna lgrima que transbordou
das suas pupilas quando disse disparatadamente "pezinhos de
crianas roxos do frio", increpou o Flaco com um poderoso e
peludo indicador no peito:  "Falta um gajo aqui, compadre.
Este com cara de gatuno."
  - Caiu  gua, capito.
  - E comeu-o um tubaro com tomates e tudo?
  - Com amgdalas e tudo, capito.
  - Isso, michica! Gosto que me digam capito.
  Estampou um grosso carimbo na pgina com a delirante
assinatura da senhora consulesa, e disse com voz troante:
  - A melhor casa de putas  na esquina da Rua Prat com a
Esmeralda. O melhor bar fica na da Matta com a Sucre. O meLhor
hospital para morrer  o do doutor Rendic que fala malicioso e
espeta injeces. O nico poeta da terra tem cirrose e vende a
taberna em prestaes mensais. A primeira pinocada com as
putas  grtis, a segunda  a crdito, e a terceira vale o
dobro. Se encontro algum de vocs separado do lote, mando-o
fuzilar por punheteiro e anarquista. Catem-se os piolhos e as
pulgas, andem sempre em manada, e no se esqueam desta ptria
que os recebe de braos abertos. Repitam comigo: Viva o Chile,
merda!
  - Viva o Chile, merda! - repetiu afinadamente o grupo,
constituindo-se ali mesmo na base do Coro Malicioso Don que
obteve fama internacional anos mais tarde.
  Logo nas madeiras do cais, como que seguindo o ritmo de uma
lenta profecia, Esteban quedou-se indolente atrs do grupo, e
perdeu o tempo fitando os ps at que os rapazes dobraram a
esquina vociferando canes maternas.
  Quando levantou a vista, tinha a um metro de distncia o
jornalista Pavlovic, uma mo no bolso do seu casaco preto a
ponto de tirar alguma coisa.
  - Foi uma longa peregrinao, Esteban Coppeta.
  - Longa, triste, molhada e intil, doutor Pavlovic.
  Olhou com apatia as modestas colinas, as ruas de terra
batida, o horizonte calcinado, as espinhas de peixe por entre
as gretas do molhe, o silncio do meio-dia, a parca brisa, e
em todo o crculo que abarcaram os seus olhos no viu uma
flor, uma rvore, uma mata, um arbusto, um talo verde em parte
nenhuma.

                         250 - 251


  - No h gua, certo?
  - H, mas salgada.
  - H trigo?
  - No h.
  - H cevada, centeio ou milho?
  - No h.
  - H lampos ou figos?
  - L haver no h.
  - H mas ou peras, favas, gro, lentilhas ou batatas?
  - No, rapaz. No h.
  - H beterrabas, repolhos ou acelgas?
  - No, Esteban. No h. Tambm no h mel nem cera de
abelhas.
  - Ento em que posso trabalhar? No vejo uma rvore nem uma
planta.
  - Na praa h um pavo. E o mar est cheio de peixes.
  - Mas a terra, doutor, que merda d?
  - Nada, menino. Toda a riqueza desta terra est debaixo da
terra.
  - No percebo.
  - Minerais, rapaz.
  - No h nada, doutor. Isto  o nada em pelota.
  - H um esplndido dirio. Eu escrevo nele.
  Esteban esfregou a cara e sentiu os olhos j ridos de tanta
areia e terra, de silncio rotundo e pusilnime. Engolindo
saliva, enxugou com o pulso a transpirao da fronte. O
jornalista apertou o papel no interior da algibeira, e antes
de tir-lo, pigarreou depois de molhar longamente os dedos.
  - E ms notcias, filho.
  Estendeu-Lhe o papel sem olhar para ele. Mas depois de depor
a missiva nas mos de Esteban desatou a gravata cinzenta do
engomado colarinho branco. Com o punho limpou a pena de uma
ave que lhe roou pelo bigode.
  Esteban desdobrou a mensagem e a intensidade do seu olhar
devorou o texto de um flego.


  Senhor Esteban Coppeta. Antofagasta. Lamento comunicar Alia
Emar vexada por tropas inimigas. Com desgosto confirmo 
suicdio dom Jernimo Franck diante do porto. Desejo-lhe uma
nova vida mais feliz no Chile. Com os melhores cumprimentos.
Padre Pregel, Costas de Malcia.


  O corpo de Esteban foi assaltado por um formigueiro de
rubor. O asfixiante enjoo dobrou-Lhe os joelhos e picou-lhe o
umbigo com uma vertigem incontrolvel. Lgrimas grossas
taparam-lhe a garganta, e a cabea rodou-lhe desbocada, movida
pela sbita febre de um delrio.
  Caiu de joelhos no cho, e enterrando o nariz como um co na
terra estril, disse:
  - Que haja Deus!



                    O Autor e a Obra


     Antonio Skrmeta nasceu em Antofagasta (Chile), em 1940.
Estudou Filosofia e Letras no seu pas e diplomou-se na
Universidade da Colmbia, nos Estados Unidos. De 1967 at
1973, ano em que se exilou em Berlim na sequncia do golpe
militar de Pinochet, deu aulas de Literatura na Universidade
do Chile. A partir de 1981, dedicou-se  escrita, ao cinema e
ao teatro, sendo simultaneamente professor convidado de
numerosas universidades europeias e norte-americanas. Regressa
ao Chile quando Pinochet se afasta do poder e foi autor e
apresentador de um programa de televiso, El Show de los
Libros que obteve, em 1992, o Prmio Crculo dos Crticos de
Arte e o Prmio Ondas em Espanha para o melhor programa
cultural latino-americano.
  Da sua produo literria destacam-se os romances Soe que
la nieve ardia, No pas nada (traduo portuguesa: No Foi
Nada), La insurreccin, Match-Ball (traduo portuguesa: A
velocidade do Amor), La Boda del Poeta (traduo portuguesa: A
Boda do Poeta), e os livros de contos El entusiasmo, Desnudo
en el tejado, Prmio Casa das Amricas, e Tiro libre.
  Condecorado pelo Governo francs, foi bolseiro da Fundao
Guggenheim e do Programa das Artes de Berlim. A sua actividade
como argumentista inclui filmes como Reina la tranquilidad en
el pas e La insurreccin, de Peter Lilienthal, e Desde lejos
veo este pas, de Christian Ziewer.
  Como director de cinema rodou vrios documentrios e 
longas-metragens, entre as quais se destaca Ardiente paciencia
(1993), baseado no romance com o mesmo ttulo, galardoado nos
festivais de Huelva, Biarritz e Bordus e distinguido com o
Prmio Adolf Grimm, na Alemanha, e o Prmio Georges Sadoul
para o melhor filme estrangeiro, em Frana. Em 1994 estreou-se
no Festival de Veneza uma nova adaptao cinematogrfica deste
seu livro com o ttulo O Carteiro de Pablo Neruda, realizada
por Michael Radford e interpretada por Philippe Noiret e
Massimo Troisi.



                    Data da Digitalizao


                    Amadora, Abril de 2002

  
  
  
